Bom dia! Hoje é 13 de outubro. Neste mesmo dia, em 1307, o rei Filipe IV da França ordenou a prisão simultânea de todos os Cavaleiros Templários em território francês, na ocasião, em uma operação coordenada ao amanhecer que ficou conhecida como a origem da superstição em torno da sexta-feira 13. Naquele tempo, os Templários não eram apenas monges guerreiros: eram, na prática, o sistema financeiro mais sofisticado da Europa medieval. Foram eles quem, por exemplo, inventaram a carta de crédito internacional, eles quem operavam uma rede de agências que se estendia de Paris a Jerusalém e administravam fortunas de reis, papas e nobres. Assim, Filipe IV não os destruiu porque representavam um risco militar. Destruiu-os porque representavam um risco financeiro, pois ele devia mais do que podia pagar, e era, à época, mais fácil eliminar o credor do que quitar a dívida.
Setecentos e dezenove anos depois, a história de hoje é, em escala diferente, sobre a mesma coisa: o poder que se acumula sem permissão e o que acontece quando alguém percebe que precisa tomá-lo de volta. A Microsoft lança o Maia 300, chip de IA próprio projetado para substituir as GPUs da Nvidia nos seus data centers, porque depender do fornecedor mais poderoso da indústria é uma vulnerabilidade que uma empresa de US$ 3 trilhões não pode mais aceitar. A Meta apresenta o Muse Wonder, seu primeiro modelo de fronteira, e anuncia que chegou ao mesmo nível do Claude e do ChatGPT – reivindicando um lugar na mesa de que estava ausente desde que a corrida começou. A SpaceX se prepara para entrar de vez no mercado de telefonia móvel dos Estados Unidos, derrubando as ações da Verizon e da AT&T antes mesmo de ligar uma única ligação. E o presidente da própria Microsoft vai a uma rádio britânica dizer que uma caixa de leite no supermercado está sujeita a mais regras de segurança do que a inteligência artificial, isto é, a tecnologia mais poderosa que a humanidade já produziu. Em todos os casos, alguém acumulou poder que ninguém regulou a tempo. E agora o mundo corre para decidir se toma esse poder de volta, se se alia a ele ou se simplesmente aceita que as regras antigas deixaram de valer.
A Microsoft Faz o Que Todos Queriam e Ninguém Conseguia: Um Chip Que Dispensa a Nvidia
A dependência da Nvidia se tornou, para as maiores empresas de tecnologia do mundo, algo parecido com o que a dependência do petróleo é para países importadores: todo mundo sabe que é um problema, todo mundo fala em alternativas, mas quase ninguém consegue, de fato, operar sem ela. Entretanto, como um ponto fora da curva, a Microsoft acaba de dar o passo mais concreto nessa direção. O Maia 300, revelado nesta terça-feira, é um chip de IA projetado internamente para processar inferência (ou seja, as consultas que centenas de milhões de usuários fazem ao Copilot, ao Bing, ao Azure e ao próprio ChatGPT) com 40% mais eficiência energética do que os sistemas baseados em GPUs que a empresa usa hoje.
Com isso, a Microsoft não está vendendo o chip. Está usando-o para si mesma, e, segundo a empresa, o Maia se tornará “o principal sistema de inferência de IA para todos os produtos e serviços da Microsoft”.
A palavra que importa nessa frase é “principal”. Não é “complementar”, não é “alternativo”, não é “experimental”. É principal. Isso significa que a Microsoft está dizendo que, para rodar sua própria IA, ela prefere usar um chip próprio a continuar comprando GPUs da Nvidia. O movimento se junta a uma lista que já se tornou longa o suficiente para configurar uma tendência: a OpenAI desenvolve o Jalapeño, o Google fabrica suas TPUs, a Amazon tem o Trainium e o Graviton, a Qualcomm fechou acordo de US$ 60 bilhões para fornecer chips à AWS, e agora a Microsoft implanta o Maia como espinha dorsal de sua infraestrutura. Cada um desses projetos é, isoladamente, uma decisão de engenharia. Lidos em conjunto, são uma deserção coordenada, onde se vê os maiores clientes da Nvidia, um a um, construindo a saída.
A Nvidia, como temos documentado, respondeu a essa ameaça não competindo diretamente com seus clientes, mas tornando seu ecossistema, por meio de novos produtos e aquisições, cada vez mais indispensável: veja que a empresa comprou Hugging Face por US$ 12,9 bilhões para amarrar o código aberto ao seu próprio hardware.
Mas o Maia 300 ataca a camada mais rentável do negócio, que é a inferência, a qual representa a maior parcela do volume de processamento em data centers, e o faz com um argumento que nenhum ecossistema de software consegue rebater: custo. Se o chip da Microsoft processa mais tokens por megawatt consumido, e se a Microsoft pode implantá-lo em seus próprios data centers sem pagar margem a terceiros, a economia se acumula a cada bilhão de consultas, e, em escala Azure, cada ponto percentual de eficiência vale centenas de milhões de dólares por ano.
