Visão de Zuckerberg sobre IA, Nvidia Acumula Riscos, Farmácias nos Marketplaces e Unitree Vai à Bolsa
Bom dia! Hoje é 11 de agosto. Neste mesmo dia, em 1994, Phil Brandenberger, um estudante da Filadélfia, comprava um CD do Sting pelo site NetMarket por US$ 12,48, completando a primeira transação de varejo segura da história da internet. O momento não parecia grandioso, era um disco de música comprado por um jovem numa tela monocromática. Mas a infraestrutura que tornou aquela compra possível – criptografia, pagamento digital, entrega logística – mudaria, em poucos anos, a economia do planeta.
Trinta e dois anos depois, a promessa que aquele primeiro clique inaugurou, a de que a tecnologia democratiza o acesso a tudo, continua sendo testada, e os resultados são mais ambíguos do que os pioneiros imaginavam. Zuckerberg publica uma carta prometendo que a superinteligência será aberta e gratuita, enquanto mantém seus modelos mais poderosos sob chave. A Nvidia estrutura mais meio trilhão de dólares em financiamentos que fazem a receita parecer espetacular, mas cujo circuito entre quem financia e quem compra já provoca comparações com 1999. A Anvisa abre caminho para que farmácias vendam medicamentos em marketplaces como iFood e Mercado Livre, redesenhando a última fronteira do varejo digital brasileiro. E a Unitree, fabricante chinesa de robôs humanoides que os Estados Unidos acabaram de banir, corre para abrir capital antes que a janela se feche. Em todos os casos, alguém promete acesso. A pergunta é quem de fato se beneficia dele.
Zuckerberg Diz que o Futuro da IA É Para Todos
Mark Zuckerberg publicou na segunda-feira uma carta intitulada “O Futuro é para Todos”, na qual defende que a superinteligência deve ser amplamente distribuída e que concentrar esse poder nas mãos de poucas empresas seria “inerentemente problemático”. No mesmo dia, a Meta lançou o Muse Glimmer, um modelo de peso aberto projetado para rodar localmente no computador do usuário, sem enviar dados para a nuvem. O Glimmer é menor e menos poderoso que os modelos de fronteira, mas é capaz de executar tarefas agênticas complexas – como acessar ferramentas, escrever código e trabalhar com arquivos – diretamente no Mac ou PC de quem o baixa. A promessa é que cada pessoa poderá ter um agente de IA pessoal que trabalha 24 horas por dia, sem depender de assinatura nem de conexão com servidores remotos.
A carta é eloquente e a visão, generosa. Mas as Entrelinhas contam uma história mais nuançada. O Glimmer, seguindo o que foi exposto na carta, é aberto. O Muse Spark, o modelo mais poderoso da Meta, permanece fechado. A empresa distingue, cada vez mais explicitamente, entre a IA que distribui e a IA que retém – e a que retém é, não por coincidência, a que possui as capacidades mais avançadas. A estrutura é a mesma que a indústria farmacêutica pratica com medicamentos genéricos: liberar a versão acessível para ganhar escala e boa vontade, enquanto protege a versão premium que gera margem e diferenciação.
Zuckerberg, fazendo isso, não está sendo desonesto, mas estratégico. E a estratégia é clara: que o mundo inteiro rode modelos da Meta nos seus dispositivos, criando um ecossistema de dependência cuja base é aberta, mas cujo topo é controlado.
O contexto que dá urgência a essa estratégia é geopolítico. Como temos visto, startups chinesas como DeepSeek, Moonshot e Alibaba lideram a corrida dos modelos de código aberto, oferecendo desempenhos comparáveis aos melhores modelos americanos por uma fração do custo. Quando a Hugging Face foi atacada por um agente da OpenAI que escapou do sandbox, foi um modelo chinês de peso aberto que a empresa usou para se defender, uma vez que os modelos fechados tinham limitações para aplicações de cibersegurança.
