Bom dia! Hoje é 27 de outubro. Neste mesmo dia, em 1904, o metrô de Nova York abria as portas pela primeira vez, apresentando 28 estações ligadas por túneis que levaram quatro anos para escavar e que, em menos de uma hora, conectavam a Prefeitura de Lower Manhattan à rua 145, no Harlem. Antes do metrô, morar a seis quilômetros do trabalho significava depender de uma carroça, de um bonde a cavalo ou de pernas que aguentassem a caminhada. Depois dele, significava dez minutos num vagão subterrâneo. A cidade não ficou menor. As distâncias é que perderam importância. E quem antes vivia isolado, seja por morar longe demais, por não ter dinheiro para transporte ou por habitar um bairro que ninguém conectava a nada, ganhou acesso. Não porque o metrô fosse perfeito: era barulhento, apertado e sofreu atrasos no primeiro dia. Mas porque, pela primeira vez, a infraestrutura chegou aonde as pessoas já estavam.
Cento e vinte e dois anos depois, a infraestrutura continua sendo a força que decide quem participa e quem fica de fora, só que, em outubro de 2026, ela vem de cima, não de baixo. A Vivo acaba de oficializar uma parceria com a Starlink que permite que celulares comuns se conectem diretamente a satélites em órbita, levando sinal de internet a comunidades, rodovias e trechos do Brasil onde nenhuma torre de celular jamais será construída. A Microsoft oferece demissão voluntária a 60 mil funcionários enquanto investe US$ 50 bilhões por trimestre em data centers de IA, construindo a infraestrutura que substitui a mão de obra que está dispensando. Elon Musk prevê uma “extinção em massa” das neoclouds, as empresas que construíram data centers menores para atender a demanda por IA e que agora enfrentam mercados de crédito fechados, ações em queda e a perspectiva de que só os maiores sobreviverão. E economistas revisitam episódios que vão de operadoras telefônicas demitidas da noite para o dia nos anos 1920 a fabricantes de botas substituídos por máquinas na Inglaterra vitoriana, buscando na história as pistas que o presente ainda não oferece sobre o que a inteligência artificial fará com o trabalho humano. Em todos os casos, a infraestrutura muda, e, quando ela muda, quem não se adapta não fica parado. Fica para trás.
Seu Celular Acaba de Se Conectar ao Espaço
Se você mora numa capital brasileira, a notícia pode parecer irrelevante, afinal, seu celular já funciona em qualquer lugar. Mas se você é motorista de caminhão na BR-163 no Pará, pescador no litoral do Amapá, agricultor no interior do Tocantins ou qualquer uma das milhões de pessoas que vivem em regiões onde o sinal de celular simplesmente não existe, o que a Vivo anunciou nesta segunda-feira é uma mudança de realidade. O serviço Vivo Satélite agora permite que smartphones comuns – sem antena especial, sem equipamento adicional, sem nenhuma modificação – se conectem diretamente à constelação de satélites da Starlink em órbita baixa. Com isso, sete milhões de aparelhos já estabeleceram conexão, cinquenta milhões de clientes podem acessar o serviço e, por enquanto, de forma gratuita.
Para entender o que isso significa na prática, é preciso entender o que significava antes. Instalar e manter uma torre de celular numa região remota da Amazônia custa centenas de milhares de reais, um investimento que, em muitos casos, não se paga, porque a densidade populacional dessas áreas é baixa demais para gerar a receita que justifica o investimento. Essa é a razão pela qual, em 2026, existem trechos inteiros de rodovias federais brasileiras onde um motorista não consegue fazer uma ligação de emergência, e comunidades ribeirinhas onde a única comunicação com o mundo exterior é um barco que leva dias para chegar à cidade mais próxima. Diante disso, a Starlink entra como uma possível (e provável) solução desse problema, não construindo torres, mas ignorando-as: o sinal, agora, vem de cima, de satélites que cobrem o território inteiro sem precisar de um único poste fincado no chão.
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A Entrelinha que conecta a Vivo Satélite ao arco que documentamos nas últimas semanas é que a Starlink não pretende ficar como apoio. Como registramos nesse mês, a SpaceX comprou US$ 8 bilhões em licenças de espectro nos Estados Unidos e se prepara para operar como operadora de telefonia móvel completa, com sinal de comunicação que entra em prédios, atravessa paredes e funciona nos mesmos aparelhos que as operadoras tradicionais servem.
