EUA Banem Robôs, Resultados da Amazon, Escassez de Memória até 2028 e LinkedIn contra a IA
Bom dia! Hoje é 31 de julho. Neste mesmo dia, em 1790, o governo dos Estados Unidos concedia a primeira patente da história do país. O documento, assinado pelo próprio George Washington, protegia um processo de fabricação de potássio inventado por Samuel Hopkins, de Vermont. A patente número 1 não era sofisticada, ela, na verdade, cobria um método de produzir fertilizante a partir de cinzas de madeira, mas estabelecia um princípio que definiria o capitalismo americano pelos próximos dois séculos: quem inventa tem o direito de proteger, e quem protege tem o direito de lucrar.
Duzentos e trinta e seis anos depois, o sistema de proteção que Hopkins inaugurou se expandiu de uma patente de fertilizante para um aparato geopolítico que bane robôs de países inteiros, transforma investimentos em startups em lucros bilionários contábeis, sustenta margens recordes em chips de memória e combate textos gerados por máquinas numa rede social profissional. As notícias de hoje são todas variações sobre o mesmo tema: quem controla o acesso, seja a um mercado, a um ativo, a um recurso, a uma plataforma, define quem ganha e quem fica de fora. E as barreiras, assim como em 1790, são construídas por quem já está dentro.
Os Estados Unidos Fecham a Porta para Robôs Chineses
Robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior entraram na lista de produtos considerados ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. A FCC, agência que regula telecomunicações no país, barrou novos modelos de obter a autorização necessária para importação, comercialização ou venda em território americano. A proibição inclui também conversores de energia conectados, equipamentos usados em sistemas solares, baterias, redes elétricas e data centers. Modelos já autorizados, porém, seguem legais, mas a agência mantém seu poder de revogar autorizações anteriores. A China reagiu a isso imediatamente, com o Ministério do Comércio pedindo a revogação da medida e – caso não a obtenha – ameaçou os americanos com contramedidas.
Os números dos mercados globais de robôs explicam tanto a medida quanto a reação. A China responde por cerca de 85% do mercado global de robôs humanoides. Em 2025, dos aproximadamente 15 mil humanoides embarcados no mundo, as chinesas Unitree e AGIBOT despacharam mais de 5 mil unidades cada, enquanto Tesla e Figure AI entregaram algumas centenas. A Unitree sozinha detém quase 20% do mercado global. Assim sendo, banir esses equipamentos não é apenas uma questão de segurança – claro que não – é uma tentativa de criar espaço de mercado para fabricantes americanas que, hoje, não conseguem competir em escala nem em preço.
O argumento oficial cita três riscos: monitoramento de cidadãos, ampliação do alcance de serviços de inteligência estrangeiros e possibilidade de tomada de controle remoto dos aparelhos. O argumento não oficial é mais simples: se a China domina 85% do mercado, os Estados Unidos precisam de barreiras para que suas próprias empresas tenham tempo de escalar.
Ainda, a contradição doméstica dos americanos é, também, difícil de ignorar. O Pentágono incluiu recentemente a Unitree na lista de empresas com vínculos com as forças armadas chinesas. Mas, em junho, a Nvidia apresentou um projeto de referência para robôs humanoides construído sobre o chassi da própria Unitree. Se a Unitree agora está banida, o que acontece com o hardware que a maior empresa de chips do Ocidente usa como plataforma de demonstração?
Já pensou em ter todo esse conteúdo em formato de áudio? Se sim, é só você clicar aqui e aproveitar!
A troca de ameaças acontece a seis semanas de uma cúpula entre Trump e Xi Jinping, marcada para setembro, e no mesmo dia em que Trump sinalizou que pode afrouxar restrições à exportação de tecnologia de IA. A mensagem é a de que Washington quer negociar posições, usando robôs como moeda de troca numa equação geopolítica em que cada concessão num setor é compensada por uma restrição em outro. Para as fabricantes chinesas, o banimento é um obstáculo comercial; para as americanas, é uma janela. E, como a patente número 1 de Hopkins demonstrou em 1790, o acesso ao mercado americano sempre foi tanto um direito quanto uma arma.
O Lucro Bilionário da Amazon
A Amazon registrou um lucro líquido de US$ 62,6 bilhões no segundo trimestre, mais de três vezes o valor do ano anterior. A manchete é espetacular. A Entrelinha, como tem sido rotina nesta temporada de balanços, pode nos contar outra história. Destes US$ 62,6 bilhões, nada menos do que US$ 53,4 bilhões vêm de ganhos não realizados sobre investimentos – principalmente na Anthropic. Retirando esses ganhos contábeis, que não representam dinheiro entrando no caixa, o lucro líquido operacional foi de cerca de US$ 9,2 bilhões. É a terceira big tech nesta semana, depois de Alphabet e Microsoft, a inflar seus resultados com a valorização no papel da mesma empresa: a Anthropic, que ainda não abriu capital e cujo valor de mercado pode mudar drasticamente quando o IPO acontecer.
Os números operacionais da empresa, isolados dos ganhos com investimentos, contam uma história de crescimento real, mas sob pressão financeira. A AWS avançou 37% em sua nuvem, sua expansão mais rápida em 18 trimestres, atingindo US$ 42,2 bilhões em receita – um número genuinamente impressionante.
