Bom dia! Hoje é 22 de setembro. Neste mesmo dia, em 1692, oito pessoas eram executadas em Salem, Massachusetts, encerrando um dos episódios mais sombrios da história americana. Ao longo de quatro meses, mais de duzentas pessoas haviam sido acusadas de bruxaria, e vinte foram mortas, não porque houvesse bruxas, mas porque o medo de algo que a comunidade não compreendia era forte o suficiente para substituir a evidência. Salem não foi destruída por bruxaria. Foi destruída pelo pânico diante do que não entendia.
Trezentos e trinta e quatro anos depois, o medo de algo que a maioria das pessoas não compreende completamente volta a moldar decisões, mercados e comportamentos, só que, desta vez, o objeto do medo é real. A inteligência artificial não é bruxaria: ela de fato automatiza tarefas, ela de fato substitui funções, ela de fato escapou de ambientes de teste e atacou sistemas reais. Mas a distância entre o medo informado e o pânico desinformado continua sendo a mesma que separava os juízes de Salem dos moradores que eles condenaram. As notícias de hoje percorrem exatamente essa fronteira. A AMD se torna a quarta fabricante americana de chips a valer US$ 1 trilhão, confirmando que o mercado aposta que a IA está apenas começando. O McDonald’s reformula toda a sua estratégia nos Estados Unidos porque o medo de perder relevância é mais urgente do que qualquer crise financeira. A China inaugura a primeira fábrica do mundo capaz de produzir um robô humanoide a cada dez minutos, tornando tangível aquilo que, até ontem, era projeção. E mais da metade dos brasileiros declara estar mais preocupada do que animada com a IA, um sentimento que cresceu doze pontos percentuais entre os jovens em apenas um ano. Em todos os casos, o medo é compreensível. A pergunta é se ele nos ajuda a nos preparar, ou se nos paralisa antes que possamos agir.
A Quarta Fabricante de Chips a Valer US$ 1 Trilhão
Quatro anos atrás, quando a Nvidia ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 1 trilhão, o feito foi tratado como algo extraordinário, afinal, pela primeira vez se via uma empresa de chips alcançando uma avaliação que, até então, pertencia apenas a Apple, Microsoft e Alphabet. Nesta segunda-feira, a AMD atingiu o mesmo patamar e a reação, de modo contrário, foi quase rotineira. Não porque US$ 1 trilhão tenha deixado de ser muito dinheiro, mas porque a AMD é a quarta fabricante americana de chips a chegar lá (depois de Nvidia, Broadcom e Micron) e, a essa altura, o padrão já está tão claro que o espanto deu lugar à constatação: a inteligência artificial transformou semicondutores no setor mais valioso da economia global, e o clube do trilhão é apenas o reflexo financeiro dessa transformação.
A trajetória da AMD é particularmente reveladora porque a empresa passou boa parte da última década sendo subestimada. Enquanto a Nvidia dominava o mercado de GPUs para IA com margens altíssimas e com receitas que dobravam a cada trimestre, a AMD era tratada como coadjuvante, a “outra empresa de chips”, sempre um passo atrás. O que mudou foi a percepção de que a corrida da IA não será vencida por uma única empresa. Os data centers de IA precisam de GPUs, mas também precisam de CPUs para coordenar o trabalho dos processadores gráficos, e nesse mercado, a AMD vem ganhando participação às custas da Intel, que enfrenta crises operacionais e perda de competitividade há anos. A AMD também deixou de vender apenas chips avulsos e passou a oferecer sistemas completos que combinam processadores, equipamentos de rede e software, competindo diretamente com os racks integrados da Nvidia.
