O Preço de Reter Empregos, IA Chinesa é a Melhor, Google com Novos Chips e a Fusão Paramount-Warner Trava
Bom dia! Hoje é 21 de julho. Neste mesmo dia, em 1969, Neil Armstrong se tornava o primeiro ser humano a pisar na Lua, pronunciando a frase que definiria o século XX: “Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade.” A missão Apollo 11 custou, em valores atualizados, mais de US$ 200 bilhões, empregou 400 mil pessoas e exigiu invenções em áreas que iam de metalurgia a nutrição, tudo para que dois homens passassem 21 horas numa superfície onde nenhuma vida jamais existiu.
Cinquenta e sete anos depois, a mesma lógica que levou os Estados Unidos à Lua, ado investimento colossal em infraestrutura, corrida geopolítica contra um rival e dependência absoluta de talentos que ninguém mais possui, define a corrida pela inteligência artificial. A ASML paga bônus milionários porque os engenheiros que fabricam as máquinas mais importantes do planeta são tão escassos quanto os chips que elas produzem. Uma startup chinesa lança um modelo de IA que rivaliza com o melhor do Ocidente, provando, mais uma vez, que embargos retardam, mas não impedem. O Google projeta um chip que grava inteligência artificial diretamente no silício, abrindo mão de flexibilidade em troca de eficiência. E Hollywood descobre que, na era do streaming, até fusões bilionárias enfrentam a gravidade da regulação. Em todos os casos, o padrão é o mesmo de 1969: a distância entre a ambição e a realização é medida em talento, infraestrutura e vontade política.
A ASML Paga € 20 Mil para Que Funcionários Não Saiam
A ASML, a empresa holandesa que, como cobrimos na semana passada, detém 100% do mercado mundial de máquinas de litografia avançada para semicondutores, anunciou que concederá um bônus de € 20 mil, cerca de R$ 116 mil, a cada funcionário que permanecer na empresa entre 2027 e 2030. O benefício será pago por meio de ações condicionais e está sendo oferecido a todos os funcionários elegíveis da companhia, que hoje emprega cerca de 44,5 mil pessoas, a maioria na Holanda.
A iniciativa responde a um gargalo que a indústria de semicondutores enfrenta com uma intensidade cada vez maior: a escassez de profissionais qualificados. Isso se comprova, uma vez que suas concorrentes, TSMC, Samsung e SK Hynix, também já oferecem remunerações adicionais para atrair e reter talentos, e a competição por engenheiros especializados em litografia, design de chips e processos de fabricação avançada se tornou tão acirrada quanto a competição pelos próprios chips.
Nesse cenário, a ASML informou, ainda, que sua principal linha de equipamentos está praticamente esgotada até 2027, com um lucro líquido de € 2,92 bilhões no trimestre, apresentando os números que confirmam que sua alta demanda supera a capacidade não apenas de máquinas, mas de gente para montá-las.
O dado mais revelador, contudo, não é o bônus em si, mas o horizonte que ele implica. Ao vincular o pagamento à permanência até 2030, a ASML está sinalizando ao mercado que espera que a demanda por seus equipamentos se mantenha elevada por pelo menos mais quatro anos, e que o talento necessário para atendê-la continuará escasso por todo esse período.
Numa indústria em que cada máquina leva anos para ser montada com mais de 100 mil peças, perder um engenheiro sênior não é apenas uma vaga aberta, mas é um verdadeiro colapso, pois é uma linha de produção que atrasa, um cliente que espera mais e uma cadeia tecnológica global que sente o impacto. A ASML pode ser a empresa mais valiosa da Europa, mas sua vulnerabilidade mais profunda não está na concorrência, mas está na porta giratória do departamento de recursos humanos – que está, hoje, em um cenário de guerra por talentos.
Uma IA Chinesa Surpreende o Mundo… de Novo
O Kimi K3, novo modelo de inteligência artificial da startup chinesa Moonshot, alcançou o topo das classificações de desempenho em programação na Arena, a principal plataforma de avaliação comparativa de modelos de IA, rivalizando (e superando) com as melhores versões do Claude, da Anthropic, e do ChatGPT, da OpenAI.
A apresentação do modelo aconteceu pouco antes do discurso de abertura do presidente Xi Jinping na Conferência Mundial Anual de Inteligência Artificial em Xangai, onde a Huawei também revelou o Atlas 950 SuperPod, um novo sistema de computação projetado para IA. O momento oportuno, é claro, quis passar, nas Entrelinhas, uma mensagem da China ao mundo: apesar dos embargos, estamos chegando.
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A reação do mercado frente ao anúncio nos lembra o pânico provocado pela DeepSeek em janeiro de 2025, quando a startup chinesa demonstrou que modelos competitivos podiam ser treinados a uma fração do custo dos rivais americanos. O Kimi K3, na sua vez de brilhar, repete a fórmula de seu antecessor chinês, operando em código aberto, com desempenho de primeira e uma estratégia de preços agressiva – onde o preço do modelo ainda custa a metade do preço do GPT-5.6 Sol da OpenAI.
Para analistas como Patrick Moorhead, o lançamento representa um desafio direto de receita para a Anthropic e a OpenAI, cujos modelos proprietários e fechados justificam preços premium que, a cada novo lançamento chinês, ficam mais difíceis de sustentar.
