Bom dia! Hoje é 4 de novembro. Neste mesmo dia, em 1922, o arqueólogo britânico Howard Carter encontrou, no Vale dos Reis, no Egito, o primeiro degrau de uma escadaria que levava a uma porta selada há mais de três mil anos. Do outro lado daquela porta estava a tumba de Tutancâmon, o túmulo real mais preservado e mais rico já descoberto, com mais de cinco mil artefatos de ouro, pedras preciosas e objetos rituais. Quando Lord Carnarvon, o patrono da expedição, perguntou a Carter se conseguia ver alguma coisa através da abertura, Carter respondeu: “Sim, coisas maravilhosas.” O que ele não disse, e que os meses seguintes revelariam, é que as coisas maravilhosas vinham acompanhadas de custos que ninguém havia previsto: Carnarvon morreu poucos meses depois, a “maldição do faraó” dominou a imaginação pública e as batalhas legais sobre o tesouro duraram décadas.
Cento e quatro anos depois, a indústria de inteligência artificial vive seu próprio momento Tutancâmon: olha para dentro do que construiu, vê coisas maravilhosas, e começa a perceber que os custos que acompanham a descoberta são tão reais quanto o ouro. A Anthropic revela, num documento atualizado antes do IPO, que os custos com computação consumiram 58% de sua receita no último trimestre, pior do que no anterior, e que a empresa paga US$ 1,25 bilhão por mês à SpaceX só para ter acesso a capacidade de processamento. O Google informa escolas que, a partir do próximo ano, desativar a inteligência artificial nos Chromebooks significa perder o acesso à Busca do Google, porque as duas coisas se tornaram inseparáveis, e quem quiser uma terá que aceitar a outra. Wall Street se divide publicamente entre os que alertam para uma bolha iminente e os que projetam até US$ 15 trilhões em gastos com IA, enquanto o Nasdaq 100 entra em correção técnica pela primeira vez no ano. E hackers assumem o controle de sistemas de refrigeração em supermercados de sete países europeus, forçando o descarte de toneladas de alimentos e mostrando que a próxima guerra pode não ser contra soldados, pode ser contra geladeiras. Em todos os casos, o que brilha na superfície esconde algo embaixo. E, como Carter descobriu naquela manhã de novembro, olhar para dentro é fácil. Difícil é lidar com o que se encontra.
A Anthropic Ganha Cada Vez Mais (e o Custo de Ganhar Sobe Junto)
Se existe um número que resume a tensão que define a indústria de IA em novembro de 2026, é este: 58%. É a porcentagem da receita da Anthropic que foi consumida por custos de computação neste terceiro trimestre, uma cifra acima dos 48% do trimestre anterior. A receita cresceu de US$ 11,5 bilhões para US$ 17 bilhões, o que qualquer empresa consideraria extraordinário. Mas o custo de processar os tokens que geraram essa receita cresceu mais rápido, e a razão é tão simples quanto preocupante: a demanda pelos modelos do Claude está aumentando a uma velocidade que a infraestrutura contratada não consegue acompanhar. E quando a infraestrutura não acompanha, a empresa precisa comprar capacidade de emergência, ou seja, em outras palavras, ela precisa assinar contratos de curto prazo, a preços significativamente mais altos do que os acordos plurianuais que sustentam a operação regular.
Os números revelam, nas Entrelinhas, a anatomia financeira de um laboratório de IA de fronteira, e veja que ela é mais frágil do que a narrativa de crescimento sugere. A Anthropic paga US$ 1,25 bilhão por mês à SpaceX por serviços de computação em nuvem, além de contratos multimilionários com outras neoclouds. São contratos flexíveis, mas caros: a Anthropic gastou US$ 5 bilhões num único trimestre em computação de curto prazo que custa “significativamente mais” do que a capacidade equivalente comprada sob contratos de longo prazo. Em termos práticos, é como um restaurante que, num sábado de casa cheia, precisa comprar ingredientes de última hora no mercado da esquina em vez de usar os do fornecedor que entrega na segunda – o prato é o mesmo, mas o custo dobra.
A Entrelinha mais consequente do documento, contudo, é a que conecta os custos de hoje ao IPO que está por vir. A Anthropic deve iniciar a oferta pública já nas primeiras semanas novembro, com Goldman Sachs e Morgan Stanley liderando a operação. Deste modo, num momento em que a empresa deveria estar demonstrando melhora de margens para conquistar investidores públicos, as margens estão piorando. A receita por dólar gasto em computação caiu de 2x para 1,72x. E a própria empresa admite que “as despesas com computação aumentarão em valores absolutos e permanecerão como a maior despesa operacional no futuro próximo.”
