Apple Bate 5 Trilhões, Nvidia Financiamentos, China Concorre com a ASML e a Onda Fitness na Smart Fit
Bom dia! Hoje é 29 de julho. Neste mesmo dia, em 1890, Vincent van Gogh morria em Auvers-sur-Oise, na França, aos 37 anos, dois dias após um tiro no peito que a maioria dos historiadores atribui a si mesmo. Van Gogh vendeu uma única pintura em vida – “O Vinhedo Vermelho”, por 400 francos – e morreu convencido de que sua obra era um fracasso. Hoje, seus quadros valem centenas de milhões de dólares cada, e o artista que o mercado ignorou em vida é considerado um dos mais influentes da história.
Cento e trinta e seis anos depois, a distância entre o que o mercado valoriza no momento e o que de fato vale no longo prazo continua sendo a pergunta mais cara que um investidor pode errar. As notícias de hoje são, todas elas, histórias sobre valor mal precificado, em direções opostas. A Apple foi criticada durante anos por não gastar o suficiente com IA e agora é a empresa mais valiosa do mundo, precisamente porque não gastou. A Nvidia acumula mais de US$ 750 bilhões em compromissos que fazem a receita parecer espetacular, mas que escondem uma circularidade que alguns analistas já comparam aos empréstimos da Lucent. A China produz em série máquinas de litografia que o Ocidente acreditava que ela não fabricaria por décadas. E a Smart Fit descobre que a onda de vida saudável vale mais, para seus resultados, do que qualquer queda na Selic. Em todos os casos, alguém está pagando o preço de ter apostado que o presente continuaria se comportando como o passado.
A Apple Atinge US$ 5 Trilhões, Sem Entrar na Corrida dos Data Centers
O valor de mercado da Apple ultrapassou brevemente os US$ 5 trilhões nesta terça-feira, tornando-a a segunda empresa da história a atingir esse patamar, depois da Nvidia. A alta de 24% no ano supera amplamente as demais Magníficas e, nas Entrelinhas, conta uma história que contraria a narrativa dominante dos últimos dois anos: a empresa mais valiosa do mundo não é a que mais investiu em IA, pelo contrário, é a que menos investiu.
Os gastos de capital da Apple no último ano fiscal somaram US$ 12,7 bilhões – o extremo oposto de suas rivais. A Alphabet, por exemplo, planeja investir US$ 205 bilhões em 2026. Microsoft e Amazon elevaram seus planos para até US$ 190 bilhões e US$ 145 bilhões, respectivamente. A Apple, nesse cenário de “gastões” gastou uma fração do que suas rivais e, mesmo assim, as superou em valor de mercado.
A estratégia que o mercado criticava – alertando para uma possível crise de novidade da Apple – agora se revela como a mais disciplinada do setor. Em vez de construir data centers próprios e treinar modelos de fronteira com investimentos de centenas de bilhões, a Apple optou por licenciar tecnologia de quem já a possui, usando o Gemini do Google para alimentar uma Siri renovada e firmando acordos como o com a Ford para carros autônomos.
Enquanto Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet entram em fluxo de caixa negativo para financiar a corrida pela IA, a Apple preserva margens, gera caixa e usa o dinheiro dos outros para entregar inteligência artificial aos seus 2 bilhões de usuários. É o equivalente corporativo de Van Gogh às avessas: a obra que o mercado desprezou por falta de ambição se revelou, com o tempo, a mais valiosa da coleção.
O que torna esse resultado especialmente significativo é o que ele diz para o restante da indústria. Quando a empresa que mais vale no planeta é a que resistiu à corrida por gastos com IA, a mensagem para investidores é de que disciplina financeira pode valer mais do que ambição tecnológica. Não porque a IA não seja transformadora, ela é, mas porque a transformação ainda não demonstrou retorno proporcional ao investimento.
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Como Buffett observou ao apostar na Alphabet, “eles estão investindo centenas de bilhões, e isso é dinheiro de verdade”. A Apple ouviu o mesmo raciocínio e chegou à conclusão oposta: se o dinheiro é de verdade, melhor deixar os outros gastarem e comprar o resultado pronto. Até agora, por incrível que pareça, o mercado está dando razão a Tim Cook.
A Nvidia e Seus US$ 750 Bilhões em Garantias Circulares
Enquanto a Apple sobe porque não gasta, a Nvidia se vê no centro de uma estrutura de compromissos financeiros que já acumula mais de US$ 750 bilhões e cuja lógica está deixando até os detentores de suas ações desconfortáveis. Ontem cobrimos o acordo da fabricante com a OpenAI – o de US$ 250 bilhões em garantias de dívida mais US$ 350 bilhões em financiamento de compras de chips. Agora, a Bloomberg revela um pacote paralelo de US$ 500 bilhões com o SK Group, da Coreia do Sul.
Nos dois casos, o mecanismo é o mesmo: a Nvidia entrega dinheiro ou garantias a um parceiro, o parceiro usa esse dinheiro para comprar chips da Nvidia, e a receita que aparece no balanço é, ao menos em parte, o próprio dinheiro da Nvidia retornando por outra porta.
Jensen Huang chamou de “ridículo” quem descreve a estrutura como circular. Os analistas que olham os números com mais cuidado discordam. A questão não é se a Nvidia vende para clientes reais com dinheiro real, ela vende, mas quanto da demanda aparente é orgânica e quanto é sustentada por financiamento que a própria Nvidia fornece.
Quando uma empresa precisa emprestar dinheiro a seus clientes para que eles comprem seu produto, está admitindo, implicitamente, que esses clientes ainda não conseguem pagar por conta própria. A OpenAI fatura US$ 25 bilhões e queima US$ 27 bilhões. O fluxo de caixa é negativo. Os credores não financiariam seu projeto de data center de Ohio sem que alguém mais solvente garantisse a operação. A Nvidia levantou a mão, e, ao fazê-lo, soldou seu destino financeiro ao de um cliente que, por enquanto, perde dinheiro em tudo que faz.
