Como a IA Deixará seu Emprego, a Questão da Água, SoftBank Tropeça e a Guerra de Preços entre os Modelos de IA
Bom dia! Hoje é 12 de junho. Neste mesmo dia, em 1967, a União Soviética lançava a sonda Venera 4 rumo a Vênus, a primeira missão a transmitir dados atmosféricos de outro planeta, provando que era possível extrair informação útil mesmo dos ambientes mais inóspitos do sistema solar.
Cinquenta e nove anos depois, a lógica de explorar fronteiras hostis para colher conhecimento permanece intacta, mas os destinos mudaram. Hoje, os dados não são extraídos de atmosferas alienígenas, mas gerados por bilhões de interações humanas e processados em data centers que consomem quantidades colossais de água e energia. A SpaceX, que estreia nesta quinta-feira na Nasdaq no maior IPO da história, aposta que a próxima fronteira da computação está justamente no espaço, em órbita, onde energia solar é contínua e resfriamento é gratuito.
Enquanto isso, aqui embaixo, líderes da indústria de inteligência artificial divergem sobre se estamos criando eras de ouro ou cavando valas no mercado de trabalho, investidores questionam se os valuations do setor são sustentáveis e as duas maiores empresas de IA do mundo preparam uma guerra de preços que pode redesenhar o mapa competitivo da próxima década.
Bezos e Amodei: Dois Futuros Possíveis para o Mesmo Mundo
Jeff Bezos, a quarta pessoa mais rica do planeta, rejeita com veemência a tese de que a inteligência artificial destruirá empregos em massa. Em entrevista ao Financial Times publicada nesta semana, o fundador da Amazon declarou que estamos vivendo “múltiplas eras de ouro ao mesmo tempo” e que a IA provocará, ao contrário do que se teme, uma escassez de mão de obra (ou seja, aumentará demanda humana), criando mais postos de trabalho do que eliminará.
Para sustentar a convicção com capital, Bezos apresentou o Prometheus, seu novo laboratório de IA de US$ 41 bilhões, voltado ao desenvolvimento de um “engenheiro artificial geral” capaz de compreender física e transformar o modo como lidamos atualmente com a manufatura e a engenharia. A analogia por trás da fala e da apresentação do projeto por Bezos não é acidental, mas na verdade, é bastante precisa: “Seis mil anos atrás, alguém inventou o arado, alguns perderam funções mas, no fim, todos nós ficamos mais ricos.” O arado, portanto, não eliminou o trabalho humano, mas o redirecionou, e Bezos aposta que a IA fará o mesmo, em escala civilizacional.
Do outro lado da mesa intelectual, Dario Amodei, CEO da Anthropic, criadora do Claude, ocupa uma posição radicalmente distinta. Em um ensaio publicado nesta mesma semana, Amodei não apenas reconheceu que a tecnologia desenvolvida por sua própria empresa pode eliminar amplas parcelas da força de trabalho, como propôs uma solução que explicita a gravidade do diagnóstico: elevar impostos sobre ganhos de capital para financiar uma renda básica universal, que seria uma espécie de rede de segurança para o que ele descreve, sem rodeios, como um possível “apocalipse do emprego”.
Essa diferença entre as duas visões não é apenas baseada no temperamento de cada um dos empresários, mas é no modo como cada um vê o mundo. Bezos olha para a história e vê continuidade, um padrão milenar no qual a inovação recria mais valor do que destrói. Amodei olha para a velocidade da automação atual e vê uma descontinuidade, um momento em que a máquina não complementa o trabalhador, mas o substitui em funções cognitivas inteiras.
O que torna esse desacordo particularmente significativo é que ambos falam com conhecimento de causa. Bezos opera o maior ecossistema logístico do mundo, onde robótica e IA já coexistem com mais de 1,5 milhão de funcionários humanos. Amodei constrói os próprios modelos que ameaçam substituí-los. O fato de que o empregador e o desenvolvedor da tecnologia divergem tão profundamente não é um sinal de que um deles está errado, mas é um indicador de que a resposta real dependerá de variáveis que nenhum dos dois controla inteiramente: velocidade regulatória, adaptação educacional, políticas fiscais e, acima de tudo, se as sociedades escolherão redistribuir os ganhos de produtividade ou permitir que se concentrem nas mãos de poucos.
