ChatGPT para Adolescentes, Anthropic Lucra Muito, Unitree na Bolsa e TikTokBank
Bom dia! Hoje é 19 de agosto. Neste mesmo dia, em 1839, a Academia de Ciências da França revelava ao mundo o daguerreótipo, o primeiro processo fotográfico viável comercialmente. Pela primeira vez, a realidade podia ser capturada, fixada e reproduzida, e, quase imediatamente, surgiram as primeiras perguntas sobre o que significava possuir uma imagem, sobre o que era autêntico e o que era encenado, e sobre quem controlava a narrativa quando a câmera estava nas mãos de qualquer um.
Cento e oitenta e sete anos depois, as mesmas perguntas se aplicam a tecnologias incomparavelmente mais poderosas. A OpenAI lança uma versão do ChatGPT para adolescentes, quase quatro anos depois de os adolescentes terem começado a usá-lo, e no momento exato em que a empresa admite que precisa desacelerar o desenvolvimento porque perdeu temporariamente o controle de um agente. A Anthropic revela que sua receita anualizada ultrapassou US$ 65 bilhões, fixando em números o crescimento que sustentará o maior IPO da história. A Unitree estreia na bolsa de Xangai com demanda oito mil vezes superior à oferta, mas enfrenta a pergunta que define todo o setor de robótica humanoide: os robôs trabalham de verdade ou só dançam nos vídeos? E o TikTok explora pagamentos entre usuários, tentando capturar no financeiro o que já capturou na atenção. Em todos os casos, algo que era invisível, informal ou experimental está sendo fixado, transformado em produto, em número, em ação negociável. E, como Daguerre descobriu em 1839, o ato de fixar a realidade é também o ato de decidir qual versão dela prevalece.
O ChatGPT Agora Tem Versão para Adolescentes
A OpenAI lançou o ChatGPT para Adolescentes, uma versão com proteções adicionais que incluem um Modo de Estudo projetado para incentivar a resolução de problemas em vez de entregar respostas prontas, controles parentais para horários de uso e notificações de segurança – para o caso de conversas inadequadas –, além de filtros que reduzem a exposição a conteúdo impróprio ao desenvolvimento. O produto é apresentado como uma resposta responsável à realidade de que adolescentes já constituem uma parcela significativa da base de 900 milhões de usuários semanais do ChatGPT. A questão incômoda, porém, e que a OpenAI não abordou diretamente, é por que essas proteções levaram quatro anos para chegar, num período em que ações judiciais envolvendo suicídios de adolescentes e crises de saúde mental atribuídas a interações com chatbots se multiplicaram nos tribunais americanos.
O lançamento acontece, ainda, no mesmo dia em que a OpenAI anunciou que está reduzindo o ritmo de desenvolvimento de seus modelos após o incidente do sandbox, quando um agente de IA da desenvolvedora escapou de um ambiente de teste e atacou autonomamente a Hugging Face. A empresa suspendeu testes de modelos por duas semanas e manterá suas sessões de treinamento em pausa enquanto reformula seus protocolos de segurança. A coincidência de timing, de lançar um produto para adolescentes no mesmo dia em que admite que seus sistemas de segurança falharam, cria uma contradição que a comunicação corporativa não consegue resolver: como convencer pais de que o ChatGPT é seguro para seus filhos quando a própria empresa acabou de admitir que não consegue manter seus agentes dentro de um sandbox?
Para o mercado de IA como um todo, o ChatGPT para Adolescentes inaugura uma categoria que será inevitavelmente disputada. O julgamento da Meta que começou ontem, com mais de 30 estados processando Facebook e Instagram por exploração de vulnerabilidades psicológicas de menores, deixou claro que governos e tribunais tratarão qualquer plataforma que atenda adolescentes sob escrutínio redobrado. A OpenAI está, na prática, apostando que chegou primeiro com um produto que atende a essa pressão regulatória, e que ser vista como a empresa que “criou a versão segura” lhe dará vantagem sobre quem não o fez. Mas a pergunta que o Modo de Estudo não responde é a que qualquer professor faria: se o adolescente pode simplesmente desativar as proteções ou usar a versão adulta com outro e-mail, a segurança é real ou é apenas narrativa?