O paralelo com a Lucent, que mencionamos ontem, ganha corpo. A Lucent fez exatamente isso nos anos 90: financiou US$ 8 bilhões em compras de seus próprios equipamentos por startups de telecom que depois faliram, arrastando a empresa para o colapso. A Nvidia discute valores trinta vezes maiores. A diferença, argumentam os otimistas, é que a OpenAI e o SK Group não são startups obscuras, mas são, na verdadem parceiros estratégicos com escala e respaldo.
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O contra-argumento é que escala e respaldo não mudam a aritmética: se os clientes crescerem para absorver a infraestrutura, o acordo é genial; se não crescerem, a Nvidia come o prejuízo na dívida que garantiu e nas encomendas que param. E como a Nvidia é a ação de maior peso no S&P 500, esse não seria um problema só dela; seria um problema de todo investidor que possui um fundo de índice americano.
A China Começa a Fabricar Suas Próprias Máquinas de Chips
A China começou a produzir em série, pela primeira vez, máquinas de litografia DUV para fabricação de semicondutores. O avanço, revelado pelo The Information e que derrubou as ações da ASML em 8,5% no mesmo dia, é possivelmente o marco mais significativo da campanha chinesa por autossuficiência tecnológica desde o lançamento da DeepSeek no início de 2025. A litografia é a etapa mais complexa de toda a cadeia de semicondutores, o processo em que padrões microscópicos são gravados sobre placas de silício para dar origem aos chips. Se a China dominou (ou começou a dominar) isso, o argumento de que “eles não conseguem fabricar o que precisam” precisa ser revisado.
Os detalhes importam, e revelam tanto progresso quanto limitações. A empresa por trás da produção é a Shanghai Aishengna Electronic Technology Group, uma estatal sem site nem informações públicas, que reuniu equipes de duas fabricantes de equipamentos ligadas ao esforço nacional de autossuficiência. A escala, por enquanto, é modesta, com cerca de cinco máquinas em 2026 e vinte em 2027, e sua tecnologia DUV grava, em uma única passagem, circuitos da classe de 28 nanômetros, um tamanho bem acima dos chips de ponta que exigem a litografia EUV, controlada exclusivamente pela ASML. Ou outra vulnerabilidade é que algumas peças críticas ainda vêm do Japão, e atrasos em fornecedores locais já seguraram a produção deste ano. Não é, portanto, o equivalente chinês da ASML… ainda.
Mas o mercado não reagiu aos detalhes, mas reagiu à implicação. Se a China venceu o gargalo da litografia, que é o mais difícil e complexo de toda a cadeia de fabricação de semicondutores, o restante dos equipamentos americanos e europeus também fica vulnerável a ser substituído por suas versões domésticas. E isso acontece no exato momento em que o Congresso americano avança o MATCH Act, projeto que pretende bloquear a China de comprar ou receber manutenção dessas mesmas máquinas DUV.
Assim, se o país passa a fabricá-las em casa, parte do efeito dessas restrições se esvazia antes mesmo de entrarem em vigor. A reação de 8,5% nas ações da ASML – a empresa que detém 100% do mercado mundial de litografia EUV – é o mercado precificando, em tempo real, a possibilidade de que o monopólio mais absoluto da indústria de tecnologia possa, pela primeira vez, estar ameaçado por baixo.
A Onda Fitness Blinda a Smart Fit
Edgard Corona, fundador da Smart Fit, reconheceu que 2026 deveria ser um ano de pressão sobre os resultados da rede de academias: muitos feriados, Copa do Mundo e eleições – tudo convergindo para reduzir a frequência de clientes nas suas academias. Menos frequência, para uma rede de academias, significa menos vendas em serviços acessórios, suplementos e planos adicionais. Mas o executivo afirma que o TotalPass, o plano de benefícios corporativos da Smart Fit que dá acesso a diversas academias parceiras, neutraliza esse efeito: quando os clientes frequentam menos, o agregador gasta menos por visita e a margem se preserva. “Faça chuva ou faça sol, nós temos que entregar resultado para o investidor”, disse Corona.
O dado mais revelador da entrevista, porém, não é sobre o TotalPass, mas é sobre a mudança de comportamento que sustenta a empresa inteira. Corona admite que a Selic elevada e o endividamento das famílias deveriam, em condições normais, pressionar o negócio. O que neutraliza esse efeito macro é a onda de hábitos saudáveis que temos visto ocorrer em todo o mundo sob diferentes ângulos: seja na proteinificação do consumo que levou a Ambev a lançar a Spaten Pro, a queda de 29% no preço do açúcar provocada pelas canetas emagrecedoras, os 64% de brasileiros que declararam não consumir álcool em 2025… A Smart Fit está surfando a mesma transformação cultural que está redesenhando a indústria alimentícia, a farmacêutica e o agronegócio, e, no caso dela, a tendência é forte o suficiente para compensar juros altos, Copa e eleição ao mesmo tempo.
Para investidores, o recado de Corona é que a Smart Fit deixou de ser uma empresa cíclica de consumo, daquelas que sofre quando a economia aperta e cresce quando a economia folga, e se tornou uma aposta estrutural em mudança de comportamento. Quando a demanda por seu produto é impulsionada por uma transformação cultural que independe de ciclo econômico, a empresa ganha uma resiliência que a maioria dos negócios de consumo não possui. É o tipo de vantagem que não aparece numa planilha de DCF, mas que, no final do ano, separa quem entrega resultado de quem explica por que não entregou.