Como já havíamos apontado aqui no Entrelinhas ao analisar os cortes simultâneos na Disney e na Snap, a IA talvez não elimine empregos, mas já está reescrevendo a descrição de cada vaga que permanece, e a verdadeira questão não é se haverá trabalho, mas quem estará qualificado para fazê-lo.
2,5 Bilhões de Galões e uma Saída pela Órbita
A Amazon revelou que seus data centers globais consumiram aproximadamente 2,5 bilhões de galões de água em 2025, um número que ganha peso político no exato momento em que legisladores e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos intensificam o escrutínio sobre o impacto ambiental da inteligência artificial. A empresa fez questão de contextualizar o dado, informando que a eficiência hídrica de suas instalações melhorou 2% em relação a 2024, e que seus data centers utilizam ar externo para resfriamento em cerca de 90% do tempo, recorrendo ao resfriamento evaporativo apenas nos períodos mais quentes. Algumas instalações já utilizam água residual tratada em vez de água potável.
Os números, isoladamente, podem parecer administráveis, mas o contexto os transforma em algo mais preocupante: a demanda global por capacidade computacional cresce exponencialmente, e cada novo gigawatt de infraestrutura de IA exige quantidades proporcionais de água e energia que muitas comunidades já consideram insustentáveis.
É nesse ponto que os dados da Amazon se conectam com o evento mais aguardado pelo mercado financeiro nesta quinta-feira: a estreia da SpaceX na Nasdaq, no que será o maior IPO da história, com uma captação de US$ 75 bilhões a uma avaliação de US$ 1,77 trilhão. A tese de investimento que sustenta esses números estratosféricos não repousa apenas em foguetes reutilizáveis e na constelação Starlink, mas na promessa dos data centers orbitais, que a SpaceX e a xAI desenvolvem para contornar justamente os dois maiores gargalos da infraestrutura terrestre: energia e resfriamento. No espaço, painéis solares captam energia sem interrupção, o vácuo dissipa calor gratuitamente e não há comunidades locais para protestar contra a construção de mais um complexo de servidores. A lógica, como analisamos extensivamente em edições anteriores, é verdadeiramente elegante em sua ambição: eliminar os constrangimentos físicos que encarecem e atrasam a expansão da IA na Terra.
O ceticismo, contudo, é proporcional à audácia. A receita da SpaceX cresceu 33% em 2025, alcançando US$ 18,7 bilhões, mas a empresa reportou um prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões, e a avaliação de US$ 1,77 trilhão representa quase 95 vezes as vendas anuais, um múltiplo que faria qualquer analista fundamental engolir em seco. A Morningstar já classificou a oferta como “significativamente sobrevalorizada”. Para investidores, a questão não é se data centers orbitais são tecnicamente viáveis, afinal, a SpaceX já demonstrou competência aeroespacial sem precedentes no setor privado, mas se a economia dessa infraestrutura fecha antes que concorrentes como Amazon, Google e Microsoft encontrem soluções terrestres suficientemente baratas.
A corrida entre o oceano, a terra e a órbita pela infraestrutura da IA é, em última análise, uma corrida pela física: quem resolver primeiro a equação entre energia, resfriamento e escala definirá onde o cérebro artificial da humanidade será hospedado.
Quando Wall Street Duvida do Colateral
As ações do SoftBank despencaram 8,33% na bolsa de Tóquio nesta semana, após a Bloomberg revelar que as negociações para um empréstimo de pelo menos US$ 6 bilhões, que teria como garantia a participação do conglomerado japonês na OpenAI, perderam força junto aos credores. A operação já havia sido reduzida de uma meta inicial de US$ 10 bilhões para US$ 6 bilhões, e mesmo com US$ 5 bilhões em compromissos parciais, o sinal enviado ao mercado foi inequívoco: bancos não estão dispostos a aceitar ações de empresas de IA como colateral com a mesma confiança de poucos meses atrás.
O episódio é revelador por dois motivos. Primeiro, porque não se trata de uma startup qualquer: o SoftBank, mesmo após a queda, acumula uma alta de 45,5% no ano e ultrapassou a Toyota como empresa mais valiosa do Japão no início de junho. A relutância dos credores, portanto, não é sobre a saúde financeira do SoftBank em si, mas sobre a liquidez e a credibilidade dos ativos que ele oferece como garantia. Uma participação na OpenAI pode valer US$ 900 bilhões em ofertas privadas, mas quando se trata de uma chamada de margem, o que importa é se o mercado secundário pode absorver esse papel rapidamente e a um preço previsível. Se bancos concluem que não pode, o que temos é o primeiro sinal concreto de que os valuations de fronteira da IA estão encontrando seu limite na infraestrutura financeira que deveria sustentá-los.
