IPO de 2 Trilhões, For You de Código Aberto, Instaladores de IA e Shopee no Delivery
Bom dia! Hoje é 14 de agosto. Neste mesmo dia, em 1945, o Japão anunciava sua rendição incondicional, encerrando a Segunda Guerra Mundial e inaugurando uma nova ordem global que redistribuiria poder, riqueza e influência por décadas. O conflito que terminou naquela manhã não foi sucedido por paz, mas foi sucedido pela corrida para estabelecer posições na ordem que viria a seguir. Quem se moveu primeiro, definiu as regras. Quem hesitou, ficou subordinado a elas.
Oitenta e um anos depois, a indústria de tecnologia vive seu próprio momento de reordenação – e a corrida por posições nunca foi tão intensa. A Anthropic mira uma avaliação de US$ 2 trilhões no que pode ser o maior IPO da história, tentando cristalizar seu valor antes que a commoditização corroa o prêmio. O X abre o código do seu algoritmo ao público, apostando que a transparência será mais valiosa do que o segredo que protegia. A IBM fecha com a OpenAI porque não pode ficar de fora da IA corporativa, mesmo que isso signifique treinar seus próprios funcionários na tecnologia de um rival. E a Shopee lança entrega em quatro horas no Brasil, entrando num campo de batalha onde Mercado Livre, iFood, Rappi e Amazon já operam com margens que mal sustentam a operação. Em todos os casos, a urgência é a mesma: estabelecer a posição antes que a janela se feche.
A Anthropic Pode Estrear na Bolsa Valendo US$ 2 Trilhões
Seis investidores da Anthropic disseram ao Financial Times que esperam uma avaliação de pelo menos US$ 2 trilhões no IPO previsto para outubro, algo que tornaria a estreia da dona do Claude a maior abertura de capital da história. A projeção parte de um crescimento que, mesmo para os padrões da IA, é difícil de deixar passar, uma vez que a receita anualizada da empresa saltou de menos de US$ 10 bilhões no início do ano para mais de US$ 47 bilhões em maio, e investidores esperam que ela atinja, até dezembro, valores entre US$ 100 bilhões e US$ 120 bilhões. Um deles calculou que, a 30 vezes a receita – um múltiplo que ele chamou de “piso conservador” –, a Anthropic valeria US$ 3 trilhões, tendo por base a negociação acionária da Palantir, uma referência possível no mercado, que negocia a 55 vezes.
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A Entrelinha disso, contudo, exige cautela com as entrelinhas do próprio otimismo. Os US$ 2 trilhões são projeção de investidores que possuem participação na empresa e que se beneficiariam diretamente de um IPO nesse patamar – não são estimativas da Anthropic, que ainda não definiu meta de avaliação nem internamente. Além disso, a empresa enfrenta ventos contrários que essas projeções parecem minimizar. O modelo principal do Claude custa mais de duas vezes e meia o equivalente da OpenAI. A Microsoft já declarou publicamente que quer “eliminar” os custos que paga à Anthropic. Modelos chineses como o DeepSeek V4-Flash entregam desempenho comparável por um preço 99% menor. E a restrição temporária dos modelos Fable 5 e Mythos 5 pelo governo americano, em junho, desacelerou o crescimento e abalou clientes que dependiam de acesso contínuo ao Claude – acontecimentos que, na minha visão, são grandes demais para deixar passar.
Em paralelo, a Anthropic negocia a compra da Decart AI, uma startup israelense de infraestrutura de IA, por cerca de US$ 6 bilhões, em um movimento que reforça a capacidade de processamento rápido da empresa – que é o que a possível comprada faz –, mas também adiciona complexidade societária a um momento já carregado de variáveis. A OpenAI, por sua vez, que protocolou seu próprio pedido de IPO “junto” à Anthropic, agora, sinaliza que pode adiá-lo para 2027 em vez de aceitar uma avaliação abaixo de US$ 1 trilhão.
A corrida entre as duas para chegar primeiro a Wall Street define qual narrativa de IA o mercado público vai comprar primeiro. E, como temos acompanhado desde a temporada de balanços, o mercado está cada vez mais disposto a questionar narrativas que não vêm acompanhadas de retorno proporcional ao investimento. US$ 2 trilhões é uma aposta de que a Anthropic não é apenas uma empresa de IA, mas é a grande a infraestrutura intelectual de uma era. Se outubro provar que é, será o IPO do milênio. Se não provar, será a correção mais cara da história.
O X Abre o Código do Seu Algoritmo
O X liberou o código-fonte completo do algoritmo que define o feed “Para Você” – incluindo os parâmetros que determinam quais publicações são amplificadas, quais são suprimidas e quais desaparecem sem que o autor saiba. Pela primeira vez, qualquer pessoa pode ver o peso que cada sinal recebe na classificação: curtidas, compartilhamentos, tempo de leitura, quem te segue, quem te silenciou… Mais importante: o X também adicionou um recurso que permite ao usuário verificar se sua conta ou suas publicações foram afetadas por algum dos sistemas de classificação, respondendo, enfim, à pergunta que assombra a plataforma desde antes da compra por Musk: “Eu fui shadowbanned?”
A decisão é simultaneamente um gesto de transparência e uma jogada estratégica. As acusações de shadowbanning e viés político perseguem o antigo Twitter – e agora o X – há anos, com congressistas americanos alegando que a plataforma suprimia vozes conservadoras e críticos liberais acusando Musk de amplificar as suas. Ao abrir o código, o X transfere a discussão do campo das acusações para o campo das evidências: se o algoritmo está lá, público e auditável, quem alegar viés precisa apontar exatamente onde ele está no código. Pesquisadores externos já conseguiram reproduzir as pontuações de classificação fora do ambiente do X, o que significa que a verificação independente é possível, e que qualquer manipulação futura será detectável.
