Bom dia! Hoje é 20 de outubro. Neste mesmo dia, em 1944, o general Douglas MacArthur desembarcava na ilha de Leyte, nas Filipinas, cumprindo a promessa que havia feito dois anos antes, quando o exército japonês o forçou a abandonar o arquipélago: “I shall return.” MacArthur não voltou por sentimentalismo, mas voltou porque as Filipinas eram o ponto estratégico que controlava o acesso ao Mar do Sul da China, e reconquistá-las significava cortar as linhas de suprimento do Japão. Mas a frase que ficou para a história não foi sobre estratégia. Foi sobre retorno. E o poder de um retorno, como MacArthur entendeu, não está apenas em voltar, mas está em voltar diferente.
Oitenta e dois anos depois, as notícias de hoje são, cada uma à sua maneira, histórias de retorno, ou seja, coisas que haviam sido abandonadas, ignoradas ou dadas como encerradas e que reaparecem sob formas que ninguém previa. A Amazon lança uma ferramenta que permite migrar aplicativos de IA dos chips da Nvidia para os seus com a alteração de uma única linha de código, e, ao fazê-lo, tenta desmontar o lock-in de software que, durante anos, tornou a Nvidia não apenas a melhor opção, mas a única viável. O Brasil descobre que um em cada três lares já tem alguém usando canetas emagrecedoras, e a cascata que documentamos desde março (açúcar, etanol, roupas, Nestlé, PepsiCo) se revela ainda mais profunda do que imaginávamos: 95% desses lares reduziram o consumo de pelo menos uma categoria inteira de alimento. O McDonald’s anuncia US$ 8,5 bilhões para trazer de volta os parquinhos, as cozinhas à vista e a identidade emocional que passou duas décadas apagando em nome de uma modernização que o deixou parecido com agência bancária. E Elon Musk promete dar ações da SpaceX a cada criança americana, o que é uma declaração que movimentaria US$ 10,5 bilhões e que, como quase tudo que Musk promete, é grandiosa, vaga e impossível de verificar até que aconteça. Em todos os casos, o que volta não é o que foi embora. É algo que aprendeu com a ausência.
A Amazon Quer Desconectar Todos da Nvidia
Para entender por que o lançamento do TorchNeuron pela Amazon nesta segunda-feira é mais importante do que o nome sugere, é preciso primeiro entender como a Nvidia se tornou insubstituível, porque não foi só pelo chip. Foi pelo software. O CUDA, plataforma que a Nvidia desenvolveu ao longo de quase vinte anos, é o idioma que praticamente todos os aplicativos de inteligência artificial falam. Assim, quando um desenvolvedor escreve um modelo de IA usando o PyTorch – que é o kit de ferramentas mais popular do mercado, presente em cerca de 85% dos projetos –, esse modelo roda, quase automaticamente, em hardware da Nvidia, porque o PyTorch foi otimizado ao longo de anos para funcionar perfeitamente com o CUDA. Por isso, trocar de chip significava, até agora, reescrever grandes partes do código, sendo isso um custo de tempo e engenharia que poucos estavam dispostos a pagar.
O lock-in, portanto, não estava no chip. Estava na linha de código.
O TorchNeuron ataca exatamente esse ponto. A nova ferramenta permite que aplicativos escritos em PyTorch migrem para o Trainium (o chip de IA da Amazon) alterando uma única linha de configuração – é como se surgisse um comando onde, de forma simples, se pudesse passar os dados de um celular Android para um IOS. Nesse processo, não é necessário reescrever o modelo, reformular a arquitetura nem aprender uma nova linguagem. Basta apenas que o desenvolvedor mude uma instrução, execute o mesmo código e o modelo roda no chip da Amazon em vez de rodar no da Nvidia.
Vale dizer que a novidade não para por aí, pois a Amazon vai mais longe: ela anunciou que contribuirá com o código necessário para tornar o próprio PyTorch menos dependente de qualquer hardware específico, incluindo o CUDA, e pretende que essa mudança beneficie toda a comunidade, não apenas seus clientes. É, na prática, uma campanha para desconectar o fio que prende 85% dos projetos de IA ao ecossistema da Nvidia. É diante disso, que a frase que resume a ambição do projeto veio de um executivo da AWS: “A verdadeira questão é remover a dependência que impedia os desenvolvedores de terem uma escolha real [sobre qual chip usar].”
Deste modo, para a Nvidia, que se tornou a empresa mais valiosa do mundo não apenas pela qualidade dos seus chips, mas pela profundidade do ecossistema de software que os torna indispensáveis, o TorchNeuron é a ameaça mais cirúrgica que já enfrentou.
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A Microsoft lançou o Maia 300 para substituir GPUs da empresa na inferência; o Google já fabrica suas TPUs; e a própria Qualcomm fechou acordos de bilhões de dólares para fornecer tipos de hardware alternativo para empresas. Porém, todos esses movimentos atacavam o hardware – e esbarravam no fato de que o software continuava preso ao CUDA. Todavia, o que a Amazon faz agora é diferente, uma vez que não compete diretamente com o chip da Nvidia, mas compete com a cola que prende o desenvolvedor a ele.