A Anthropic Supera US$ 65 Bilhões em Receita Anualizada
A receita anualizada da Anthropic ultrapassou os US$ 65 bilhões até o fim de julho, segundo pessoas com acesso aos números compartilhados com investidores. O valor representa um crescimento de mais de sete vezes em relação ao ritmo registrado no final de 2025, quando a empresa reportava pouco mais de US$ 9 bilhões. Em maio, já havia superado US$ 47 bilhões. A aceleração é tão acentuada que investidores construíram modelos financeiros projetando receitas entre US$ 100 e US$ 120 bilhões até dezembro, e, com múltiplos comparáveis aos da Palantir, chegaram à avaliação de US$ 2 trilhões que cobrimos as expectativas em seu IPO previsto para outubro.
Os números são genuinamente impressionantes e posicionam a Anthropic como a empresa de IA de crescimento mais rápido da história. O Claude conquistou espaço onde concorrentes perderam: em tarefas corporativas complexas, programação de alto nível e integração a fluxos de trabalho por meio do Claude Cowork e do Claude Code. A Amazon, o Google e a Salesforce apostaram bilhões na empresa, e as três viram ganhos contábeis substanciais que inflaram seus próprios balanços, algo que só se sustentará se o IPO confirmar ou superar a avaliação esperada.
A Entrelinha, porém, merece a mesma atenção que a manchete. O modelo principal da Anthropic custa mais de duas vezes e meia o equivalente da OpenAI, num cenário onde a Microsoft declarou que quer “eliminar” os custos que paga à empresa e que os modelos chineses, como o DeepSeek V4-Flash, entregam um desempenho comparável aos modelos da empresa por uma fração infima do preço. E a própria Anthropic negocia a compra da Decart AI por cerca de US$ 6 bilhões para ampliar sua capacidade de processamento – um sinal de que o crescimento exige investimento proporcional em infraestrutura que, por enquanto, a receita sozinha não financia.
Os US$ 65 bilhões são o número que sustenta a tese de um IPO histórico. Mas, como todo número de receita anualizada, projetam o futuro a partir de um instante, e o instante seguinte pode ser diferente. A OpenAI também já protocolou seu próprio pedido de IPO, mas considera adiar para 2027 em vez de aceitar uma avaliação abaixo de US$ 1 trilhão. A corrida entre as duas, por fim, não é mais por quem tem o melhor modelo, não – é por quem chega primeiro ao mercado público com a narrativa mais convincente. E o mercado público, como a temporada de balanços demonstrou, está cada vez menos disposto a comprar narrativas sem retorno.
A Unitree Estreia na Bolsa
A Unitree estreou nesta quarta-feira na bolsa de Xangai após um IPO que levantou o equivalente a US$ 905 milhões – um recorde para o mercado chinês de tecnologia. A demanda dos investidores de varejo superou em mais de oito mil vezes a oferta de ações, confirmando que o apetite pela robótica humanoide na China está no ponto mais alto de sua história. A empresa, que entregou mais de 5.500 humanoides em 2025 e mais do que decuplicou sua receita em dois anos, se torna a primeira fabricante do segmento listada na bolsa continental chinesa.
A euforia, contudo, encontra uma pergunta que a Unitree ainda não respondeu com a clareza que o mercado público exige: os robôs trabalham de verdade? O prospecto do IPO revela que universidades e instituições de pesquisa responderam pela maior parte das vendas da montadora, enquanto aplicações industriais – as que de fato geram retorno econômico – representaram menos de 10% do faturamento.
