A Base de Tudo, Buffett Aposta no Google, OpenAI na Sua Casa e Samsung Olha para Nasdaq
Bom dia! Hoje é 16 de julho. Neste mesmo dia, em 1945, às 5h29 da manhã no deserto do Novo México, os Estados Unidos detonavam a primeira bomba atômica da história no teste batizado de Trinity. O clarão iluminou montanhas a mais de 250 quilômetros de distância, e Robert Oppenheimer, que liderou o projeto, recordaria depois ter pensado numa frase do Bhagavad Gita: “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos.” Em questão de semanas, o monopólio nuclear americano redesenharia a ordem global por décadas.
Oitenta e um anos depois, os monopólios mais consequentes do planeta não envolvem urânio, mas silício, e a empresa que os detém não carrega mísseis, mas máquinas do tamanho de um ônibus que custam centenas de milhões de dólares e são as únicas no mundo capazes de fabricar os chips que alimentam tudo, de smartphones a data centers de IA.
As notícias de hoje são, cada uma à sua maneira, histórias sobre concentração de poder: uma empresa holandesa que eleva projeções porque sabe que não tem concorrente, um investidor de 95 anos que aposta no Google porque reconheceu tarde que monopólios digitais são tão duráveis quanto os industriais, uma startup de IA que quer colocar um companheiro inteligente dentro da sua casa, e uma fabricante sul-coreana de memória que avalia entrar em Wall Street porque o mundo inteiro precisa do que ela produz.
A ASML, a Empresa Mais Importante que Você Nunca Ouviu Falar
A ASML elevou pela segunda vez sua projeção anual de vendas, agora estimada entre 43 e 45 bilhões de euros, acima dos 36 a 40 bilhões previstos anteriormente. Seu lucro bruto do segundo trimestre atingiu quase 5,04 bilhões de euros, com uma margem de 54% que superou tanto o consenso de mercado quanto a projeção da própria empresa. Os números, isoladamente, seriam (mais que) excelentes para qualquer companhia industrial. Mas, para a ASML, são a confirmação de algo que o mercado de semicondutores já sabe, mas que a maioria de nós ainda não: essa é a empresa mais importante do planeta, e ela não fabrica um único chip.
O que a ASML fabrica são as máquinas de litografia por ultravioleta extremo que gravam circuitos microscópicos em placas de silício, no português claro, o processo fundamental sem o qual nenhum semicondutor avançado pode existir. Cada equipamento desses leva anos para ser montado, contém mais de 100 mil peças fornecidas por milhares de empresas, custa centenas de milhões de dólares e é fabricado em um único lugar do mundo: na sede da ASML em Veldhoven, na Holanda.
A empresa detém, na prática, 100% do mercado mundial de máquinas de litografia EUV comercialmente viáveis. Isso não se trata de um mercado em que uma companhia possui 90%, 95% ou 99% de participação. Não. Trata-se de um caso raríssimo de domínio absoluto, onde toda a indústria depende exclusivamente da ASML.
É por isso que TSMC, Samsung e Intel, que fabricam os chips que vão dentro de cada iPhone, que cada GPU da Nvidia e cada servidor de IA do Google, dependem integralmente dessas máquinas. E, por extensão, toda a cadeia tecnológica global depende de uma empresa holandesa que opera no centro de tensões geopolíticas que nem ela mesma pode controlar.
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O resultado prático desse monopólio é que, quando a ASML eleva suas projeções, ela não está apenas comunicando bons resultados, mas está, de fato, sinalizando que a demanda por chips avançados continua superando a capacidade de produção do planeta.
Como o CEO da empresa declarou na Conferência do Instituto Milken em maio, “nos próximos dois a cinco anos, o mercado será limitado pela oferta”. Traduzindo: as big techs não receberão todos os chips pelos quais estão pagando. E quando o gargalo mais fundamental de uma indústria trilionária passa por uma única empresa em uma única cidade holandesa, o que se tem é um grande (e único) ponto de vulnerabilidade civilizacional. A ASML, nesse sentido, é, simultaneamente, a empresa mais lucrativa e o elo mais frágil de toda a cadeia de inteligência artificial.