Com isso, se este programa funcionar, e, como a própria Amazon reconhece, a experiência de migração precisará ser tão boa quanto a promessa, o fosso que a Nvidia levou vinte anos para cavar terá sido, pela primeira, contornado não por um chip melhor, mas por uma ponte que torna o fosso irrelevante. MacArthur não derrotou o Japão destruindo sua marinha inteira. Cortou suas linhas de suprimento. A Amazon está tentando fazer o mesmo com a Nvidia, e o suprimento que quer cortar é o CUDA. Será que dará certo? E, se der, o efeito será desastroso para a Nvidia?
Um em Cada Três Lares Brasileiros Usa Caneta Emagrecedora
Quando começamos a acompanhar o efeito cascata das canetas emagrecedoras, há mais de um ano, o fenômeno parecia um assunto de consultório médico com desdobramentos curiosos no agronegócio. Alguns bons meses depois, os números que o Instituto Locomotiva acaba de divulgar mostram que a cascata não era curiosa, mas era, definitivamente, estrutural. O novo dado é de que um em cada três domicílios brasileiros já tem pelo menos uma pessoa que usa ou usou GLP-1. E em 95% desses lares, a presença da caneta provocou uma redução severa no consumo de pelo menos uma categoria inteira de alimento ou bebida. Não um ajuste. Mas uma redução severa – do tipo que desaparece da lista do supermercado.
As categorias mais afetadas são exatamente as que a indústria de alimentos construiu décadas de marketing para proteger: ultraprocessados, doces, salgadinhos, refrigerantes e bebidas alcoólicas. São os produtos com maiores margens do varejo, os que mais dependem de compra por impulso doparminergicos e os que menos sobrevivem quando o gatilho biológico do desejo é desligado por uma injeção semanal.
Em decorrência disso, a PepsiCo, por exemplo, já cortou previsão de parte de seus lucros oriundos de seus produtos. A Coca-Cola, por sua vez, vem se adiantando ao baque, lançando versões prebióticas e light de seus refrigerantes para justificar nutricionalmente um refrigerante que, sem a desculpa, perde razão de existir. Até mesmo o Mercado Livre, recentemente, começou a vender estas canetas em sua plataforma de entregas para milhares de consumidores. Cada uma dessas respostas dada pelo mercado é a mesma indústria reagindo, por portas diferentes, à mesma força.
O dado que torna essa transformação irreversível, contudo, é, além de comportamental, econômico. A quebra da patente da semaglutida em março de 2026 abriu caminho para que a Anvisa aprovasse as primeiras versões genéricas e similares nacionais, produzidas por laboratórios como a EMS. O preço que restringia o acesso das canetas às classes A e B começa a cair – e, com ele, cai a barreira que impedia que a mesma transformação de consumo observada nos lares de alta renda se espalhasse para o restante da população.
Com isso, se um terço dos domicílios já usa quando o medicamento é caro, o que acontece quando se torna acessível? A resposta, que nenhuma pesquisa ainda tem condições de quantificar, é que o Brasil pode estar diante da maior mudança de hábito alimentar de sua história – não imposta por uma regulação nem por uma nova campanha de saúde pública, mas pela combinação entre uma molécula que desliga o apetite e um mercado que a tornou barata. Portanto, o que começou como uma caneta na barriga está se tornando, nas Entrelinhas, uma reconfiguração silenciosa do que o Brasil come, do que o varejo vende e do que a indústria de alimentos precisará inventar para sobreviver.
O McDonald’s Quer de Volta a Alma que Passou Anos Apagando
Se você tem mais de trinta anos, provavelmente guarda na memória a experiência de entrar num McDonald’s quando era criança – especialmente nos estabelecimento americanos: o vermelho vibrante, o cheiro de fritura que começava no estacionamento, os brinquedos do McLanche Feliz e, no fundo do salão, o parquinho, que era aquele labirinto de tubos plásticos coloridos com escorregador, piscina de bolinhas e escalada que, para uma criança, era tão importante quanto o hambúrguer. Nesse contexto, a ida ao McDonald’s não era uma refeição. Era um evento, e o restaurante que proporcionava esse evento não era apenas um ponto de venda, mas era um lugar na memória afetiva de milhões de famílias.
Entretanto, nas últimas duas décadas, o McDonald’s apagou tudo isso. Substituiu o vermelho por cinza. Trocou os parquinhos por mesas com tomadas. Cobriu as paredes com painéis de madeira industrial. E transformou cada restaurante numa caixa neutra, eficiente e esteticamente indistinguível de uma agência bancária ou de um consultório de dentista. Segundo a empresa, a intenção era atrair o jovem adulto sofisticado. O resultado foi expulsar a família e, com ela, a identidade do restaurante.
