Bom dia! Hoje é 25 de agosto. Neste mesmo dia, em 1835, o jornal New York Sun publicava o primeiro de uma série de artigos afirmando que astrônomos haviam descoberto vida na Lua, incluindo criaturas aladas, unicórnios azuis e templos de safira. Os textos eram inteiramente inventados, escritos por um jornalista chamado Richard Adams Locke, e ficaram conhecidos como a “Grande Farsa Lunar”. O Sun não se desculpou nem publicou retratação. Não precisou: a circulação triplicou em uma semana, tornando-o o jornal mais vendido do mundo, mas a farsa funcionou porque contava uma história que as pessoas queriam acreditar.
Cento e noventa e um anos depois, a distância entre o que é real e o que é narrativa continua sendo o fator que mais move mercados, consumidores e investidores. A Coca-Cola reinventa suas ideias porque descobriu que a Geração Z não compra bebida pelo sabor; compra pela foto que vai postar no Instagram. A Bilibili, o “YouTube chinês”, começa a contratar no Brasil numa expansão de soft power que trata conteúdo como diplomacia. A Nvidia eleva em mais de 15% o preço de servidores de IA, e o custo que deveria ser absorvido pela eficiência acaba repassado a toda a cadeia. E o SoftBank planeja a maior emissão de títulos de sua história para financiar uma aposta em inteligência artificial que o mercado ainda não sabe se é visionária ou temerária. Em todos os casos, alguém vende uma história. A pergunta, como em 1835, é quanto dela é real, e quanto o comprador se importa com a diferença.
A Coca-Cola Reinventa a Bebida para uma Geração que Bebe com os Olhos
A Coca-Cola está desenvolvendo, em seus laboratórios, uma nova geração de máquinas de bebidas capazes de preparar os chamados dirty sodas – que são refrigerantes personalizáveis misturados com xaropes aromatizados, cremes e outros ingredientes – além de energéticos customizáveis em sabor e cor. O movimento responde a uma transformação de consumo que, nas Entrelinhas, é mais profunda do que parece: para as novas gerações, assim como ocorreu na febre no “Sabor Energético” a bebida deixou de ser uma mera bebida e se tornou conteúdo. Uma Sprite de morango com calda rosa e espuma dourada não é comprada só para matar a sede; mas para ser fotografada, postada no Instagram ou no TikTok, e comentada, e, nesse processo, funciona simultaneamente como produto e como propaganda gratuita para a marca que a serve.
Os números do setor confirmam que essa não é uma moda passageira. Energéticos já apresentam as maiores projeções de crescimento entre todas as categorias de bebidas para a próxima década, e as chamadas “bebidas artesanais” – como as oferecidas pelo Starbucks – vem se tornando, para muitos restaurantes (especialmente hamburguerias), a principal alavanca de margem de lucro num ambiente em que o consumo está cada vez mais cauteloso.
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A Coca-Cola, que durante mais de um século vendeu um produto padronizado e idêntico em cada canto do planeta, percebeu que a padronização que foi sua maior vantagem pode se tornar, para novos consumidores, um tipo de limite. E, quando esse consumidor quer uma bebida que seja única, fotogênica e personalizada, a lata vermelha de sempre compete em desvantagem contra a Sprite rosa que ninguém mais na mesa pediu.
A conexão com o arco de transformação de consumo que percorre o mundo é grande. As canetas emagrecedoras reduziram o apetite por refrigerantes açucarados e impulsionaram a demanda por opções mais saudáveis, proteicas e de baixa caloria. A Ambev, no mesmo sentido de sinalizar para novas gerações de consumo, respondeu com a Spaten Pro, seu cerveja proteica. A Nestlé e a Conagra reformularam linhas inteiras. E agora a Coca-Cola responde com espetáculos visuais – entregando não menos açúcar, mas mais experiência. É a mesma indústria se adaptando à mesma mudança de hábito, só que por portas diferentes. A Ambev apostou na saúde, enquanto a Coca-Cola aposta na estética. E ambas estão dizendo, cada uma à sua maneira, que o refrigerante padronizado do século XX precisa se reinventar, ou, quem sabe, virar relíquia.
