Humanoides em Cirurgias, a Fazenda no iFood, a IA Sente o Mercado Esfriar e pede uma Regulação
Bom dia! Hoje é 15 de julho. Neste mesmo dia, em 1799, um soldado francês chamado Pierre-François Bouchard encontrava, durante as escavações de um forte no delta do Nilo, uma laje de basalto negro coberta de inscrições em três escritas diferentes: grego antigo, demótico e hieróglifos egípcios. A Pedra de Roseta, como ficou conhecida, não tinha valor militar nem comercial. Mas continha algo mais poderoso: a chave para traduzir entre dois mundos que, durante milênios, não conseguiam se comunicar.
Duzentos e vinte e sete anos depois, a busca por tradução entre mundos que não se entendem continua sendo o motor das inovações mais consequentes. As notícias de hoje são, todas elas, tentativas de tradução: um robô que traduz as mãos de um cirurgião a milhares de quilômetros de distância, uma fazenda vertical que traduz agricultura em entrega por aplicativo, um mercado de dívida que traduz entusiasmo em cautela, e um CEO que tenta traduzir o poder da inteligência artificial numa linguagem que reguladores consigam entender. Em todos os casos, o desafio é o mesmo que a Pedra de Roseta resolveu: encontrar a chave que conecta duas realidades que, sozinhas, não conseguem se comunicar.
Robôs Humanoides Operam um Paciente Vivo pela Primeira Vez
Dois robôs humanoides realizaram, pela primeira vez na história, uma cirurgia em um paciente vivo. A equipe da Universidade da Califórnia em San Diego publicou na revista Nature os resultados de um experimento em que dois modelos comerciais Unitree G1 conduziram uma colecistectomia laparoscópica (a remoção da vesícula biliar) em um porco.
O resultado foi um sucesso: os robôs retraíram tecidos, dissecaram, grampearam e retiraram a vesícula do leito hepático sem danos. Mas, por outro lado, o paciente era suíno, os robôs estavam sendo teleoperados por cirurgiões humanos em cada movimento à distância. Mesmo com todas essas ressalvas, o que aconteceu naquele laboratório foi um marco: a prova de conceito de que robôs humanoides de uso geral podem executar procedimentos cirúrgicos reais em tecido vivo.
O detalhe mais impressionante não é a cirurgia em si, mas o robô que a realizou. O Unitree G1 mede entre 1,20 e 1,50 metro, pesa 32 quilos e custa menos de 20 mil dólares, uma fração do preço de qualquer sistema cirúrgico dedicado. O da Vinci, da Intuitive Surgical, que hoje domina o mercado de cirurgia robótica assistida, custa mais de US$ 1 milhão por unidade e foi desenhado exclusivamente para o centro cirúrgico. O G1 é um robô genérico, barato e disponível comercialmente, que nunca foi projetado para operar ninguém. Se ele conseguiu realizar um procedimento real, mesmo teleoperado, a pergunta que se impõe não é mais a de quando teremos robôs cirurgiões, mas é de quanto tempo precisaremos até vermos robôs baratos e genéricos se tornem bons o suficiente para nos operarem.
A implicação mais profunda, e a que a equipe de San Diego destaca como a motivação central do estudo, foi geográfica. Afinal, existem regiões inteiras do planeta onde a medicina cirúrgica não chega porque não há cirurgiões disponíveis, não há infraestrutura hospitalar adequada e o custo de equipamentos dedicados é proibitivo. Um humanoide genérico de US$ 20 mil que pode ser teleoperado por um especialista a milhares de quilômetros não resolve todos esses problemas, mas resolve o mais fundamental: a presença física.
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Se o cirurgião não precisa estar na sala, ele pode estar em qualquer sala. E se o robô é barato o suficiente para ser enviado a uma clínica remota em vez de exigir que o paciente viaje até um hospital central, a lógica da saúde se inverte, e o equipamento vai ao paciente, não o paciente ao equipamento. A equipe admite, porém, que “desafios técnicos fundamentais precisam ser superados antes da implementação clínica”, mas o caminho está traçado. E ele começa com um robô de US$ 20 mil, um porco, e a demonstração de que a distância entre o cirurgião e o paciente não precisa mais ser medida em quilômetros.
A Fazenda Dentro do App
A Pink Farms, investida da SLC Agrícola, começou a vender seus produtos diretamente pelo iFood em bairros de São Paulo como Pinheiros, Vila Madalena e Perdizes. A empresa cultiva verduras em uma fazenda vertical dentro da capital paulista, em um ambiente controlado, sem agrotóxicos e usando até 95% menos água do que a agricultura convencional. Sua produção acontece o ano inteiro, independente de chuva, seca ou geada. E agora, a venda acontece dentro de uma plataforma que já faz parte da rotina diária de milhões de brasileiros.
Isso quer dizer, nas Entrelinhas, que distância entre a fazenda e a mesa do consumidor, que no modelo tradicional envolve centenas de quilômetros de transporte, atacadistas, distribuidores e varejistas, encolheu para o espaço entre um galpão em São Paulo e o botão de “pedir” no celular.