A carta de Zuckerberg, portanto, não nasce num vácuo: nasce num ambiente em que a China vence a corrida do código aberto, os modelos fechados americanos enfrentam questões de segurança e custo, e a Meta precisa se posicionar como a alternativa ocidental ao que Pequim já oferece. “O Futuro é para Todos” é, simultaneamente, uma visão de mundo e uma jogada de mercado. E a genialidade está em que, neste caso, as duas coisas se reforçam.
A Nvidia e a Circularidade Financeira que Já Lembra 1999
Um consórcio de instituições financeiras trabalha com a Nvidia na estruturação de mais US$ 500 bilhões em financiamento para infraestrutura de IA, em uma operação que se soma aos US$ 250 bilhões em garantias para a OpenAI e aos US$ 500 bilhões com o SK Group que cobrimos nas edições anteriores. O total acumulado em compromissos financeiros que envolvem a Nvidia, direta ou indiretamente, já ultrapassa US$ 1,25 trilhão, mas, agora, o mercado parece não reagir mais bem a isso. As ações da empresa caíram 2,4% com a notícia. O mercado celebrou quando a Nvidia vendia chips, mas quando ela passou a financiar quem os compra, o entusiasmo esfriou.
A mecânica, que temos dissecado ao longo das últimas semanas, funciona sempre da mesma maneira: a Nvidia oferece garantias ou apoio financeiro a parceiros e clientes, que usam esses recursos para comprar chips da Nvidia, gerando receita que, ao menos em parte, é o próprio dinheiro da Nvidia retornando por outra porta. Apollo e Blackstone já utilizam essas estruturas para financiar investimentos em infraestrutura de empresas como a Anthropic.
Mike Coop, da Morningstar, disse na semana passada que a concentração da IA nos setores de tecnologia, comunicação e energia o faz lembrar “bastante de 1999”. A comparação não é casual, visto que na bolha das empresas de internet, o financiamento circular desempenhou um papel central na crise – empresas investiam umas nas outras, compravam serviços umas das outras, e a receita aparente crescia até que alguém percebeu que o dinheiro estava girando em círculo, não entrando de fora.
Os defensores do modelo argumentam que, diferentemente de 1999, os balanços das big techs são sólidos, os fluxos de caixa são reais e os chips da Nvidia geram valor concreto em aplicações que já existem. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que a Alphabet entrou em fluxo de caixa negativo, que a Amazon dobrou sua dívida de longo prazo em seis meses, que 77% dos executivos admitem que seus investimentos em IA ainda não geraram retorno mensurável e que a demanda por títulos de dívida da Amazon caiu pela metade em quatro meses.
O ecossistema interligado, assim, realmente acelera a inovação quando tudo dá certo. Mas quando algo dá errado, acelera o contágio. E a diferença entre “aceleração” e “contágio” depende inteiramente de se a demanda por IA continuar crescendo no ritmo que justifica US$ 1,25 trilhão em compromissos. A Nvidia divulga resultados em 26 de agosto. Esse balanço dirá mais sobre o estado real da indústria de IA do que qualquer carta de CEO ou anúncio de parceria.
O Varejo Farmacêutico Nunca Mais Será o Mesmo
A Anvisa revogou nesta segunda-feira as resoluções que impediam plataformas digitais de comercializar medicamentos no modelo de terceiros, abrindo, assim, caminho para que iFood, Mercado Livre, Rappi, Shopee e Amazon vendam produtos farmacêuticos diretamente em suas plataformas, desde que a regulamentação específica seja publicada nos próximos meses. A decisão não é uma surpresa: em 2025, o Mercado Livre já havia comprado uma pequena farmácia em São Paulo para contornar a restrição e poder vender medicamentos por conta própria. A Anvisa, ao revogar as normas restritivas, formalizou o que o mercado já estava construindo por vias indiretas.
O momento da decisão converge com outra notícia do setor que amplia a leitura. No mesmo dia, a Novo Nordisk anunciou uma parceria com a Amazon Web Services para criar um centro de inovação em IA dedicado à descoberta de novos medicamentos. A fabricante do Wegovy usará ferramentas da AWS para identificar alvos terapêuticos, projetar novas terapias e estruturar ensaios clínicos com mais rapidez.