Buffett Aposta Pessoalmente no Google
Warren Buffett revelou que foi ele pessoalmente, e não o novo CEO da Berkshire Hathaway, quem liderou o investimento de mais de US$ 31 bilhões na Alphabet. O fato de o investidor mais celebrado da história, aos 95 anos, ter colocado dezenas de bilhões numa empresa que ele mesmo admite ter demorado a entender já carrega um peso que dispensa relatórios de analistas. Mas o que importa aqui não é que Buffett apostou, mas é por que apostou, e o que isso revela sobre quem está melhor posicionado na corrida da IA.
A Alphabet construiu, nos últimos dois anos, algo que nenhuma rival possui em equivalência: um ecossistema de inteligência artificial totalmente integrado. A empresa projeta seus próprios chips, as TPUs, reduzindo sua dependência e o custo das GPUs da Nvidia. Desenvolve seus próprios modelos, com o Gemini alcançando mais de 900 milhões de usuários mensais no aplicativo e bilhões usando a busca em “Modo IA”. E distribui tudo isso por canais que já existem, seja o Android, o Google Workspace, o YouTube ou o Chrome, algo que lhe confere uma vantagem de alcance que concorrentes como OpenAI e Anthropic, que não possuem ecossistemas de hardware nem bases de usuários comparáveis, simplesmente não conseguem replicar.
Quando a virada de chave do Google aconteceu, ela veio não de lançar um chatbot isolado, mas de embeber a IA nativamente nos serviços que bilhões de pessoas já usavam todos os dias. E isso, na linguagem de Buffett, é exatamente o que ele chama de “retornos elevados sobre o capital por um longo período de tempo”, sendo a capacidade de transformar uma vantagem de distribuição existente em uma vantagem de IA que se retroalimenta.
O que torna a aposta arriscada, e Buffett foi honesto sobre isso, é que a corrida da IA destrói a equação que tornou as big techs tão lucrativas na era anterior. Empresas como Google, Microsoft e Meta construíram impérios com margens folgadas de 30% a 40% porque seus softwares escalavam a custo marginal próximo de zero, afinal, cada novo usuário do Gmail ou do Windows praticamente não custa nada.
A IA, porém, inverte essa lógica, uma vez que cada consulta ao Gemini, cada resposta do ChatGPT, cada agente do Claude Cowork consome chips, memória e energia em quantidades que crescem com o uso, não diminuem.
“A verdadeira questão com o Google e todos os seus concorrentes”, disse Buffett, “é que eles estão investindo centenas de bilhões, e isso é dinheiro de verdade. Esse é o jogo que eles estão jogando agora. Eles não jogavam esse jogo com software de computador.”
Buffett está apostando que a Alphabet possui as vantagens estruturais para vencer esse jogo. Mas ao chamar os investimentos de “dinheiro de verdade”, está dizendo algo que poucos otimistas querem ouvir: nesta corrida, até quem vence gasta mais do que qualquer empresa jamais gastou. E o retorno, por enquanto, é uma aposta, e não uma certeza.
A OpenAI Quer Morar na Sua Casa
O primeiro dispositivo de hardware da OpenAI será, segundo a Bloomberg, um alto-falante inteligente sem tela, projetado como “um companheiro de IA com características humanas que vive em casa”. O aparelho, que ainda está em desenvolvimento, sincronizará com o ChatGPT e terá acesso à vida digital do usuário (incluindo e-mails), aprendendo proativamente sobre seu dono ao longo do tempo para oferecer um serviço cada vez mais personalizado.
O detalhe mais curioso da reportagem é que o dispositivo contém “elementos mecânicos que podem se mover sozinhos”, o que sugere algo entre um assistente de voz e uma presença física projetada para parecer viva.