O que torna esse caso interessante não é a fazenda vertical em si, que já existe há anos em diversas cidades do mundo, e nem sua presença no iFood, que já vende produtos de supermercado e farmácia. Mas é a combinação dos dois, e o que ela revela sobre a direção do sistema alimentar urbano.
Quando uma fazenda produz, colhe, vende e entrega dentro da mesma cidade, usando uma plataforma digital como canal de distribuição, o modelo tradicional de agricultura, ou seja, o de produzir longe, transportar muito, estocar bastante e vender onde der, perde uma camada inteira de intermediação. A SLC Ventures, braço de inovação da SLC Agrícola que investiu na Pink Farms, entendeu que estar perto do consumidor final é tão estratégico quanto possuir milhares de hectares no cerrado. Deste modo, a nova fazenda pode estar dentro de um galpão. E a feira, dentro do aplicativo.
A Festa da IA Está Ficando Mais Cara Para Financiar
A Amazon acabou de emitir US$ 25 bilhões em títulos de dívida, e, de verdade, o dado que nos importa não é do tamanho da operação, mas é o da demanda por essas dívidas. Em março, a relação entre oferta e procura pelos papéis da empresa foi de 3,2 vezes, ou seja, para cada dólar que a Amazon queria tomar emprestado, investidores ofereciam mais de três. Na emissão mais recente, essa relação caiu pela metade, para 1,6.
Em outras palavras, o apetite dos investidores por financiar os bilhões que as big techs direcionam para infraestrutura de IA está diminuindo, e o gráfico das ações da Amazon, que vem perdendo força relativa em comparação ao setor de consumo discricionário desde maio, confirma a tendência.
O sinal não é de pânico, mas é de um ceticismo crescente. Nos últimos trimestres, Amazon, Microsoft, Meta e Google comprometeram centenas de bilhões de dólares em data centers, chips e infraestrutura computacional, justificando cada investimento com a promessa de que a IA geraria receita suficiente para compensar os gastos.
Mas, como temos coberto nas últimas edições, desde a admissão de Zuckerberg de que os resultados ficaram aquém do esperado até a queda relativa das Magníficas no mercado, a distância entre a promessa e a entrega começou a incomodar quem assina os cheques. E, quando a demanda por dívida de uma empresa como a Amazon cai pela metade em quatro meses, o mercado não está dizendo que a IA é uma bolha. Está dizendo que precisa ver retorno antes de continuar emprestando no mesmo ritmo. É a diferença entre duvidar da tese e exigir provas.
O CEO do Google DeepMind Quer um Regulador Para a IA
Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind e um dos cientistas mais influentes da indústria de inteligência artificial, publicou nesta terça-feira um artigo defendendo a criação de um órgão regulador independente para supervisionar o lançamento de modelos de IA de fronteira. A proposta, intitulada “Uma Estrutura para IA de Vanguarda e o Alvorecer de uma Nova Era”, sugere algo nos moldes da FINRA, a autoridade que regula o mercado financeiro americano: um organismo apoiado pelo governo, mas financiado pela indústria, operado de forma independente e composto por especialistas técnicos e representantes de código aberto.
O órgão ficaria responsável por testar modelos avançados e desenvolver padrões para seu lançamento, substituindo as revisões improvisadas que Washington realizou nos últimos meses sobre o Mythos da Anthropic e o Sol da OpenAI, onde estes processos foram criticados pela falta de conhecimento técnico e pela opacidade (e talvez favorecimento político) nas decisões.
A ironia de o CEO do Google DeepMind, uma divisão que desenvolve alguns dos modelos mais avançados do planeta, pedir regulação não é um paradoxo. É estratégia. Pois quando o líder tecnológico de um setor pede regras formais, ele geralmente está pedindo regras que consegue cumprir melhor do que seus concorrentes menores, que não possuem os recursos, as equipes de segurança ou a infraestrutura para se submeter a auditorias rigorosas.
Um órgão regulador que exija testes extensivos antes do lançamento de modelos de fronteira beneficia diretamente empresas como Google, Anthropic e OpenAI, que já fazem esses testes internamente, e cria barreiras de entrada para startups que operam com menos estrutura e mais velocidade.
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Dito isso, a necessidade de alguma forma de supervisão é real e urgente. As revisões realizadas pelo governo americano sobre o Mythos e o Sol expuseram a fragilidade do modelo atual, com suas agências sem expertise técnica avaliando modelos que seus próprios criadores não compreendem inteiramente, em processos sem transparência e sem critérios públicos para decidir quando um modelo pode ou não ser liberado.
A proposta de Hassabis não resolve todos esses problemas, mas oferece algo que o cenário atual não tem: um fórum permanente, com competência técnica, onde as decisões sobre o lançamento de IA de fronteira sejam tomadas por quem entende do assunto, e não por burocratas que descobrem o que é um modelo de linguagem na véspera da audiência. Se a indústria de IA vai ser regulada, e cada vez parece mais claro que sim, a pergunta que resta é quem escreverá as regras. E Hassabis está tentando garantir que essa caneta fique na mão de quem sabe como a tinta funciona.






