Nos últimos dois anos, conversei com alguns dos maiores empreendedores do Brasil, sentei com executivos que lideram empresas gigantes, visitei polos de inovação, empresas de tecnologia, laboratórios e ecossistemas que estão tentando antecipar o que vem pela frente.
Eu queria entender a Inteligência Artificial. Acabei entendendo outra coisa. A grande guerra das empresas não é contra a tecnologia. É contra a irrelevância.
A IA certamente está acelerando tudo. Está reduzindo custos, aumentando produtividade, automatizando tarefas e mudando profundamente a maneira como trabalhamos. Mas, quanto mais eu estudava tecnologia, mais percebia que as perguntas realmente importantes estavam em outro lugar.
Seu negócio ainda resolve um problema importante? Seu cliente ainda percebe valor no que você entrega? Aquilo que fez sua empresa vencer no passado ainda é uma vantagem ou já virou uma âncora?
Porque empresas não se tornam irrelevantes simplesmente porque deixaram de adotar uma determinada tecnologia. Elas se tornam irrelevantes quando deixam de gerar valor. E isso quase nunca acontece de uma vez.
A irrelevância é silenciosa. Ela começa quando uma empresa passa a acreditar demais na própria história. Quando protege aquilo que sempre funcionou. Quando transforma produtos, canais, estruturas, processos e modelos de negócio em coisas sagradas demais para serem questionadas. É nesse momento que o passado deixa de ser patrimônio e começa a virar prisão.
Talvez essa tenha sido uma das maiores conclusões desses dois anos: antes de ter coragem para adotar novas tecnologias, uma empresa precisa ter coragem para questionar a si mesma.
Enfrentar os fatos brutais. Revisitar velhos dogmas. Canibalizar produtos antes que alguém faça isso. Abandonar métricas que já não explicam o negócio. Redesenhar estruturas que foram construídas para outro mundo. Questionar inclusive aquilo que, durante décadas, foi considerado a essência da organização.
Transformação não começa quando uma empresa implementa IA. Transformação começa quando ela admite que aquilo que a trouxe até aqui talvez não seja capaz de levá-la adiante.
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Esse é um exercício especialmente difícil porque fomos treinados para imaginar o futuro como uma continuação do passado. Pegamos as tendências de ontem, esticamos algumas linhas e chamamos aquilo de planejamento estratégico.
O problema é que o futuro deixou de ser linear. Tecnologias exponenciais, novos comportamentos de consumo, mudanças demográficas, novos competidores e modelos de negócio que surgem praticamente do nada estão desmontando algumas das relações de causa e efeito que utilizávamos para tomar decisões.
O maior risco agora talvez seja tomar decisões sobre o futuro usando certezas construídas no passado. E é exatamente aí que começa a Marcha da Irrelevância.
Todos nós estamos nela. Empresas, profissionais, marcas, produtos, carreiras. Todos os dias caminhamos alguns centímetros em direção à irrelevância. A única maneira de impedir esse movimento é continuar reconstruindo nossa capacidade de gerar valor.
Durante muito tempo, essa marcha foi relativamente lenta. Empresas conseguiam viver durante décadas apoiadas em uma boa vantagem competitiva, uma marca forte, uma rede de distribuição poderosa ou um produto dominante.
Nos últimos cinco anos, porém, o passo apertou. A marcha acelerou.
Aquilo que levava dez anos para mudar agora pode mudar em dois. Competidores aparecem mais rapidamente. Tecnologias se democratizam. Barreiras de entrada desaparecem. Conhecimento se espalha. O cliente compara tudo, o tempo inteiro.
Um pequeno descuido estratégico pode significar viajar longe demais na direção da insignificância. Por isso, acredito que o maior desafio das lideranças nos próximos anos não será simplesmente “implementar Inteligência Artificial”.
Será algo muito mais difícil: manter suas organizações relevantes em um mundo que muda mais rápido do que elas. A IA faz parte dessa história. Talvez seja o maior acelerador de transformação que já vimos.
Mas ela não salva estratégias ruins. Não conserta produtos que ninguém quer. Não cria propósito onde não existe. Não substitui coragem empresarial. Não resolve a falta de compreensão sobre aquilo que realmente gera valor para o cliente.
Tecnologia potencializa.
E isso significa que ela potencializa tanto empresas extraordinárias quanto modelos de negócio condenados. Foi dessa inquietação que nasceu meu novo livro, A Marcha da Irrelevância.
Não escrevi um livro sobre Inteligência Artificial. Escrevi um livro sobre sobrevivência. Sobre a necessidade permanente de reconstruir empresas, carreiras e estratégias antes que o mundo faça isso por nós.
Porque existe uma pergunta que provavelmente todas as organizações deveriam colocar no centro de suas discussões estratégicas: se estivéssemos criando esta empresa hoje, sabendo tudo o que sabemos sobre o mundo atual, nós a construiríamos exatamente desta maneira?
Se a resposta for não, talvez o trabalho já tenha começado. A Marcha da Irrelevância nunca para. A única escolha que temos é decidir em qual direção vamos caminhar.