Assim, para investidores que acompanham o Entrelinhas, o quadro é familiar: tanto a Alphabet como a Meta, por exemplo, vem operando em fluxos de caixa negativos, com despesas apenas aumentando. E agora a Anthropic confirma que, quanto mais ela vende seu modelos, mais ela gasta para entregar seus serviços, numa relação em que a distância entre ganhos e perdas não está diminuindo. Carter viu coisas maravilhosas dentro da tumba. Mas cada artefato que retirava custava mais do que o anterior para preservar. A Anthropic está descobrindo algo parecido, isto é, que cada bilhão de receita que conquista custa mais do que o anterior para entregar, muito por culpa dos elevados preços da computação envolvida por trás dos modelos de IA.
O Google Disse às Escolas: Aceitem a IA ou Percam a Busca
Existe uma diferença entre oferecer algo e condicionar. Quando o Google anunciou, nesta semana, que permitirá que escolas desativem as ferramentas de inteligência artificial para alunos do ensino fundamental e médio, a manchete soou como um tipo de sensibilidade educacional, ou seja, uma concessão generosa a professores e pais que temem que chatbots prejudiquem o aprendizado. Contudo, a Entrelinha que a manchete escondeu é a seguinte: se a escola desativar a IA, perde o acesso à Busca do Google. Não a um recurso da Busca. À Busca inteira.
O vice-presidente de educação do Google explicou sem dar voltas ao New York Times: “A Busca e a IA estão profundamente integradas.” Desativar uma significa perder a outra. E, como qualquer professor que trabalha com Chromebooks e Google Classroom sabe, perder a Busca do Google numa escola que roda inteiramente sobre o ecossistema do Google é o equivalente a cortar a eletricidade e dizer que a geladeira funciona com velas.
Ainda, o timing da decisão é o que a torna mais reveladora do que o conteúdo. Na semana passada, a Alphabet divulgou resultados com US$ 51 bilhões em gastos com data centers e sofreu a pior queda de ações em 20 anos. Diante disso, a empresa precisa justificar, perante investidores cada vez mais impacientes, que os bilhões investidos em IA estão gerando uso, e, por essa razão, milhões de contas de alunos que acessam o Gemini, o NotebookLM e o Aprendizado Guiado dentro do Chromebook são números de adoção que nenhum relatório trimestral ignora.
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A educação não é, para o Google, filantropia. É distribuição. Cada escola que aceita o ecossistema é uma base de usuários que cresce com a matrícula e que gera dados de uso que alimentam as métricas que sustentam a narrativa que justifica o investimento.
Para o debate sobre IA na educação, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a decisão do Google expõe uma assimetria de poder que nenhuma política pedagógica resolve sozinha. As escolas que dependem de Chromebooks e Google Classroom, que são, em muitas redes públicas, a totalidade da infraestrutura digital, não têm, na prática, escolha. Desativar a IA significa que os alunos não poderão pesquisar na internet pelo navegador da escola.
É o tipo de condição que, apresentada por qualquer outro fornecedor em qualquer outro setor, seria chamada de venda casada. Mas o Google não é qualquer fornecedor: é a empresa que controla 90% das buscas do mundo, que fornece gratuitamente o sistema operacional de metade dos computadores escolares dos EUA e que, agora, informa que o gratuito tem uma condição que ninguém negociou. Carter entrou na tumba porque a porta estava aberta. As escolas entraram no ecossistema do Google porque era gratuito. E, em ambos os casos, o custo só apareceu depois que já estavam dentro.
Wall Street Não Sabe Se a IA É uma Revolução ou uma Bolha
Numa mesma conferência, nos mesmos corredores, durante a mesma semana, os maiores gestores de dinheiro do planeta disseram coisas diametralmente opostas sobre o futuro da inteligência artificial – e nenhum deles estava errado. Ted Pick, CEO do Morgan Stanley, projetou que os gastos com IA podem chegar a US$ 15 trilhões e que a tecnologia representa “a transformação econômica mais significativa desde o surgimento da internet.” Jon Gray, presidente da Blackstone, disse que “subestimar os ganhos de produtividade que virão é um erro” e que os investimentos maciços “vão render frutos significativos.”
Mas, na sala ao lado, Emmanuel Roman, da PIMCO, alertou que “em algum momento haverá uma desaceleração, e então as coisas vão desmoronar.” Howard Marks, da Oaktree, chamou a IA de “oportunidade de investimento superlotada.” E Jenny Johnson, da Franklin Templeton, fez a pergunta que resume toda a tensão: “Será que fomos longe demais?”
O que torna o debate desta semana diferente de qualquer outro sobre bolhas tecnológicas é que os dois lados têm razão, e sabem disso. Os otimistas apontam para dados reais: a Nvidia lucra US$ 60 bilhões por trimestre, o Google Cloud não para de crescer, a TSMC aumenta vendas há dois anos consecutivos e a demanda por chips de IA é tão grande que a Samsung prevê escassez até 2028. Do outro lado, os céticos apontam para dados igualmente reais: a Alphabet queimou US$ 9 bilhões de caixa, a Meta gerou fluxo de caixa negativo, 77% dos executivos não medem o retorno de seus investimentos em IA e o Nasdaq 100 entrou em correção técnica após uma queda de 10% em relação ao pico.
