Cinco Novos Ozempics, Fed Mantém Juros, Um Freio na IA e Vacas com IA Viram Garantia
Bom dia! Hoje é 30 de julho. Neste mesmo dia, em 1898, morria Otto von Bismarck, o chanceler prussiano que unificou a Alemanha por meio de uma filosofia política que ele mesmo batizou de Realpolitik: a arte de governar com base no mundo como ele é, não como se desejaria que fosse. Bismarck desconfiava de idealistas, detestava promessas grandiosas e administrava alianças com a frieza de um engenheiro: cada compromisso existia para servir a um propósito concreto, e quando o propósito mudava, o compromisso era reescrito sem cerimônia.
Cento e vinte e oito anos depois, as notícias de hoje são exercícios de Realpolitik sob formas que Bismarck reconheceria imediatamente. A Anvisa aprova cinco concorrentes do Ozempic porque o mundo como ele é exige acesso mais barato ao medicamento, independentemente do que a Novo Nordisk desejaria. O Fed mantém os juros, mas três de seus próprios dirigentes votam por alta, porque a inflação como ela é não combina com a política como ela foi. Sam Altman pede que a indústria desacelere o desenvolvimento de IA, porque a tecnologia como ela é já escapou de um sandbox e atacou um alvo real. E um pecuarista mineiro coloca colares com inteligência artificial no pescoço de suas vacas e as transforma em garantia de crédito registrada na B3, porque o sistema financeiro como ele é sempre desvalorizou o gado, até que a tecnologia provou que não precisava.
Cinco Novos Ozempics Chegam ao Brasil
A Anvisa aprovou o registro de cinco novas canetas com semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, elevando para seis o número de medicamentos com a molécula disponíveis no mercado brasileiro. Entre os novos estão produtos da suíça Sandoz, da brasileira Hypera e da indiana Sun Pharma. A Novo Nordisk perdeu a exclusividade sobre a semaglutida em março, e desde então o fluxo de concorrentes não parou: 68% de todas as solicitações de registro de dispositivos injetáveis para obesidade e diabetes já protocoladas na Anvisa são para medicamentos sintéticos, ou seja, o pipeline de competidores é maior do que o mercado atual.
As novas canetas não são, tecnicamente, genéricos: a legislação brasileira não permite a fabricação de genéricos de produtos biológicos, então foram classificadas como “medicamento novo, alternativa sintética do produto biológico”. A distinção regulatória importa menos do que a consequência prática: mais cinco concorrentes num mercado que movimentou R$ 5,6 bilhões em vendas de semaglutida no ano passado e que, junto com a tirzepatida da Eli Lilly, deve atingir R$ 35 bilhões até 2030, segundo o Itaú BBA.
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A Hypera, que batizou seu produto de Semavy, disse ao Valor que ele “tem potencial para ser um dos principais produtos da companhia, dado o tamanho desse mercado”. E a chegada das alternativas mais baratas já provocou reações: até a Lilly, que opera com uma molécula diferente e protegida por patente até 2036, anunciou descontos na compra de combos, algo que surpreendeu analistas que esperavam manutenção de preços.
A implicação mais profunda, contudo, vai além da guerra de preços entre farmacêuticas. Como temos acompanhado no nosso dia a dia – desde as quedas no preço do açúcar provocada pelos GLP-1 até o impacto no mercado de etanol, passando pela “proteinificação” do consumo e pelo lançamento da Spaten Pro pela Ambev –, as canetas emagrecedoras estão redesenhando cadeias inteiras da economia. Cada redução no preço da semaglutida desbloqueia uma onda de novos usuários que antes estavam fora do mercado por causa do custo, e cada novo usuário é um consumidor cujo padrão alimentar, cujo apetite e cujo corpo mudam – tudo isso com efeitos que se espalham do supermercado ao agronegócio, da indústria de bebidas ao preço do combustível.
Os cinco novos Ozempics que a Anvisa aprovou, nesse sentido, não são apenas medicamentos. São aceleradores de uma transformação que já estava em curso e que, a cada queda de preço, avança mais rápido.
O Fed Mantém os Juros, mas Três Dirigentes Discordam
O Federal Reserve manteve a taxa de juros americana na faixa entre 3,50% e 3,75%, como esperado, mas a decisão foi aprovada por 9 votos a 3. Três dirigentes votaram a favor de um aumento de 0,25 ponto percentual, o maior número de dissidências pró-alta desde setembro de 2016. O presidente Kevin Warsh, que já disse publicamente que “a inflação é uma escolha”, e sob esse premissa, escolheu a manter.
Mas o fato de que três dos seus próprios membros votantes olharam para os mesmos dados inflacionários – tensionados devidos aos conflitos do Oriente Médio e o encarecimento da energia americana, principalmente – e concluíram que os juros deveriam subir agora sinaliza que a discussão interna não é mais sobre se a inflação está elevada, mas sobre quanto tempo o banco central ainda pode esperar para reagir.
Para a indústria de IA, a decisão importa mais do que parece. As grandes empresas de tecnologia emitiram centenas de bilhões de dólares em títulos de dívida este ano para financiar data centers, todos precificados com a premissa de que os juros cairiam. Como cobrimos nas últimas edições, a Alphabet entrou em fluxo de caixa livre negativo, a Amazon viu a demanda por seus títulos cair pela metade, e a Nvidia já negocia garantias de US$ 750 bilhões que só fazem sentido num ambiente de dinheiro barato.