O segundo motivo é competitivo. O próprio SoftBank reconheceu, ao reduzir a meta da operação, que o avanço da Anthropic alimenta dúvidas entre investidores sobre o retorno da aposta de mais de US$ 60 bilhões na OpenAI. Em paralelo, gigantes asiáticas de semicondutores como SK Hynix e Samsung também sofreram pressão vendedora, sugerindo que o sentimento de cautela não é isolado, mas sistêmico.
Analistas apontam, ainda, que a expectativa em torno dos mega-IPOs de 2026, como o da SpaceX hoje e os da OpenAI e da Anthropic no horizonte, pode estar redirecionando capital que antes sustentava ações já listadas do setor de tecnologia. Se esse diagnóstico estiver correto, o mercado de IA enfrenta um paradoxo perverso, onde as mesmas aberturas de capital que validam a tese de longo prazo do setor podem, no curto prazo, drenar a liquidez que mantém inflados os preços das empresas que já estão na bolsa. Não é o estouro de uma bolha, mas pode ser o primeiro rangido da estrutura que a sustenta.
A Guerra de Preços que Ninguém Queria, Mas Todos Esperavam
Segundo o Wall Street Journal, a OpenAI estuda reduzir significativamente os preços de seus tokens, a unidade com a qual modelos de IA medem e cobram pelo uso, em uma resposta direta ao avanço da Anthropic no mercado corporativo. A possível redução acontece em um momento carregado de simbolismo: ambas as empresas protocolaram, nesta mesma semana, pedidos confidenciais para seus respectivos IPOs nos Estados Unidos, e a Anthropic encerrou sua rodada Série H em maio com um valuation de US$ 965 bilhões, superando os US$ 852 bilhões atribuídos à OpenAI em março.
O que era uma disputa técnica por modelos melhores se transformou, com velocidade impressionante, em uma guerra por participação de mercado, onde preço e distribuição importam tanto quanto inteligência.
Os números reforçam a tensão. O ChatGPT atingiu 1 bilhão de usuários mensais em maio, uma marca que consolidou a OpenAI como a plataforma dominante no mercado de consumo. Mas há indícios cada vez mais concretos de que a Anthropic lidera ou divide o topo no segmento corporativo, lugar onde o dinheiro realmente está. De acordo com o Ramp AI Index, que monitora gastos reais com cartões corporativos de milhares de empresas, a Anthropic atingiu 34,4% de participação no orçamento das companhias assinantes de IA, contra 32,3% da OpenAI.
A inversão, contudo, é historicamente recente: em 2023 e 2024, a OpenAI dominava o mercado de forma absoluta; em 2026, as empresas migraram em massa para o Claude, impulsionadas por demandas de estabilidade, segurança de rede e profundidade analítica que o ecossistema corporativo prioriza.
Cortar preços, nesse contexto, é uma faca de dois gumes. Para a OpenAI, a redução pode acelerar a adoção entre empresas de médio porte que ainda avaliam custos, mas comprime margens em um momento em que a empresa precisa demonstrar aos investidores do IPO que seu modelo de negócio é sustentável. Para a Anthropic, uma eventual resposta com cortes próprios testaria a mesma premissa, mas com um diferencial relevante: sua receita anualizada saltou de US$ 9 bilhões no fim de 2025 para US$ 30 bilhões até março de 2026, um crescimento de mais de 200% que sugere um motor de receita menos dependente de preço e mais ancorado em valor percebido.
A guerra de preços que se desenha, portanto, não é apenas uma disputa por clientes, mas um teste de estresse sobre duas teses de negócio fundamentalmente distintas: a da OpenAI, centrada em escala e ubiquidade, e a da Anthropic, centrada em profundidade e confiança institucional. Quem resistir melhor à compressão de margens sem perder velocidade de crescimento definirá não apenas quem vence a corrida pelo IPO, mas quem se tornará a infraestrutura cognitiva padrão do mundo corporativo.