O YouTube Chinês Começa a Contratar no Brasil
A Bilibili, uma das maiores plataformas de vídeos da China com cerca de 376 milhões de usuários ativos mensais – o “YouTube Chinês –, retomou seu plano de expansão internacional, e, por isso, está preparando uma versão do seu site em inglês e já abriu até mesmo vagas de emprego em São Paulo para profissionais de desenvolvimento de negócios e gestão de comunidade. Os funcionários contratados terão, segundo fontes próximas à empresa, a missão de encontrar criadores de conteúdo, estúdios independentes de animação e detentores de propriedade intelectual no Brasil, além de representar a empresa em festivais e convenções locais. O recrutamento coloca o Brasil ao lado de Estados Unidos, Reino Unido, México e Japão na lista de mercados estratégicos visados pela companhia.
A estratégia da Bilibili é menos sobre competir com o YouTube pelo público brasileiro e mais sobre capturar criadores brasileiros para seu público chinês, e, ao mesmo tempo, construir uma presença ocidental que a posicione para o momento em que o consumo de conteúdo asiático se torne mainstream no Ocidente, como já aconteceu com a música coreana e a animação japonesa – os animes estão entre os conteúdos animados mais vistos e populares do mundo. A empresa já trouxe até mesmo o MrBeast, que é o maior criador de conteúdo do mundo, para sua plataforma que roda na China, e já começa a apresentar seu público alvo a potenciais parceiros como “uma Geração Z de alto nível educacional e poder de consumo”. Dando a entender que seu oferta a patrocinadores é semelhante a do YouTube: seus vídeos, nossa audiência, sua monetização.
A Entrelinha geopolítica, contudo, é mais densa do que a narrativa de “economia dos criadores” sugere. Toda plataforma chinesa que se expande para o Ocidente carrega consigo as mesmas questões que levaram o TikTok a ser forçado, em janeiro, a separar suas operações americanas da ByteDance: acesso a dados externos e o exercício de certa influência do soft power chinês sobre nós ocidentais. A Bilibili, diferentemente do TikTok, ainda não atingiu para si a escala que atrai certo escrutínio regulatório de alguns países, mas a expansão para cinco mercados simultaneamente é exatamente o tipo de movimento que, se bem-sucedido, a colocará na mira dos mesmos reguladores que enquadraram o TikTok.
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Para nós aqui no Brasil, que há pouco tempo assinou um acordo de governança de IA liderado pela China e antes disso testou emissão de títulos em yuan, a chegada da Bilibili é mais um fio numa teia de influência cultural e tecnológica chinesa que cresce com uma consistência que Washington parece querer, cada vez mais, monitorar mais de perto do que monitora.
A Nvidia Eleva o Preço de Tudo
Clientes da Nvidia foram notificados de que os preços de servidores equipados com chips de IA subirão mais de 15% a partir do início de 2027. A justificativa oficial é o aumento de custos dos componentes de memória, que é o mesmo gargalo que o mercado viu, desde a Micron ultrapassando a Meta em valor de mercado até a Samsung registrando um lucro 250 vezes maior na divisão de chips enquanto sua divisão de celulares dava prejuízo pelo mesmo motivo. A escassez de memória de alta largura de banda, que já encareceu MacBooks, iPads e eletrônicos de consumo em geral, agora encarece (mais ainda) também a infraestrutura que treina e roda os modelos de IA. O custo sobe em todas as camadas ao mesmo tempo.