A ambição da empresa parece ser clara (agora): fazer o ChatGPT saltar da tela do computador para o mundo físico. Os alto-falantes inteligentes da Amazon e do Google já mostraram que existe um mercado enorme para dispositivos de IA domésticos, mas tanto a Alexa quanto o Google Home foram, até agora, fundamentalmente reativos, ou seja, eles respondem quando você pergunta, mas não tomam iniciativa.
O que a OpenAI descreve é um dispositivo que antecipa necessidades, oferece um contexto sem ser solicitado e desenvolve uma relação personalizada que se aprofunda com o tempo. Se isso funcionar como prometido, o aparelho deixará de ser apenas um gadget e se tornará uma espécie de assistente pessoal permanente que conhece sua agenda, seus hábitos e sua correspondência… e está sempre ouvindo.
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A iniciativa, contudo, nasce cercada de complicações. Na semana passada, a Apple processou a OpenAI por roubo de segredos comerciais, alegando que ex-funcionários seus que agora trabalham na empresa de Altman levaram consigo conhecimentos proprietários sobre o desenvolvimento de iPhone e Mac, exatamente o tipo de expertise necessário para projetar hardware de consumo.
A OpenAI negou as acusações, mas o timing tente a dizer o contrário, uma vez que a empresa quer lançar um dispositivo físico, construído por engenheiros que vieram da Apple, enquanto enfrenta um processo por ter contratado esses mesmos engenheiros. A corrida da OpenAI para construir hardware, com isso, é, além de técnica, jurídica. E o desfecho do processo com a Apple pode determinar se o “companheiro de IA” de Altman chega ao mercado como produto ou como evidência.
A Samsung Olha para Wall Street
A Samsung está nas etapas iniciais de avaliação de uma possível oferta de ações nos Estados Unidos, segundo fontes com conhecimento das discussões. A empresa já conversou com bancos sobre a operação, embora ainda não tenha decidido seguir adiante. O impulso veio da listagem recorde da SK Hynix, que na semana passada levantou US$ 26,5 bilhões na maior oferta já realizada nos EUA por uma empresa estrangeira, evidenciando o apetite dos investidores americanos por empresas posicionadas no centro da cadeia de fornecimento de IA.
Os números do mercado explicam essa tentação. As ações da Samsung acumulam alta de 120% neste ano, elevando seu valor de mercado para mais de US$ 1 trilhão. A SK Hynix, sua principal concorrente em memória, valorizou 194% e alcançou US$ 900 bilhões. Ambas surfam a mesma onda que acompanhamos nas últimas semanas: a explosão de demanda por memória de alta largura de banda para data centers de IA, que transformou fabricantes de chips de memória nas novas estrelas do mercado enquanto as Magníficas “perdem” brilho.
Uma listagem nos EUA daria à Samsung acesso direto ao maior pool de capital do mundo e a uma base de investidores que, neste momento, está faminta por exposição a qualquer empresa que fabrique os componentes que sustentam a infraestrutura de IA.
Mas há um risco que o entusiasmo atual pode estar obscurecendo. A Samsung e a SK Group anunciaram no mês passado planos para construir quatro novas fábricas de semicondutores, num investimento combinado de US$ 536 bilhões, para ampliar a capacidade (oferta) de produção. Se essa capacidade entrar em operação num prazo razoável, a escassez que hoje sustenta os preços elevados e as margens gordas dos fabricantes de memória começará a aliviar, e, com ela, a tese de investimento que justifica as avaliações trilionárias.
É exatamente o ciclo que vimos acontecer com a Nvidia: a empresa resolveu a escassez de GPUs e, ao fazê-lo, comoditizou parcialmente seu próprio produto. Se Samsung e SK Hynix resolverem a escassez de memória, podem repetir o mesmo roteiro. E quem comprar ações no pico da escassez pode descobrir que pagou o preço da crise num momento em que a solução já estava sendo construída.