O detalhe mais ambicioso, porém, é que o X permitirá que desenvolvedores externos enviem propostas de melhoria ao algoritmo via pull requests no GitHub. A ideia de que o feed de uma das maiores redes sociais do mundo possa ser construído, em parte, por contribuições do público é algo que nenhuma plataforma tentou em uma escala comparável. Se funcionar, o X terá criado um modelo de governança algorítmica colaborativa que reguladores europeus e americanos podem usar como referência (e finalmente sair do pé de Musk). Se não funcionar – porque a moderação de contribuições é difícil, porque a instrumentalização política é inevitável, ou simplesmente porque ninguém se interessa o suficiente –, terá sido uma experiência que confirma o que muitos suspeitam: que transparência algorítmica é uma boa ideia em teoria e um pesadelo operacional na prática.
A IBM Fecha com a OpenAI, e com a Anthropic Também
A IBM anunciou uma parceria com a OpenAI para levar os modelos do ChatGPT a seus clientes corporativos por meio da IBM Consulting – menos de um ano depois de ter feito um acordo praticamente idêntico com a Anthropic. A empresa criará uma divisão dedicada à OpenAI dentro da consultoria, treinará dezenas de milhares de consultores nas ferramentas do Codex e da API, e formará um grupo de especialistas implantados que trabalharão diretamente dentro das organizações clientes. A estrutura é a mesma que a Microsoft lançou com a Frontier Company e a Amazon com seus engenheiros de implantação avançada, só que, no caso da IBM, a expertise não é própria. É emprestada.
A decisão de firmar parcerias simultâneas com OpenAI e Anthropic revela a estratégia que a IBM escolheu para a era da IA: não ser o laboratório, mas ser o instalador. A empresa possui seus próprios modelos de LLM, mas reconhece que, para a maioria dos clientes corporativos, o que importa não é qual modelo é o melhor, mas qual está funcionando dentro do fluxo de trabalho amanhã de manhã. Ao se posicionar como integradora “agnóstica”, a IBM aposta que o valor na cadeia de IA migrou do modelo para a implementação – exatamente a tese que temos acompanhado desde que a Microsoft e a Amazon investiram, juntas, US$ 3,5 bilhões em engenheiros de implantação.
A IBM chegou à mesma conclusão, mas por um caminho diferente: em vez de construir a inteligência, ela treina pessoas para instalá-la. E, no mercado de consultoria de US$ 250 bilhões, onde a IBM compete com Accenture, Deloitte e McKinsey, oferecer OpenAI e Anthropic ao mesmo tempo é a forma mais rápida de garantir que nenhum cliente escolha outra consultoria por falta de opção de modelo.
A Shopee Entra na Guerra da Entrega em 4 Horas
A Shopee lançou o “Turbo”, uma modalidade de entrega que promete levar pedidos em até quatro horas a nossas casas, começando pela Grande São Paulo com mais de 4 mil lojas parceiras, incluindo Heineken, Americanas e Daki. O movimento coloca a plataforma de origem singapurense diretamente na arena que ontem descrevemos como a mais disputada do e-commerce brasileiro: a entrega expressa a partir de lojas e supermercados. A Shopee entra com 3 milhões de lojistas registrados e 50 milhões de usuários ativos – números que lhe dão escala, mas que ainda precisam ser traduzidos em velocidade logística real, não apenas em mais promessas de marketing.
O timing do lançamento é bem interessante. Ontem, cobrimos que o Mercado Livre está prospectando supermercados para entrega via motoboy direto das lojas. A Amazon acaba de se aliar à Rappi para lançar o Amazon Now no Brasil, com entrega em até 15 minutos. O iFood já opera farmácia, supermercado e pet shop com logística própria. E a Keeta, da chinesa Meituan, desembarcou com plano bilionário para o mercado brasileiro. A Shopee é a sexta plataforma de escala a entrar nessa disputa, e o fato de que todas decidiram atacar o mesmo segmento, no mesmo momento, com propostas operacionalmente semelhantes, diz algo sobre o mercado que nenhum comunicado individual consegue: a última milha brasileira está sendo disputada como se fosse um recurso finito, porque, em certo sentido, é. O consumidor que cria o hábito de pedir pelo iFood dificilmente migra para a Shopee por conveniência; o que migra por preço, muda de novo na próxima promoção. A corrida não é por quem entrega mais rápido, mas é, agora, por quem captura o hábito primeiro.
Para o consumidor brasileiro, a intensificação da competição é inequivocamente positiva: nos trazendo mais opções, mais velocidade e mais pressão sobre preços. Para as plataformas, é uma guerra de margens em que ninguém lucra enquanto todos investem, na esperança de que os concorrentes desistam antes. A história recente do delivery no Brasil – e no mundo – mostra que essa esperança raramente se concretiza no prazo esperado, e que os sobreviventes são os que já possuem um ecossistema que vai além da entrega: seja o de fintech, publicidade, assinatura ou dados – coisa que o Mercado Livre possui com maestria.
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Por isso, a entrada do Turbo da Shopee importa menos pelo que ela promete ao consumidor e mais pelo que revela sobre a empresa: a Shopee percebeu que não pode continuar sendo “o app de R$ 9,90 com frete grátis” e precisa se tornar plataforma de conveniência diária, ou correr o risco de ser espremida entre o Mercado Livre por cima e os apps de delivery por baixo.