As receitas oriundas de publicidade cresceram 26%. O Prime segue entregando recordes de velocidade em suas entregas, representando uma melhora no serviço. Mas o capex do trimestre foi de US$ 53,1 bilhões, seu fluxo de caixa livre virou negativo em US$ 7,6 bilhões (contra um resultado positivo de US$ 18,2 bilhões no ano anterior), e a dívida de longo prazo da companhia quase dobrou em seis meses, saltando de US$ 65,6 bilhões para US$ 119,1 bilhões. Essa dívida surge pois a Amazon pegou emprestado cerca de US$ 82 bilhões em novas dívidas este ano e está cobrindo sua expansão com financiamento externo, não com o caixa do negócio em si.
Um padrão que se consolida nesta temporada de balanços é cada vez mais claro para quem olha além das manchetes: ganhos não realizados na Anthropic inflam o lucro, os capex recordes pressionam os fluxos de caixa, e dívida crescente financia uma expansão que o negócio operacional não consegue mais bancar sozinho. E como cobrimos ontem, o Fed manteve os juros com três votos pela alta, o que significa que a Amazon acabou de dobrar sua carga de dívida num ambiente em que o custo do dinheiro pode subir em vez de cair.
Com isso, talvez futuros investidores aprenderão a descontar os ganhos das companhias com a Anthropic da mesma forma que aprenderam a descontar a compensação baseada em ações, afinal, valorizações no papel não pagam dívidas nem cobrem capex.
A Samsung Prevê Escassez de Chips até 2028
A Samsung reportou um aumento de mais de 250 vezes no lucro de sua divisão de chips e anunciou contratos de fornecimento plurianuais com as cinco maiores operadoras de data centers do mundo, afirmando que espera que a escassez global de memória se agrave e se estenda até 2028. A empresa pretende garantir contratos que cubram cerca de dois terços de sua produção a longo prazo, numa estratégia para reduzir a exposição aos ciclos de alta e baixa que historicamente definem o setor de semicondutores. É o mesmo movimento que SK Hynix e Micron estão fazendo: travar receita futura enquanto as margens ainda estão no pico.
A ironia dos resultados, contudo, é interna. O aumento de preços dos chips de memória que alimenta as margens recordes na divisão de semicondutores é o mesmo que levou a divisão de dispositivos móveis da Samsung ao seu primeiro trimestre no vermelho, com um prejuízo de 700 bilhões de won. A empresa que mais lucra fabricando memória é também a que mais sofre comprando memória para seus próprios celulares. É o tipo de contradição que só existe quando uma empresa é grande o suficiente para ser, ao mesmo tempo, a maior beneficiária e a maior vítima da mesma escassez.
Para investidores, a previsão de escassez até 2028 parece, num primeiro momento, um argumento para comprar ações de fabricantes de memória – e realmente é, tendo em vista que estas empresas já estão travando receitas futuras com vendas sob as cotações atuais. Mas, oferecendo uma outra lente, a mesma dinâmica que inflou a Nvidia e depois a “corrigiu” se aplica aqui. Samsung e SK Group anunciaram planos para construir quatro novas fábricas de semicondutores num investimento de US$ 536 bilhões. Quando essa capacidade entrar em operação, a escassez que justifica os preços atuais começará a aliviar. E nesta semana, a notícia de que a China começou a produzir em série máquinas de litografia DUV derrubou a ASML em 8,5%, sinalizando que o mercado já precifica a possibilidade de que a oferta cresça mais rápido do que as previsões conservadoras sugerem.
Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibilizam as transformações.
Escassez até 2028 é a projeção da Samsung. Mas projeções de escassez feitas por quem lucra com ela merecem, no mínimo, um asterisco.
O LinkedIn Cria Botão Contra o Lixo de IA
O LinkedIn adicionou um botão que permite aos usuários denunciar publicações como “parece conteúdo gerado por IA” – a admissão mais direta, até agora, de que uma plataforma cujo valor sempre dependeu de conexões profissionais autênticas está sendo invadida por textos que ninguém escreveu. A mudança acompanha dados alarmantes: a Cloudflare afirma que o tráfego de bots na web já supera o de humanos, um marco atingido mais rápido do que previsto. O LinkedIn também está bloqueando “centenas de milhares” de tentativas de comentários automatizados por dia e milhões de outras tentativas de automação apenas nos últimos dois meses.
O detalhe mais revelador do anúncio é o que a empresa faz consigo mesma. O LinkedIn está desativando seu próprio recurso “aprimore sua publicação”, que usava IA para reescrever textos dos usuários, substituindo-o por uma ferramenta que revisa o texto sem alterar o tom de voz. A plataforma que oferecia IA para ajudar seus usuários a escrever agora reconhece que essa mesma IA contribuiu para o problema que está tentando resolver. Quando a solução se torna parte do problema, a única resposta honesta é desligar a solução, e é exatamente isso que o LinkedIn fez.
O caso do LinkedIn é, na verdade, um microcosmo de uma tensão que atravessa toda a indústria de tecnologia neste momento. A inteligência artificial, de fato, aumentou a produtividade e aprimorou tecnicamente os textos de tudo mundo, mas, como colateral, ela tende a convergir diferentes autores para um mesmo estilo de comunicação, comprimindo vozes individuais e reforçando padrões que já existiam nos dados de treinamento.
O resultado é uma internet cada vez mais fluida e cada vez menos diversa, onde tudo parece bem escrito, mas nada parece escrito por alguém. Assim, para plataformas como o LinkedIn, cuja moeda é a reputação profissional individual, essa homogeneização é crítica: se todos os perfis soam iguais, nenhum perfil tem valor diferencial. O botão “parece IA” é, nesse contexto, uma tentativa de preservar a autenticidade como ativo escasso num mundo onde a IA tornou a competência de escrita abundante e, por isso mesmo, desvalorizada.