Por fim, vemos mais uma vez que o padrão que se consolida é que, dia após o outro, as restrições lideradas pelos Estados Unidos que impediram a China de acessar as tecnologias mais avançadas do Ocidente, em vez de paralisar o desenvolvimento chinês, aceleraram a busca por alternativas domésticas.
Hoje, a Huawei fabrica chips de IA próprios. A DeepSeek projeta semicondutores de inferência. E agora a Moonshot entrega um modelo que compete com os melhores do mundo usando um hardware que, em tese, não deveria ser suficiente para isso. A cada lançamento chinês que iguala ou se aproxima do estado da arte ocidental, a tese de que embargos tecnológicos podem conter a ascensão da IA chinesa perde um pedaço. Não porque os embargos sejam ineficazes, eles claramente aumentam custos e atrasam cronogramas, mas porque a China demonstra, a cada trimestre, que atraso não é o mesmo que impedimento. E, para quem aposta que a vantagem americana em IA será duradoura, essa distinção deveria ser mais perturbadora do que reconfortante.
O Google Quer Gravar a IA Dentro do Chip
O Google está desenvolvendo um chip de servidor que incorporaria partes do modelo Gemini diretamente no hardware, segundo o The Information. Apelidado internamente de “Frozen v2”, o processador é projetado para ser de seis a dez vezes mais eficiente que os chips de IA customizados mais recentes da empresa, medido em tokens servidos por unidade de energia. O plano é implantá-lo em 2028, embora o design ainda esteja sendo finalizado. A lógica é elegantemente radical: ao gravar operações específicas do Gemini no silício, o chip deixa de ser um processador genérico e se torna uma máquina desenhada para rodar um único modelo com o mínimo de desperdício.
A troca embutida nessa decisão é a mesma que define toda engenharia: flexibilidade versus desempenho. Um chip genérico roda qualquer modelo, mas desperdiça energia e capacidade em operações que não precisa fazer. Um chip com um modelo gravado em seu corpo faz menos coisas, mas faz aquela coisa específica com uma eficiência que nenhum processador genérico alcança. É a diferença entre uma chave de fenda ajustável e uma chave sob medida para um único parafuso – se você sabe exatamente qual parafuso vai apertar milhões de vezes, a segunda opção é incomparavelmente mais rápida e consome menos energia que a primeira.
Para o Google, o Frozen responde a um problema concreto e urgente. A empresa enfrenta uma escassez de capacidade computacional para IA que já levou o Google Cloud a recusar contratos com clientes externos, ou seja, ela está deixando dinheiro na mesa por falta de infraestrutura para atendê-los. O Frozen, nesse cenário, seria desenvolvido como uma linha separada das TPUs, os chips de IA que o Google já projeta, criando uma infraestrutura paralela dedicada exclusivamente à inferência do Gemini.
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Se funcionar como prometido, o Google poderá atender exponencialmente mais consultas ao Gemini pelo mesmo consumo energético, resolvendo simultaneamente o gargalo de capacidade e o custo por token, que se tornou a obsessão de toda a indústria. E, para a Nvidia, é mais uma fissura: quando até os chips customizados dos seus clientes não são suficientes e eles precisam gravar o modelo no silício para ganhar eficiência, a mensagem é de que a GPU genérica, por mais poderosa que seja, está encontrando seu limite como solução universal.
A Fusão Paramount-Warner Trava na Justiça
A proposta de aquisição da Warner Bros. pela Paramount, avaliada em US$ 110 bilhões e que criaria um dos maiores conglomerados de mídia do planeta, foi suspensa por 14 dias por uma juíza federal (americana) após uma ação movida por uma coalizão de procuradores-gerais estaduais que argumentam que a fusão prejudicaria a ampla concorrência no setor.
A ação alega que a união das duas empresas reduziria a competição em três áreas: distribuição de filmes em ampla exibição nos cinemas, distribuição de filmes de grande bilheteria e licenciamento de TV a cabo. O CEO da Paramount, David Ellison, havia afirmado em maio que a transação estaria concluída até setembro. Agora, esse prazo parece cada vez menos realista.
O que estava em jogo, além dos estúdios de cinema mais icônicos de Hollywood, era a unificação de dois dos maiores acervos de conteúdo do mundo, que fundiria o Paramount+ e o HBO Max numa mesma plataforma de streaming, e colocaria o CBS e o MTV ao lado de CNN e HBO, numa tentativa de criar uma alternativa com escala suficiente para competir com a Netflix, que segue ampliando sua liderança enquanto os rivais tradicionais lutam para encontrar um modelo sustentável.
A lógica da fusão era de que, sozinhas, Paramount e Warner não conseguem competir com a Netflix em escala de assinantes, orçamento de conteúdo ou alcance global. Mas juntas, teriam uma chance.
A decisão da juíza não mata o negócio, mas o atrasa num momento em que velocidade é o recurso mais escasso do setor de streaming. Cada mês de paralisia é um mês em que a Netflix consolida assinantes, a Amazon integra conteúdo ao Prime, a Apple investe em originais e o YouTube, que, como cobrimos durante a Copa do Mundo, já opera no mesmo patamar comercial das emissoras tradicionais, avança sobre o público que ambas precisam capturar. Para Paramount e Warner, o risco não é apenas regulatório: é que, quando a fusão finalmente acontecer, se acontecer, o mercado que ela pretendia conquistar já tenha sido dividido entre concorrentes que não precisaram pedir autorização a nenhum juiz para crescer.






