Em 2007, a Apple retirou os botões do celular e mostrou que o telefone estava prestes a se transformar em algo muito maior. Quase duas décadas depois, a Tesla pode estar fazendo algo semelhante com os carros: retirando o volante.
O Cybercab começou a transportar passageiros pagantes em Austin, no Texas, ainda em uma operação pequena e geograficamente limitada. Mas talvez o mais importante não seja a escala atual. É aquilo que o veículo representa: um carro concebido desde o início para não ter motorista.
Sem volante, pedais e os demais elementos construídos historicamente em torno da condução humana, o interior do automóvel pode ser reorganizado para outra finalidade: a experiência do passageiro. O carro deixa de ser necessariamente algo que alguém dirige e começa a se aproximar de algo que simplesmente utilizamos durante alguns minutos.
E essa transformação pode mudar muito mais do que o design dos veículos.
Se a autonomia avançar, a própria economia da indústria automobilística poderá mudar. Em vez de fabricar um carro, vendê-lo uma única vez e encerrar grande parte da relação econômica com o consumidor, empresas como a Tesla poderão operar frotas e receber por cada trajeto realizado durante anos. O automóvel passa de produto vendido para ativo operado continuamente.
É aí que surge o paralelo com o iPhone.
A grande transformação provocada pelo smartphone não foi simplesmente substituir botões por uma tela. Foi transformar um aparelho em uma plataforma, integrando hardware, software, aplicativos e serviços. O carro autônomo pode seguir caminho semelhante, combinando veículo, inteligência artificial, pagamentos, manutenção, aplicativos e gerenciamento de frotas.
A Tesla, porém, está longe de estar sozinha nessa corrida. A Waymo já opera em escala muito maior e utiliza uma arquitetura tecnológica diferente, combinando câmeras, radar e lidar, enquanto a Tesla aposta principalmente em câmeras e software. O resultado dessa disputa ainda está em aberto.
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O impacto potencial também ultrapassa as montadoras. Uber, seguradoras, estacionamentos, concessionárias e toda a economia construída em torno da propriedade do automóvel podem precisar se adaptar caso veículos autônomos passem a circular continuamente e o transporte sob demanda se torne economicamente mais atraente.
Talvez, portanto, o elemento mais importante do Cybercab não seja aquilo que a Tesla colocou dentro dele.
É aquilo que decidiu retirar.
Porque, assim como o desaparecimento dos botões ajudou a anunciar uma nova era para os celulares, o desaparecimento do volante pode estar anunciando uma nova natureza para o automóvel: menos um produto que possuímos e mais um serviço que utilizamos.