O timing do reajuste é particularmente significativo porque acontece no exato momento em que as big techs estão comprometendo centenas de bilhões de dólares em novos data centers. Como se sabe, mais de US$ 1 trilhão em compromissos futuros de aluguel de data centers não aparecem nos balanços de Microsoft, Meta, Oracle, Amazon e Alphabet. A AWS, por sua vez, também já subiu os preços de suas GPUs em 20%. E agora a Nvidia, que é a fornecedora que está no centro de todos esses compromissos, eleva os preços do próprio hardware. Esse cenário, para as empresas que planejaram seus investimentos com base em custos que já mudaram, assusta muito, uma vez que cada aumento de 15% é uma revisão de projeção que pode transformar data centers lucrativos em estruturas que não se pagam no prazo esperado.
A consequência mais reveladora do reajuste, contudo, é onde ele não chega. O preço do hardware sobe; o preço da memória sobe; e, com isso, preço da energia também sobe. Mas o preço dos modelos de IA que rodam em cima de tudo isso continua despencando, muito devido a guerra por preços baixos que vem sendo travada entre os fornecedores de IA chineses e americanos. A cadeia de valor da inteligência artificial está, portanto, se comprimindo pelas duas pontas: os custos de infraestrutura estão subindo, as receitas por token caindo, e quem está no meio – ou seja, os laboratórios que constroem modelos e vendem seus acessos – vê suas margens espremidas por forças que não controla. A Nvidia, que está nas duas pontas (vende o hardware e financia quem o compra), lucra em qualquer cenário. Mas os US$ 1,35 trilhão em compromissos financeiros que ela acumulou pressupõem que seus clientes podem continuar pagando. E, com cada reajuste, essa pressuposição fica um pouco mais difícil de sustentar.
O SoftBank Emite Dívida Recorde para Financiar a IA
O SoftBank planeja emitir 1 trilhão de ienes, cerca de 6,3 bilhões de dólares, em títulos de dívida voltados ao investidor de varejo japonês, a maior operação desse tipo na história da empresa. Os recursos servirão para financiar investimentos em inteligência artificial e para refinanciar títulos emitidos anteriormente. A captação acontece num momento em que a estratégia de IA do SoftBank se tornou, por decisão de seu fundador Masayoshi Son, a razão de existir do conglomerado – e em que essa razão consome capital numa velocidade que as demais operações da empresa não conseguem cobrir.
O SoftBank é, entre todas as empresas que acompanhamos nas últimas edições, a que carrega a aposta mais concentrada em IA. Seus compromissos com a OpenAI já superam US$ 60 bilhões. O projeto do data center Ports-Pike, em parceria com a Nvidia e a SB Energy, envolve mais de US$ 500 bilhões em investimento total. E, para o lado da corretora, algumas coisas parecem estar turbulentas, como no caso que ocorrido em que as negociações para obter empréstimos usando participações na OpenAI como garantia perderam força junto aos credores, que não aceitam ações de empresas privadas de IA como colateral com a mesma confiança de poucos meses atrás. A emissão de títulos ao varejo é, nesse contexto, uma alternativa: se os bancos não financiam, o SoftBank vai direto ao investidor comum japonês.
A aposta de Son é a mesma que sustenta toda a indústria de IA neste momento: a de que a demanda por inteligência artificial crescerá o suficiente para justificar cada iene emprestado, cada dólar comprometido e cada garantia assinada. Se crescer, Son será celebrado como visionário, assim como foi quando apostou na Alibaba e obteve um retorno multiplicado por mais de mil vezes. Se não crescer, o SoftBank estará sentado sobre uma montanha de dívida emitida a investidores de varejo – que são os que menos podem se dar ao luxo de perder – para financiar uma aposta que não se pagou. A Grande Farsa Lunar de 1835 triplicou a circulação do New York Sun porque as pessoas queriam acreditar. A questão que o SoftBank enfrenta, e que toda a indústria de IA enfrenta junto com ele, é sobre dizer, com certeza, quie o que estão vendendo é uma visão ou uma crença – e se a diferença importa antes de a conta chegar.






