Bom dia! Hoje é 3 de novembro. Neste mesmo dia, em 1534, o Parlamento inglês aprovava o Ato de Supremacia, declarando Henrique VIII chefe supremo da Igreja da Inglaterra, rompendo assim, de forma definitiva, com Roma. Henrique não criou, efetivamente, uma nova religião, com novos dógmas. Não reescreveu a Bíblia. Não inventou uma teologia alternativa. O que fez foi declarar que a Inglaterra não responderia mais a uma autoridade estrangeira que controlava, havia séculos, suas leis, seus impostos e suas alianças (e, principalmente, sua moral, algo com que o rei não se dava tão bem). A questão nunca foi doutrinária, mas foi sobre soberania e sobre abertura para uma era de absolutismo moral ditado pelo monarca. Portanto, o Ato de Supremacia, que parecia a todos um capricho de um rei que queria um divórcio que o Papa não concedia, se revelou, ao longo das décadas seguintes, uma das decisões mais consequentes da história europeia: a afirmação de que um país tem o direito de controlar aquilo de que depende.
Quatrocentos e noventa e dois anos depois, a disputa por soberania, sobre chips, sobre carros, sobre dados, sobre a infraestrutura que sustenta tudo, é o fio que conecta cada notícia desta edição. A Apple publica o melhor ano fiscal de sua história e revela, nas entrelinhas, uma estratégia que nenhuma outra big tech ousou seguir: enquanto todas constroem data centers de centenas de bilhões e queimam caixa, a Apple conserva dinheiro, processa IA nos próprios dispositivos do usuário e espera, com a paciência de quem sabe que, quando a correção vier, terá o balanço mais líquido da indústria para comprar o que outros gastaram bilhões para construir. Os Estados Unidos avançam em direção a um banimento permanente de veículos chineses, e o que parece uma decisão comercial é, nas entrelinhas, o ressurgimento de uma doutrina que tem mais de dois séculos, a mesma que Alexander Hamilton formulou em 1791 para proteger as fábricas americanas da concorrência britânica e que Henry Clay transformou em política nacional no século XIX. E a Malásia se torna, silenciosamente, o lugar mais improvável e mais estratégico do planeta: o único país do mundo onde ByteDance e Microsoft constroem data centers lado a lado, porque ninguém pediu que escolhesse um lado, e porque os chips que os Estados Unidos proibiram de exportar para a China podem, legalmente, ser acessados do outro lado da fronteira. Em todos os casos, a pergunta é a mesma que Henrique VIII respondeu naquela tarde de novembro: quem controla o que me sustenta? E a resposta, como ele demonstrou, muda tudo.
A Apple Pode Ser a Vencedora da Corrida da IA, Mesmo de Fora Dela
Na sexta-feira passada, enquanto o Nasdaq 100 despencava porque investidores concluíram que os fluxos de caixa negativos da Alphabet, da Meta e da Amazon sinalizavam algo mais preocupante do que um trimestre atípico, a Apple divulgava seus resultados com a serenidade de quem assistia à tempestade de dentro de casa. Nesse contexto, a receita do quarto trimestre fiscal da empresa atingiu US$ 114 bilhões, o que representa uma alta de 12%, acima das projeções de Wall Street, da mesma forma que seu lucro líquido chegou a US$ 30,7 bilhões.
Frente a isso, John Ternus, em seu primeiro balanço como CEO, chamou o resultado de “o melhor ano fiscal de todos os tempos”. De fato, uma constatação indiscutivelmente verdadeira, mas que esconde, ainda, o detalhe que a torna mais do que mera retórica: a Apple atingiu esse resultado sem construir um único data center de inteligência artificial.
A estratégia da Apple é, à primeira vista, contraintuitiva, e, à segunda, brilhante, pois sua lógica inverte o paradigma que dominou a indústria nos últimos anos. Isso porque quando a Alphabet, a Meta e a Amazon se endividam para construir data centers, elas estão transformando custos variáveis – como pagar pelo usa da nuvem de terceiros – em custo fixo: construindo prédios, servidores, sistemas de refrigeração que custam bilhões e que, se a arquitetura de IA mudar nos próximos anos, podem se tornar obsoletos antes de se pagarem.
Já a Apple faz o contrário: ao integrar o Gemini do Google à Siri e processar o máximo possível nos próprios dispositivos do usuário, ela transforma o que seria custo fixo de sua operação – no caso, a infraestrutura de nuvem e os data centers – num custo variável que sobe ou desce conforme a demanda de seus usuários. Assim, se um dia a arquitetura de IA mudar drasticamente, a Apple não terá bilhões em servidores para depreciar, bem como já não sofre pressão para construir mais bases e, ao mesmo tempo, pagar acionistas sedentos por dividendos. As outras terão.