Filipe IV destruiu os Templários porque era mais barato eliminar o credor do que pagar a dívida. A Microsoft não está eliminando a Nvidia, mas está construindo um mundo em que precisa cada vez menos dela. E, para a Nvidia, a diferença pode ser pior.
A Meta Diz Que Agora Joga no Mesmo Nível da OpenAI e da Anthropic
Durante dois anos, a Meta foi a grande empresa de tecnologia que mais investiu em IA e menos tinha a mostrar nos benchmarks de modelos de fronteira. Gastou dezenas de bilhões em infraestrutura, contratou pesquisadores de todos os rivais, reestruturou suas equipes sob a liderança de Alexandr Wang (fundador da Scale AI) e, ainda assim, o Llama, seu modelo aberto, permanecia um degrau abaixo do Claude e do ChatGPT nas tarefas mais complexas.
Porém, recentemente o jogo começou a mudar com a chegada do Muse, que logo de cara já conquistou mais 2 milhões de downloads como o agente de IA pessoal para seus usuários. A inteligência por trás dele, porém, não era de fronteira – era apenas boa o suficiente para agendar restaurantes e responder e-mails, não para rivalizar com os modelos que treinam agentes autônomos e projetam moléculas farmacêuticas. Nesta segunda-feira, entretanto, a Meta afirmou que essa distância acabou.
O Muse Wonder e o Muse Wonder Full são os primeiros modelos de fronteira da história da Meta que, segundo os benchmarks divulgados pela empresa, atingem pontuações comparáveis às do Fable 5.1 da Anthropic e do GPT-6 Astra da OpenAI (seus melhores modelos).
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Em seu novo produto, a funcionalidade que a Meta mais destaca não é velocidade nem raciocínio, mas é a capacidade de memória que ele possui. O que a empresa chama de “memória ativa” permite que o modelo retenha e sintetize informações que o usuário forneceu ao longo de dias, semanas e meses, construindo um perfil contínuo que torna o assistente progressivamente mais útil. A ideia é que o Muse deixe de ser um chatbot que responde perguntas e se torne um assistente que conhece o usuário, que lembra que você tem reunião com seu sócio toda quinta, que sabe que você prefere restaurante japonês a italiano e que, quando você pede para “organizar a viagem”, já sabe para onde, com quem e com qual orçamento.
Deste modo, a entrada da Meta na fronteira muda o jogo de uma forma que vai além dos benchmarks, por uma razão que nenhuma outra empresa de IA possui: distribuição. O Claude tem milhões de usuários. O ChatGPT tem um bilhão. Mas o WhatsApp tem dois bilhões, e é dentro do WhatsApp que o Muse opera. Se o Muse Wonder de fato rivaliza com os melhores modelos do mundo e roda dentro do aplicativo que praticamente todo brasileiro, todo indiano e todo europeu já usa todos os dias, a Meta não precisa convencer ninguém a baixar um aplicativo novo, criar uma conta ou pagar uma assinatura. A IA já está onde as pessoas estão. E, como vimos na data de lançamento do Muse, a Meta não está pedindo ao usuário para experimentar uma ferramenta de IA, mas ela está embutindo a IA na ferramenta que o usuário já não consegue largar.
Zuckerberg, ainda, disse ao Financial Times que rejeitou os pedidos de desaceleração e que pretende “continuar investindo bilhões” [em seus novos modelos]. A frase, vinda do homem que controla o aplicativo mais usado do planeta, é menos declaração de intenção e mais advertência: a fronteira da IA parece ter acabado de ganhar mais um ocupante. E esse ocupante tem a maior porta de entrada do mundo.
A SpaceX Quer Ligar para Você (e as Operadoras Sentiram Medo)
Poucas frases resumem tão bem o estilo de Elon Musk quanto a que ele escreveu no X depois de anunciar que a SpaceX compraria US$ 8 bilhões em licenças de espectro de baixa frequência: “Vai parecer algo completamente insano.” E, de fato, parece. A SpaceX, uma empresa de foguetes, acaba de dar o passo mais concreto para se tornar operadora de telefonia móvel nos Estados Unidos. A Starlink, que até agora vendia internet via satélite para áreas rurais, barcos e aviões, adquiriu da Grain Management licenças na faixa de 800 MHz que permitem que o sinal de telefonia alcance aparelhos dentro de edifícios, atravesse paredes e funcione nos mesmos smartphones que as pessoas já carregam no bolso. Não é necessário comprar um aparelho novo. Não é necessário instalar uma antena. É necessário apenas que os satélites Starlink de próxima geração sejam lançados – e a SpaceX, convém lembrar, é a empresa que mais lança foguetes no planeta.
Diante disso, o mercado reagiu antes mesmo de a SpaceX ligar uma única chamada. As ações da Verizon caíram mais de 7,7% no pré-mercado. AT&T e T-Mobile também recuaram. A razão do pânico é simples, afinal, a SpaceX propõe uma rede que combina satélites em órbita com infraestrutura terrestre numa cobertura contínua e híbrida, algo que nenhuma operadora convencional consegue oferecer, porque operadoras convencionais dependem de torres que custam milhões por unidade e que deixam de funcionar a cada túnel, cada montanha e cada área rural sem investimento. Assim, a Starlink Mobile, se aprovada pela FCC, ofereceria cobertura em qualquer lugar onde o céu é visível – que é, por definição, qualquer lugar a céu aberto no planeta.