Frente a isso, a frase mais honesta da semana veio de Jenny Johnson: “Pegaram essas grandes empresas geradoras de caixa, que costumavam ser negócios com baixo uso de capital, e de repente elas passaram a ter gastos enormes.” É a descrição mais precisa do que aconteceu com a Alphabet, a Meta e a Amazon, e do risco que os investidores começam a precificar.
Diante disso, a Entrelinha que conecta o debate de Wall Street ao restante desta edição é que a divisão não é entre quem acredita na IA e quem não acredita. Todo mundo acredita. A divisão é entre quem acha que os preços atuais refletem o valor futuro e quem acha que os preços foram inflados pela mesma narrativa que, na bolha das pontocom, transformou empresas sem receita em valuations de bilhões.
John Connaughton, da Bain Capital, resumiu com a precisão de quem já viu esse filme: “Definitivamente, há bolhas que vão estourar. A verdadeira questão é: você obterá retorno sobre esse valuation?” A pergunta é a mesma que os investidores fizeram em 1999 sobre a internet, e a resposta, como a história demonstrou, foi que a tecnologia era real, o retorno veio, mas quem pagou caro demais no topo não viveu para vê-lo. Carter encontrou o ouro de Tutancâmon. Os investidores que o financiaram passaram décadas em disputas legais para acessá-lo. A descoberta era real. O custo, também.
Hackers Controlaram Geladeiras em Sete Países
Na segunda-feira, sistemas de refrigeração em dezenas de supermercados da Suécia, Irlanda, Holanda, Estônia, Finlândia, Bélgica e Luxemburgo tiveram suas temperaturas alteradas remotamente por hackers que ninguém identificou. Geladeiras e freezers foram reprogramados à distância, elevando a temperatura interna para níveis que tornavam os alimentos impróprios para consumo. Toneladas de comida foram descartadas. O Carrefour informou que cerca de 15 de suas 700 lojas na Bélgica foram afetadas. E o ataque acontece menos de um mês depois de um episódio semelhante atingir mais de 500 supermercados na França, onde a polícia reportou não apenas perda de alimentos, mas, em alguns casos, incêndios provocados pela manipulação dos sistemas de refrigeração.
A cena é, à primeira vista, quase cômica: hackers atacando geladeiras de supermercado. Mas, lida com a atenção que merece, é possivelmente a ilustração mais assustadora do que significa conectar infraestrutura física à internet sem protegê-la com o mesmo rigor que se protege um banco ou uma usina nuclear. Afinal, os sistemas de refrigeração que foram invadidos não são equipamentos domésticos, mas são unidades industriais controladas remotamente por softwares conectados à rede, que monitoram temperatura, consumo de energia e desempenho e que podem ser ajustados à distância por técnicos de manutenção.
Essa conectividade, que existe para otimizar custos e reduzir desperdício, é exatamente o que os hackers exploraram: se o técnico pode alterar a temperatura de uma geladeira remotamente, o hacker também pode. A própria ministra do Interior da Alemanha confirmou que “todos os sistemas de TI são potencialmente vulneráveis, e a IA agora pode ser usada para explorar essas fraquezas com sucesso, especialmente por atores sofisticados.”
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A Entrelinha geopolítica dos ataques é a que conecta a geladeira do Carrefour à guerra na Ucrânia. Nenhum grupo reivindicou a autoria. Mas as autoridades europeias acompanham, desde 2022, uma escalada de “ameaças híbridas” à infraestrutura civil do continente, em ataques que não destroem pontes nem derrubam aviões, mas que sabotam cabos submarinos, desligam turbinas eólicas, derrubam redes elétricas e, agora, estragam comida em sete países ao mesmo tempo.
A Comissão Europeia reconheceu que os ataques demonstram “como as ameaças digitais estão se tornando cada vez mais disruptivas.” E o que torna esses ataques particularmente eficazes é que exploram a mesma tendência que, em qualquer outro contexto, celebraríamos: a digitalização. Cada geladeira conectada à internet é uma geladeira que funciona melhor e, ao mesmo tempo, uma geladeira que pode ser invadida. Cada sensor que monitora a temperatura remotamente é um sensor que economiza energia, ao passo que é também uma porta que um hacker pode abrir.
Carter abriu a tumba de Tutancâmon e encontrou tesouros que ninguém havia visto em três milênios. Os supermercados europeus conectaram suas geladeiras à internet e encontraram algo que ninguém esperava: a descoberta de que, quando tudo está conectado, tudo pode ser atacado. E a próxima guerra talvez não comece com um míssil. Talvez comece com uma geladeira.