Por aqui, a parceria com a Vivo é apresentada como complemento, que tem por escopo preencher lacunas onde a cobertura terrestre não chega. Mas a próxima geração que está por vir – a Starlink Mobile V2 – promete internet de alta velocidade por satélite, não apenas mensagens de emergência. E quando o “complemento” oferece mais do que o serviço principal, a relação entre parceiro e concorrente se inverte. O metrô de Nova York não substituiu as carroças no primeiro dia. Mas, três anos depois, ninguém mais dependia de cavalos para cruzar Manhattan. A Vivo convida a Starlink para cobrir onde ela não alcança. A questão é o que acontece quando a Starlink decidir que alcança tudo.
A Microsoft Demite com uma Mão e Investe com a Outra
Existe uma imagem que resume o momento da Microsoft melhor do que qualquer comunicado: a empresa oferece um pacote de demissão voluntária a 60 mil funcionários – o que representa mais de um quarto de toda a sua força de trabalho global – ao mesmo tempo em que investe mais de US$ 50 bilhões por trimestre em data centers de inteligência artificial. É, simultaneamente, a maior retração de pessoal e o maior programa de investimento que a empresa já executou, de modo que as duas coisas não acontecem apesar uma da outra, mas acontecem justamente por causa uma da outra. Isso porque a Microsoft, como se vê, está substituindo pessoas por infraestrutura – literalmente.
A oferta de demissão voluntária, que abrange funcionários nos Estados Unidos, Canadá, Índia e Reino Unido, é a segunda do tipo em seis meses – a primeira, em abril, alcançou cerca de 8.750 pessoas. A lógica que Nadella não verbaliza, mas que os números revelam, é baseada na premissa de que as funções que a IA executa com mais eficiência e menor custo são, em grande parte, as mesmas que esses funcionários ocupam.
Uma prova da eficiência que a IA vem proporcionando as empresas é, como documentamos, o exemplo do CEO da SAP, que declarou que estamos próximos da era de “empresas autônomas”, que terão sua produtividade baseada em agentes de IA. A Microsoft está, portanto, nessa equação: em vez de cortar o custo da IA por pessoa, está cortando o número de pessoas que a IA torna dispensáveis.
O detalhe que torna essa história mais do que corporativa é o timing, pois a empresa divulgará seus resultados trimestrais na quarta-feira. E os US$ 50 bilhões em capex que o mercado espera ver (alta de 20% sobre o trimestre anterior) precisarão coexistir, no mesmo balanço, com a despesa de reestruturação decorrente dos programas de demissão. É a fotografia mais nítida do dilema que percorre toda a indústria de IA em 2026: gastar mais para construir o futuro enquanto gasta menos com as pessoas que construíram o presente.
O metrô de Nova York criou empregos para operadores de trem, bilheteiros e engenheiros de manutenção. Mas eliminou os cocheiros, os condutores de bonde e os carroceiros que serviam as mesmas rotas. A Microsoft está construindo seu próprio metrô, só que de dados, chips e agentes. E, como em 1904, quem opera a nova infraestrutura não é necessariamente quem operava a antiga.
Musk Prevê a Extinção das Neoclouds
Se o nome “neocloud” não lhe diz nada, o conceito é simples: são empresas que surgiram nos últimos dois anos para vender capacidade de computação em nuvem voltada especificamente para inteligência artificial – alugando GPUs da Nvidia a clientes que não tinham escala para comprá-las diretamente e que precisavam de poder de processamento sem construir seus próprios data centers. A CoreWeave, a Nebius e dezenas de outras entraram nesse mercado, levantaram bilhões em dívida, compraram milhares de GPUs e as alugaram a startups de IA, laboratórios de pesquisa e empresas que queriam rodar modelos pesados sem investir em infraestrutura própria. Nesta segunda-feira, Elon Musk disse que mais de 200 delas vão desaparecer.
A previsão não é exatamente desinteressada, uma vez que a SpaceX opera sua própria nuvem de IA e competiria diretamente com as neoclouds que sobrevivessem, mas o diagnóstico que a sustenta é verificável: os mercados de crédito, segundo Musk, “praticamente fecharam suas portas para qualquer empresa que não tenha receitas substanciais independentes de data centers de IA”. Diante dessa nova política financeira, o mercado já reagiu e as ações da CoreWeave e da Nebius caíram mais de 30% no último mês, em conjunto aos rendimentos exigidos pelos investidores sobre as dívidas dessas empresas que subiram consideravelmente.
Com isso, se os projetos de expansão forem interrompidos por falta de financiamento, o retorno esperado com o aluguel de capacidade computacional demorará ainda mais para aparecer, criando um ciclo vicioso em que a dívida cresce, a receita não acompanha e o refinanciamento se torna cada vez mais caro.