A Entrelinha que conecta a Starlink Mobile ao arco mais amplo que acompanhamos é que Musk está montando, peça por peça, algo que nenhum empresário na história tentou: um conglomerado totalmente integrado que vai do foguete que lança o satélite ao satélite que transmite o sinal, do sinal que chega ao celular ao chip que processa a IA dentro dele (via xAI e Colossus 2), e do chip que processa ao carro que dirige sozinho (via Tesla). Cada peça se conecta à seguinte. E cada peça, individualmente, já compete com indústrias inteiras: SpaceX com Boeing e Lockheed, Starlink com Verizon e AT&T, xAI com OpenAI e Anthropic, Tesla com Toyota e Volkswagen.
Por isso, a questão que ninguém consegue responder, muito por causa do sempre presente sensacionalismo do empresário, é se alguém consegue operar tudo isso ao mesmo tempo. Filipe IV destruiu os Templários porque concentravam poder demais. Musk acumula poder numa velocidade que faria Filipe IV perder o sono. Por enquanto, a diferença entre os dois é que ninguém, ainda, mandou prendê-lo numa sexta-feira de manhã.
Uma Caixa de Leite Tem Mais Regulação que a IA
Brad Smith, presidente da Microsoft, foi a uma rádio britânica e disse algo que, pela sinceridade, talvez deveria ter virado manchete em todo jornal do planeta: “Sua máquina de lavar está sujeita a mais regras de segurança do que a inteligência artificial. Toda caixa de leite que você vê no supermercado está sujeita a inspeções e normas de segurança.” A frase, além de retórica, pode ser interpretado como literal. A indústria alimentícia é fiscalizada por agências sanitárias que inspecionam fábricas, coletam amostras e recolhem produtos que não atendem aos padrões. A indústria de eletrodomésticos é regulada por normas técnicas que exigem certificação antes que qualquer produto chegue à prateleira. A indústria de inteligência artificial, isto é, a mesma que constrói agentes que escapam de sandboxes, encontram vulnerabilidades em diversas empresa e, no caso do Astra, podem invadir computadores de forma autônoma, opera, na maioria dos países, sob um modelo de autorregulação voluntária que ninguém é, de fato, obrigado a cumprir.
O que torna a declaração de Smith particularmente notável é quem a faz. Não é um acadêmico alertando dos riscos da IA. Não é um político buscando manchete. É o presidente de uma das três maiores empresas de IA do mundo – a mesma Microsoft que investiu US$ 13 bilhões na OpenAI, que acaba de lançar o Maia 300, que opera o Azure como uma das maiores plataformas de computação do planeta e que, recentemente, assinou o acordo “moralmente vinculante” de autorregulação na Casa Branca de Trump.
Com isso, Smith não está pedindo regulação para seus concorrentes. Está pedindo regulação para si mesmo, e a razão, como ele explicitou, é que “a autorregulação voluntária só funciona para as boas empresas” e que, sem regras obrigatórias, as empresas que escolherem ignorar a segurança terão uma enorme vantagem competitiva sobre as que não ignorarem.
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A frase sobre a caixa de leite condensa, em uma imagem, a contradição que o Entrelinhas documenta há meses: a tecnologia mais revolucionária da história opera num vácuo regulatório que nenhum outro setor da economia toleraria. Quando a OpenAI lançou o Astra com capacidade de explorar diversas vulnerabilidades cibernéticas de terceiros, não houve inspeção prévia de segurança. Quando a Meta lançou o Muse com acesso a e-mails, agendas e finanças de milhões de pessoas, não houve certificação de privacidade. Quando agentes escaparam do sandbox e atacaram a Hugging Face, não houve obrigação legal de notificar as vítimas.
Por essa razão, Smith defende que empresas sejam obrigadas a comunicar incidentes e notificar vítimas quando sistemas de IA forem comprometidos, sendo tal sujestão semelhante a práticas que já existem para, por exemplo, eletrodomésticos com defeito e para alimentos contaminados. Portanto, a pergunta que a frase levanta, e que, por mais simples que seja, ninguém respondeu de forma satisfatória, é por que um litro de leite precisa provar que é seguro antes de chegar à prateleira, mas uma IA que pode invadir computadores de forma autônoma não. E até que alguém responda, a caixa de leite continuará sendo mais regulada do que o agente de IA que, cada vez mais, toma decisões que afetam a vida de bilhões de pessoas.
Enfim, cabe perguntar: esse apelo da Microsoft à regulação tem como objetivo o bem comum ou, vindo de uma das maiores empresas do setor, também busca estabelecer regras que ela própria consiga cumprir, mas que se tornem uma barreira de entrada para futuros concorrentes? O tempo irá dizer.