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Por outro lado, a segunda camada da estratégia é posicional. Quem desenvolve o modelo de IA gasta bilhões, como vemos com a OpenAI, a Anthropic, o Google, cada uma investindo fortunas no treinamento de seus modelos. Mas quem controla a interface final com o usuário, ou seja, o aparelho que ele segura na mão e o sistema operacional que ele abre toda dia pela manhã, dita as regras sobre como, quando e quanto cada modelo pode cobrar pelo acesso ao consumidor. Com isso, a Apple não precisa treinar o melhor modelo do mundo. Precisa ser o lugar onde o usuário acessa qualquer modelo. E, com dois bilhões de dispositivos ativos no planeta, é exatamente isso que é.
Ainda, quando o mercado de startups de IA sofrer uma correção – e, como o CEO da Broadcom sugeriu ao compará-lo a um cassino, essa correção pode vir mais cedo do que se imagina –, a Apple terá o balanço mais líquido da indústria para comprar, por uma fração do preço original, as tecnologias que outros gastaram bilhões para desenvolver.
Henrique VIII não criou uma nova Igreja. Esperou o momento certo, declarou soberania e ficou com os mosteiros. A Apple pode estar fazendo exatamente a mesma coisa, só que os mosteiros, desta vez, são os laboratórios de IA que estão queimando mais do que ganham.
Os EUA Querem Banir Carros Chineses, para Sempre
A indústria automotiva americana pediu, nesta segunda-feira, que o Congresso aprove uma proibição permanente de veículos chineses nos Estados Unidos, isso mesmo, não temporária, não revisável, não sujeita a negociação. Permanente. A proposta conta com apoio bipartidário esmagador no Senado e, embora tenha sido adiada para depois das eleições legislativas de meio de mandato que acontecem amanhã, o texto já está redigido, os votos já estão contados, e a questão parece não ser mais se passa, mas quando.
O argumento que a sustenta é duplo e calibrado para soar incontestável para os congressistas: segurança nacional, porque veículos conectados chineses poderiam transmitir dados de motoristas americanos a Pequim, e defesa industrial, porque as montadoras subsidiadas pelo Estado chinês produzem a um custo que nenhuma fábrica americana, europeia ou japonesa consegue igualar.
Assim, o que é tratado de imediato como mais um capítulo da guerra comercial entre Washington e Pequim, desta vez, revela algo muito mais profundo do que uma tarifa ou uma barreira: é o ressurgimento de uma doutrina econômica de mais de dois séculos que, durante décadas, a globalização tratou como peça de museu. Em 1791, Alexander Hamilton publicou o “Relatório sobre as Manufaturas”, no qual defendia que uma nação soberana não podia depender de potências estrangeiras para bens essenciais, e que o governo deveria usar tarifas pesadas para proteger suas fábricas nascentes da concorrência avassaladora da indústria britânica, então a maior do mundo. Décadas depois, Henry Clay consolidou essa visão no que chamou de “Sistema Americano”, que recomendava altas tarifas protecionistas combinadas com investimentos estatais em infraestrutura para criar um mercado interno autossuficiente e blindado contra choques externos.
Durante quase todo o século XX, a cartilha de Hamilton e Clay foi abandonada em favor do livre comércio. A promessa era de que a abertura beneficiaria a todos: consumidores americanos teriam produtos mais baratos, e os países exportadores se integrariam à ordem liberal liderada por Washington. A promessa funcionou enquanto nenhum país usou a abertura para construir uma superioridade industrial tão grande que ameaçasse a própria base manufatureira americana. A China fez exatamente isso.
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A China não domina a indústria de veículos elétricos apenas porque faz carros melhores, embora os faça cada vez melhores. Domina porque construiu, ao longo de décadas, um ecossistema vertical completo que vai da mineração de lítio e terras raras à produção de baterias que dominam o mercado global, do subsídio estatal ao financiamento barato, da escala fabril inigualável à logística que entrega em qualquer porto do mundo. O resultado foi uma supercapacidade de produção que o mercado interno chinês não consegue absorver e que, portanto, é exportada numa guerra de preços que o Ocidente classifica como dumping e que a China trata como eficiência.
Diante desse choque de modelos, os Estados Unidos ressuscitaram Hamilton. As tarifas sobre elétricos chineses já superam 100%, regulamentações governamentais já restringiam o mercado sob o argumento da privacidade de dados, e agora o Congresso se prepara para fechar a porta de vez, dessa vez, não com cadeado, mas com solda. O eco dessa decisão já se espalha pelo mundo. Na Europa, as tarifas subiram após investigações sobre subsídios ilegais por parte da China. No Canadá, as taxas sobre elétricos chineses chegaram a 100%. E no Brasil, onde já se emplacou mais de um milhão de carros eletrificados e as montadoras chinesas respondem por 21,4% de todas as vendas de veículos leves (mais que o dobro do ano anterior), o governo restabeleceu gradualmente os impostos de importação, usando o protecionismo como moeda de troca para forçar montadoras como a BYD a construírem fábricas no país em vez de apenas exportarem.