A Novo Nordisk, sob essa mesma direção, já lançou o NovoCare Farmácia para venda direta ao consumidor no Brasil, e a Eli Lilly já investe em psicodélicos e vacinas como extensões de seu ecossistema. Quando a mesma farmacêutica que vende canetas emagrecedoras direto ao paciente também usa IA da Amazon para descobrir novos medicamentos, e quando a mesma Amazon pode, em breve, vender esses medicamentos em seu marketplace brasileiro, o que se desenha é uma convergência entre tecnologia, farmácia e varejo digital numa velocidade que o setor regulatório ainda está tentando acompanhar.
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Para as redes de farmácias tradicionais, a abertura dos marketplaces é o início de uma pressão que, como aconteceu no varejo de eletrônicos, no de livros e no de moda, tende a ser irreversível. Quando o iFood – que já movimenta R$ 3,4 bilhões em vendas farmacêuticas e cresce no ritmo das maiores redes do país – pode operar legalmente como canal de venda para qualquer farmácia parceira, e quando o Mercado Livre já demonstrou disposição para comprar farmácias para garantir acesso ao mercado, a lógica que protegeu o setor farmacêutico da competição digital durante décadas começa a se dissolver. O consumidor ganha conveniência e, possivelmente, preço. As redes menores ganham acesso a plataformas que não conseguiriam construir sozinhas. E os marketplaces ganham mais uma camada de recorrência dentro de ecossistemas que já incluem delivery, supermercado, fintech e pet shop. Quem perde é quem dependia da barreira regulatória como vantagem competitiva. E essa barreira, a partir de hoje, tem data para cair.
A Unitree Vai à Bolsa… Antes que a Porta Se Feche
A Unitree, fabricante chinesa de robôs humanoides, fixou o preço de seu IPO em Xangai em 150,8 yuans por ação, buscando levantar cerca de US$ 900 milhões na operação que a tornará a primeira empresa de robótica humanoide listada na bolsa da China continental. A empresa, fundada em 2016, ganhou notoriedade global com seus robôs quadrúpedes baratos e depois com humanoides que viralizaram em demonstrações correndo, dançando e praticando artes marciais. Ao contrário da maioria das startups do setor, a Unitree é lucrativa: sua receita mais que quadruplicou e o lucro líquido ajustado atingiu cerca de 600 milhões de yuans, com mais de 40% das vendas vindas do exterior.
O timing do IPO não é acidental, mas é uma verdadeira corrida contra o relógio. Como cobrimos, os Estados Unidos acabaram de banir a importação de robôs humanoides e quadrúpedes chineses, citando riscos à segurança nacional. A Unitree é a principal afetada, afinal, ela detinha quase 20% do mercado global e foi incluída na lista do Pentágono de empresas com vínculos militares chineses. Com o mercado americano fechando, a empresa precisa levantar capital agora – enquanto o entusiasmo dos investidores chineses pelo setor de robótica ainda está no pico e antes que a perda do maior mercado de consumo do mundo comece a aparecer nos resultados.
A Agility Robotics, que abriu seu capital via SPAC nos Estados Unidos, opera do outro lado da mesma equação: americanos tentando escalar sem a eficiência de custo dos chineses; chineses tentando crescer sem o acesso ao mercado americano.
O que o IPO da Unitree revela, nas Entrelinhas, é a aceleração de uma bifurcação que já vemos nos semicondutores e nos modelos de IA: dois ecossistemas de robótica se formando em paralelo, um ocidental e um chinês, com regras, mercados e cadeias de suprimentos cada vez mais separados. Quando a China vence a RoboCup contra si mesma, produz máquinas de litografia DUV em série e agora abre capital da maior fabricante de humanoides do continente, o sinal é de que Pequim não está apenas respondendo aos embargos, mas está, definitivamente, construindo uma indústria inteira que não precise do Ocidente para existir.
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A Unitree vai à bolsa não apesar do banimento americano, mas, em certo sentido, por causa dele: quando a porta se fecha de um lado, o capital corre para entrar pelo outro antes que essa também se feche.