Contudo, uma mudança de rumos parece estar por vir. O plano NEXT, apresentado em setembro e detalhado nesta semana com um aporte de US$ 8,5 bilhões, é a tentativa mais cara e mais ambiciosa que o McDonald’s já fez para recuperar o que perdeu. Os parquinhos, agora, voltam – mesmo que estruturas menores, projetadas para ocupar menos espaço e custar menos manutenção. As cozinhas ganham paredes de vidro, para que o consumidor veja o hambúrguer sendo montado – uma resposta direta à desconfiança crescente sobre o que o fast food serve e a como é feito. As fachadas abandonam o cinza e recuperam transparência, pátios ao ar livre e iluminação natural.
Ainda, cada reforma será precedida por uma análise de geomarketing que decidirá, restaurante por restaurante, se aquele bairro tem famílias com crianças, tráfego de fim de semana e escassez de opções de lazer infantil, porque, pela primeira vez na história da rede, a padronização global deu lugar à personalização local.
A Entrelinha mais reveladora do plano NEXT, porém, é filosófica, não arquitetônica. O McDonald’s passou vinte anos tentando ser o que não era. ou seja, um café premium, um restaurante moderno, um espaço de trabalho com Wi-Fi. E, no processo, deixou de ser o que sempre foi: o lugar onde as famílias iam quando queriam algo rápido, barato e divertido para as crianças. O retorno ao parquinho não é, portanto, mero apelo a nostalgia, mas é a admissão de que a marca funcionava melhor quando sabia quem era.
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Sob a lente desse diagnóstico, nas Entrelinhas, se aplica a muito mais do que uma rede de hambúrgueres. Em setembro, escrevemos que o McDonald’s “tem medo de virar a Nokia dos restaurantes”. O plano NEXT é a resposta a esse medo: em vez de continuar perseguindo uma identidade que não lhe pertence, voltar à que sempre funcionou e adaptá-la ao presente. MacArthur não voltou às Filipinas para reconstruir o que existia antes. Voltou para construir algo diferente sobre as fundações que conhecia. O McDonald’s está tentando fazer o mesmo, e os US$ 8,5 bilhões que está investindo são a medida mais concreta do preço que se paga por ter apagado a própria alma.
Musk Quer Dar Ações da SpaceX a Cada Criança dos EUA
Elon Musk publicou nesta segunda-feira, no X, que pretende destinar parte de suas ações da SpaceX a cada criança nos Estados Unidos a partir de 2027. “Esta será a primeira de muitas”, escreveu, sem acrescentar qualquer detalhe sobre como a iniciativa funcionaria na prática, isto é, não foi dado detalhes de quem recebe, quando recebe, em que tipo de conta, sob quais condições, com qual valor por criança.
Nenhum comunicado oficial da SpaceX acompanhou a publicação. Nenhum documento regulatório foi protocolado. É, até o momento, uma frase de três linhas numa rede social, acompanhada de um cálculo de guardanapo que a imprensa fez sozinha: com 72 milhões de crianças nos EUA e ações negociadas a cerca de US$ 146, a distribuição de uma ação por criança custaria aproximadamente US$ 10,5 bilhões, ou cerca de 1,5% da participação de Musk na empresa.
A declaração surge num contexto que a torna menos generosa do que parece à primeira vista. As chamadas “Contas Trump”, que são as contas de investimento com vantagens fiscais criadas pelo governo federal em 2025, já preveem depósitos de US$ 1.000 por criança elegível nascida entre 2025 e 2028. Michael Dell e sua esposa anunciaram uma doação de US$ 6,25 bilhões para contas de 25 milhões de crianças. E Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, prometeu ações da empresa para mais de 2 milhões de crianças. A promessa de Musk não é, portanto, a primeira, só é a maior. Mas também é a mais vaga. E, como o mercado bem sabe, quando se trata de Musk, a distância entre a promessa e a execução é onde mora a diferença entre gesto e realidade.
O que merece atenção, contudo, é a lógica política da promessa. Distribuir ações da SpaceX a crianças é, literalmente, a criação de uma base de acionistas que, ao completar 18 anos, terá interesse pessoal na valorização de uma empresa de foguetes, satélites e infraestrutura espacial. É o mesmo princípio que fez Margaret Thatcher vender casas populares na Inglaterra dos anos 1980: quem possui algo quer que aquilo valorize, e quem quer que algo valorize defende as políticas que favorecem quem o produziu.
Deste modo, setenta e dois milhões de crianças americanas com uma ação da SpaceX no portfólio se tornariam, ao crescer, setenta e dois milhões de adultos com um motivo pessoal para apoiar a exploração espacial, os subsídios ao setor e, por extensão, o homem que lhes deu a ação. MacArthur voltou às Filipinas para reconquistar território. Musk, com uma frase de três linhas, tenta conquistar uma geração inteira, com uma moeda que não é o dólar. É a ação de uma empresa que, neste momento, vale mais do que quase todos os países onde essas crianças moram.
Vale lembrar, novamente, que isso foi apenas uma publicação. Ou seja, estamos mais especulando do que, realmente, prevendo um cenário futuro provável.