Com isso, a Entrelinha que conecta o banimento ao fio desta edição é que a soberania sobre o mercado automotivo é apenas o capítulo mais recente de um movimento que já se estende a chips, modelos de linguagem, redes sociais e infraestrutura de telecomunicações. Parece que, cada vez mais, as duas potências desenham um mapa de bifurcação em que as duas maiores economias do mundo constroem, deliberadamente, ecossistemas que não se comunicam, onde chips americanos que não entram na China, carros chineses que não entram nos EUA, modelos de IA que rodam em nuvens separadas e dados que não cruzam fronteiras.
A era da globalização irrestrita que marcou a virada do milênio está sendo sepultada, mercado por mercado e tarifa por tarifa. O que toma o seu lugar é a cartilha mais antiga do capitalismo americano, escrita por Hamilton num gabinete de Filadélfia há 235 anos, quando o inimigo era a Grã-Bretanha e a arma era a mesma: proteger o que é seu antes que alguém tome.
A Malásia Não Escolheu Lado (e Por Isso Todo Mundo Está Lá)
Numa faixa de terra no estado de Johor, no extremo sul da Malásia, onde até poucos anos atrás havia plantações de dendê e abacaxi que se estendiam até o horizonte, mais de 15 guindastes se erguem sobre uma escavação de 40 hectares. O barulho é de construção pesada, e a eletricidade consumida já bastaria para abastecer mais de um terço das residências do país. Estão sendo construídos data centers lado a lado: para a ByteDance, dona do TikTok, sediada na China, e, a poucas centenas de metros, para a Microsoft, sediada nos Estados Unidos. Ambas utilizando os mesmos chips da Nvidia, conectadas pelos mesmos cabos submarinos e operando no mesmo solo.
A razão pela qual a Malásia se tornou o ponto neutro da corrida global pela IA é, ao mesmo tempo, simples e impossível para muitos países de replicar: o país não escolheu lado. A razão técnica por trás desse fenômeno é a seguinte: os embargos americanos proíbem a exportação de chips avançados de IA para a China continental, impedindo que a ByteDance compre GPUs da Nvidia e as leve para Shenzhen. Contudo, as regras americanas geralmente não impedem que empresas chinesas acessem esses mesmos chips em data centers localizados fora do território chinês. É uma brecha enorme, documentada e, por enquanto, totalmente legal.
Diante disso, a Malásia explora essa lacuna comercialmente, oferecendo terrenos baratos, energia relativamente acessível, proximidade dos cabos submarinos que conectam a Ásia e um governo que trata a neutralidade como política de Estado e econômica, sem fazer perguntas sobre quem aluga o espaço. É tudo o que um data center precisa, sem a complicação geopolítica que qualquer outro local exigiria. Como resumiu um analista citado pelo Wall Street Journal: “Este é o único lugar do mundo onde estamos vendo isso acontecer.”
Deste modo, a Entrelinha mais inquietante do fenômeno malaio é o que ele revela sobre a eficácia (ou a ineficácia) das sanções americanas. Um relatório distribuído dentro do governo dos EUA identificou participação chinesa, direta ou indireta, em 38 dos 128 projetos de data centers no Sudeste Asiático. O estudo estimou que a capacidade computacional disponível para empresas chinesas na Malásia, Tailândia, Vietnã, Indonésia e Singapura é quase tão significativa quanto a existente em toda a China continental, onde os embargos supostamente deveriam conter essa expansão.
A frase de um funcionário do governo americano que acompanha o tema resume o paradoxo: “Nada disso é ilegal. É uma enorme lacuna nos controles de exportação que ninguém corrigiu. Essas brechas dão à China acesso a uma capacidade computacional gigantesca.” Os Estados Unidos gastaram bilhões de dólares e anos de capital diplomático para impedir que a China acessasse os melhores chips de IA do mundo. A China respondeu construindo data centers a duas horas de avião de Singapura, utilizando os mesmos chips, com a mesma capacidade e sem violar uma única regra.
Henrique VIII declarou soberania porque Roma controlava o que ele não podia aceitar que outro controlasse. Washington tentou declarar soberania sobre a tecnologia de chips. E a Malásia provou que, quando a soberania tem furos, quem os encontra não pede permissão, mas passa por eles e constrói um data center do outro lado.