Se o Fed subir os juros em vez de mantê-los ou cortá-los, cada um desses títulos fica mais caro para carregar, e a nova dívida que essas empresas ainda precisam emitir fica mais cara para levantar. Toda a infraestrutura de IA que está sendo construída foi projetada para um ambiente de dinheiro barato. E o Fed, com três votos pela alta, acabou de avisar que esse ambiente não é garantido.
Sam Altman Pede para Desacelerar a IA
Sam Altman afirmou que talvez seja hora de “regular o ritmo” do desenvolvimento da inteligência artificial para que o mundo esteja preparado para ela. Tanto a OpenAI quanto a Anthropic manifestaram seu apoio a uma petição assinada por mais de mil funcionários dos principais laboratórios de IA, incluindo o CEO da Anthropic, Dario Amodei, que pede ao governo americano que “apoie um esforço internacional para desenvolver as ferramentas técnicas e de governança necessárias para ditar o ritmo do desenvolvimento da IA automatizada”.
Os pesquisadores da OpenAI, vale lembrar, suspenderam a todo o mundo com o treinamento de seu novo modelo de IA cujo agente escapou de um sandbox e atacou autonomamente a Hugging Face enquanto trabalham em como manter seus ambientes de teste seguros.
A declaração de Altman teria peso diferente se viesse de alguém que não liderasse a empresa mais agressiva da indústria. O CEO que está em meio a negociaçoes para construir o maior data center da história, que se prepara para um IPO que pode ultrapassar US$ 300 bilhões e que lançou o GPT-5.6 com aprovação prévia do governo americano, agora diz que é hora de desacelerar.
O problema de confiança que podemos sentir frente a este pedido do executivo, nesse cenário, é evidente, pois quando Altman pede freio, o mercado precisa decidir se ele está genuinamente preocupado com a segurança ou estrategicamente interessado em elevar as barreiras de entrada para concorrentes menores e modelos chineses de código aberto como o Kimi K3, que ameaçam a viabilidade econômica dos laboratórios de fronteira ao cobrar metade do preço.
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A verdade desconfortável é que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. A IA que escapou do sandbox da OpenAI demonstrou capacidades autônomas que, como um professor de Cambridge observou, estão “totalmente dentro das capacidades da geração atual” de modelos – o que significa que o risco é real, não hipotético. Mas a resposta que Altman e a indústria propõem, sendo ela a de construir organizações de segurança financiadas pelos próprios laboratórios, como Hassabis do Google DeepMind também sugeriu, cria uma estrutura em que as empresas que mais lucram com a IA são as mesmas que definem o ritmo de sua regulação. Bismarck diria que isso é Realpolitik pura: quando você não pode evitar que regras sejam criadas, a segunda melhor opção é garantir que você seja quem as escreve.
Vacas com IA Viram Garantia de Empréstimo na B3
O Brasil realizou a primeira operação de crédito registrada na B3 usando um rebanho tokenizado como garantia. Dez vacas leiteiras da fazenda Engenho Velho, em Belo Horizonte, foram avaliadas em R$ 120 mil e garantiram a liberação de R$ 100 mil em crédito. Cada animal carrega no pescoço um colar inteligente desenvolvido pela Cowmed (quase que um Apple Watch) que monitora alimentação, descanso, ruminação, respiração, temperatura e localização em tempo real dos animais. Com base nesses dados, a inteligência artificial embarcada prevê se o animal está saudável ou desenvolvendo uma doença, se está sendo tratado e se apresenta melhora ou piora. É, nas palavras dos envolvidos, “um smartwatch no pescoço da vaca, só que muito mais avançado”.
A operação resolve um problema que o sistema financeiro brasileiro carrega há décadas. Usar animais como garantia de empréstimos sempre foi arriscado porque o banco não tinha como saber onde o bicho estava, em que condição sanitária se encontrava, nem se o mesmo animal já havia sido oferecido como garantia em outro empréstimo. O resultado prático era que uma vaca avaliada em, supondo, R$ 40 mil valia apenas R$ 16 mil como garantia, uma vez que o banco descontava 60% do valor para compensar a incerteza e o risco deste tipo de garantia. Com o colar de IA e o token registrado na B3, que impede que o mesmo animal seja usado como garantia duas vezes, a incerteza desaparece. O banco acessa em tempo real a saúde, a localização e o histórico de cada cabeça. Se um animal morre, o sistema avisa imediatamente, e o produtor repõe conforme o contrato.
Para além da operação em si, o caso das vacas tokenizadas é talvez o melhor exemplo concreto de como a inteligência artificial está criando valor econômico em setores que pareciam permanentemente excluídos da digitalização. O gado brasileiro representa uma das maiores reservas de riqueza do agronegócio, mas sua liquidez como ativo financeiro sempre foi limitada pela opacidade – ninguém confiava no que não podia verificar. A IA elimina essa opacidade, afinal, agora cada animal se torna um ativo rastreável, verificável e negociável com a mesma transparência de uma ação na bolsa.
Se o modelo escalar, e o Brasil possui mais de 230 milhões de cabeças de gado, o impacto sobre o crédito rural pode ser comparável ao que o Pix fez pelo sistema de pagamentos: transformar algo que funcionava, mas com muito atrito, em algo que funciona sem nenhum.