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Isso quer dizer que, apesar de o robô Superman da Unitree saltar a dois metros de altura e correr mais rápido do que muitos corredores, a empresa ainda não demonstrou, em escala, que ele monta peças numa fábrica, entrega encomendas num armazém ou opera ao lado de humanos com a confiabilidade que um cliente corporativo exige. A Guotai Securities, por exemplo, estima que, para se pagar em dois anos, um humanoide industrial precisaria custar cerca de 160 mil yuans – somado com a manutenção. Os modelos atuais custam entre 300 mil e 500 mil, pelo menos o dobro do limiar de viabilidade.
O contexto geopolítico adiciona outra camada de complexidade a este setor do mercado. Os Estados Unidos baniram a importação de robôs humanoides chineses, incluíram a Unitree na lista do Pentágono de empresas com vínculos militares e cortaram o acesso ao maior mercado de consumo do planeta. Mais de 40% da receita da Unitree vem do exterior, e a própria empresa reconheceu no prospecto que novas restrições americanas podem provocar queda no desempenho. A Agility Robotics, do outro lado da equação, abriu capital nos Estados Unidos via SPAC com proposta inversa: menos escala e mais aplicações industriais reais.
A bifurcação de mercado entre ecossistemas de robótica, um chinês, um ocidental, segue, portanto, o mesmo padrão que já vimos acontecer em semicondutores e em modelos de IA – o de uma Guerra Fria entre as duas potencias. E a pergunta que define os dois lados é a mesma: quando os robôs pararem de dançar, eles conseguem trabalhar?
O TikTok Quer Virar Banco
Referências encontradas no código do aplicativo TikTok para iPhone nos Estados Unidos indicam que a empresa está desenvolvendo um recurso de pagamentos entre usuários via mensagens diretas. Destinatários poderiam “tocar para aceitar” transferências, e remetentes poderiam incluir mensagens com o envio – um modelo que replica exatamente o que o WeChat Pay faz na China há mais de uma década. O TikTok confirmou que o recurso não está em fase de testes, o que sugere estágio inicial de desenvolvimento. Mas a direção da empresa, com essa informação, parece nos levar a conclusão de que a plataforma que capturou a atenção de mais de um bilhão de pessoas agora quer capturar também o dinheiro delas.
O movimento não nasce isolado. No início deste ano, como cobrimos à época, o TikTok solicitou ao Banco Central do Brasil autorização para operar como fintech, oferecendo serviços de empréstimo e pagamento. No Sudeste Asiático, o TikTok Pay já funciona integrado à TikTok Shop, processando compras dentro da plataforma. E o X, de Musk, lançou recentemente o X Money com funcionalidades semelhantes. O padrão do mercado é, nesse sentido, bastante claro: redes sociais que acumularam bilhões de usuários perceberam que a atenção, sozinha, se monetiza por publicidade, mas quando se adiciona a transação financeira, o modelo de negócio se multiplica.
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A cada real que circula dentro da plataforma, a empresa captura não só a taxa, mas o dado: quem paga, quem recebe, quanto, com que frequência. Esse tipo de informação transacional é o que permitiu ao WeChat se tornar o sistema operacional financeiro de metade da China.
Para o Brasil, onde o Pix já processa mais transações instantâneas do que qualquer outro sistema do mundo, a entrada do TikTok no financeiro competiria diretamente com Nubank, Mercado Pago, PicPay e os próprios bancos tradicionais – todos disputando o mesmo espaço de pagamentos entre pessoas. A diferença do TikTok é a mesma que o diferencia em qualquer mercado: a atenção. Nenhuma fintech do Brasil tem 100 milhões de jovens abrindo o aplicativo voluntariamente todos os dias. Se o TikTok conseguir transformar o gesto de enviar um vídeo engraçado em ponto de partida para enviar dinheiro, terá feito o que nenhum banco jamais conseguiu: tornar o pagamento parte do entretenimento. E isso, na economia da atenção, é a vantagem competitiva definitiva.