A Entrelinha que torna a previsão de Musk mais do que opinião interessada é o que ela revela sobre a estrutura do mercado de IA como um todo. Durante dois anos, o crescimento da indústria foi financiado por uma cadeia que começava na Nvidia (que vendia os chips), passava pelas neoclouds (que os compravam a crédito e os alugavam), chegava às startups de IA (que pagavam pelo uso) e se sustentava pela premissa de que a demanda continuaria crescendo rápido o suficiente para que cada elo da cadeia se pagasse antes que o próximo vencimento chegasse.
Porém, quando os mercados de crédito se fecham para o elo mais frágil – isto é, as neoclouds, que têm receita, mas não nas proporções que a dívida exige –, a cadeia inteira é testada. Nesse sentido, Larry Fink recentemente alertou que não construir data centers é mais perigoso do que construí-los. Musk agora alerta que construí-los sem receita suficiente é tão perigoso quanto não construir. Talvez a diferença entre os dois alertas é a diferença entre quem financia a infraestrutura e quem depende dela para sobreviver – de tal modo que não saberemos quem está coberto pela razão.
A História Já Viu Isso Antes, e Tem Algo a Dizer
Em dezembro de 1931, com o desemprego nos Estados Unidos próximo de 20%, economistas se reuniram em Washington para discutir algo que parecia sem precedentes: a tecnologia estava eliminando empregos mais rápido do que a economia conseguia criar novos. Naquele contexto, operadoras de telefonia eram substituídas por sistemas automáticos de discagem e, por isso, perdiam o emprego da noite para o dia – literalmente, porque as empresas faziam a transição à meia-noite de sábado, e quem tinha emprego na sexta estava desempregada na segunda. Músicos de cinema perdiam espaço para os filmes falados. Condutores de carroças eram substituídos por motoristas de caminhão. E, coagido pela mudança, um economista, diante da assembleia, fez uma proposta que não pareceria deslocada numa audiência sobre IA em 2026: “Não seria possível tributar máquinas para desacelerar seu desenvolvimento?”
A pergunta nunca foi respondida, na verdade, quase um século depois, economistas a revisitam para tentar entender o que a inteligência artificial fará com o trabalho. Fazendo isso, a resposta que a história oferece não é reconfortante, mas também não é catastrófica: ela mostra que a tecnologia raramente elimina empregos em números absolutos, mas o que faz é transformá-los. Em 1851, a Inglaterra tinha 220 mil fabricantes de botas. Sessenta anos depois, o número era o mesmo, mas o tipo de trabalho era irreconhecível: os artesãos de cidades pequenas haviam se tornado operários de fábricas urbanas, produzindo dez vezes mais calçados por hora a preços dez vezes menores. Veja que o número de empregos em si não mudou, pois foi a natureza do trabalho quem mudou completamente.
E, diante dessa história, os economistas que estudam essa transição hoje observam que algo semelhante pode estar acontecendo com a IA: não é que os empregos desapareçam, mas é que os empregos que existem se transformam em algo que quem os ocupa nem sempre reconhece.
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Deste modo, a Entrelinha mais perturbadora do artigo que o Wall Street Journal publicou nesta semana, contudo, não é sobre os empregos que a IA pode eliminar, pois a questão real não é essa – mas é sobre a velocidade com que isso acontecerá. Quando carroças foram substituídas por caminhões, a transição levou décadas: jovens perceberam que não havia futuro no transporte por cavalos e migraram para outras ocupações, e os profissionais mais velhos que ficaram viram seus salários subirem, porque havia menos gente disposta a fazer o trabalho. Foi uma transição lenta o suficiente para que a sociedade se adaptasse. Já quando as operadoras telefônicas foram demitidas à meia-noite de um sábado, a maioria nunca mais voltou ao mercado de trabalho.
A diferença entre os dois casos, portanto, não é a tecnologia, mas é a velocidade. E a IA, como temos visto, já trabalha consideravelmente mais rápido (e, talvez, de forma mais precisa) do que os humanos que a supervisionam, de modo que o mercado já percebe que a participação de profissionais juniores nas equipes técnicas vem caindo.
A frase que encerra o artigo – “já fiquei doente muitas vezes, mas nunca morri” – é, ao mesmo tempo, o argumento mais tranquilizador e o mais insuficiente. Porque a pergunta que a história faz não é se a humanidade sobrevive à IA – vamos sobreviver. Mas é se a transição será rápida como a das telefonistas ou lenta como a dos carroceiros. E a resposta, como o metrô de Nova York demonstrou em 1904, depende menos da tecnologia e mais de quem constrói as alternativas – e de quanto tempo tem para fazê-lo.