O movimento generalizado do setor nesta segunda-feira - onde a Intel subiu 11%, Qualcomm avançou 4%, o índice de semicondutores atingiu a máxima do mês - sinaliza algo que vai além de uma empresa individual. O mercado está precificando a convicção de que a demanda por chips de IA não apenas continuará, mas se expandirá para camadas da cadeia que, até recentemente, não participavam da narrativa. Como temos documentado ao longo destas edições, o valor na indústria de IA está migrando do software para o hardware, ou seja, do código para o ferro. Uma prova disso é que, recentemente, Michael Dell se tornou o segundo homem mais rico do mundo montando servidores. A Samsung lucrou 250 vezes mais na sua divisão de memória. E agora quatro fabricantes americanas de chips valem, juntas, mais de US$ 10 trilhões. A pergunta que Salem levantou há trezentos anos - “isso é real ou é histeria coletiva?” - se aplica aqui. A diferença é que, neste caso, há lucros trimestrais para sustentar a resposta.
O McDonald’s Tem Medo de Virar Irrelevante
Quando a maior rede de fast-food do mundo, com mais de 40 mil restaurantes em 100 países, decide que seu problema mais urgente não é o preço do hambúrguer nem o custo da matéria-prima, mas o fato de que os clientes não se sentem bem-vindos ao entrar na loja, podemos perceber que algo mudou. Isso porque o McDonald’s enviou um memorando aos seus franqueados americanos anunciando uma reformulação completa de sua estratégia de valor, e o documento, obtido pela Bloomberg, não fala de descontos agressivos nem de refeições por cinco dólares. Fala de hospitalidade. De atendimento. De treinamento para que funcionários cumprimentem cada cliente que cruza a porta. De pausar inspeções para que as equipes aprendam a preparar os itens corretamente.
Diante disso, é claro que o mais novo medo do McDonald’s não está em perder para seus concorrentes no preço. Está com medo de perder no afeto.
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O contexto justifica a preocupação. As vendas nas lojas já estabelecidas nos Estados Unidos cresceram apenas 0,8% no último trimestre, o que foi o resultado mais fraco desde o início de 2025. As ações caíram 19% no ano. Julho e agosto registraram queda de vendas. E o Burger King, que durante anos foi tratado como concorrente irrelevante, está crescendo mais rápido graças a uma reformulação do Whopper e a reformas agressivas nas lojas. O McDonald’s, que por décadas liderou o fast-food com folga, enfrenta agora uma realidade que outras indústrias já conhecem: quando todo mundo oferece o mesmo produto pelo mesmo preço, o diferencial migra da transação para a experiência.
A Entrelinha mais interessante do memorando, porém, está no que o McDonald’s quer se tornar, mas não apenas no que está tentando consertar. A empresa anunciou um plano plurianual para se posicionar como um novo “destino gastronômico de referência”, com reformulações no cardápio (se exemplificou isso com a ideia de novos frangos empanados à mão), restaurantes mais arejados e uma experiência que vá além da refeição rápida e barata. É uma ambição que, há cinco anos, soaria absurda para uma rede que vendia Big Macs a US$ 3,99. Mas o McDonald’s observou o que aconteceu com marcas que se recusaram a evoluir e foi forçado a uma conclusão desconfortável: num mundo onde a Coca-Cola cria bebidas para serem fotografadas no Instagram, onde a Ambev lança cerveja com proteína e onde o iFood agora leva o cliente fisicamente ao restaurante, ficar parado é a decisão mais arriscada de todas.
Enfim, o McDonald’s, mais do que medo da concorrência, a rede de fast-food está com medo de ser o equivalente gastronômico do que a Nokia foi para os celulares, isto é, a marca que liderou o mercado até o momento em que o mercado decidiu que liderança exigia algo que ela não oferecia.
Um Robô a Cada Dez Minutos
Numa fábrica de 14 mil metros quadrados em Liuzhou, no sul da China, robôs constroem outros robôs. A cena parece ficção científica, mas é uma linha de produção funcional, onde andróides descarregam caixas de peças, empilham materiais, transportam componentes entre esteiras e, no final da linha, trabalham ao lado de operadores humanos para fechar a montagem. A UBTech, que inaugurou a instalação, afirma que ela é capaz de produzir 10 mil robôs humanoides por ano, o equivalente a um a cada dez minutos. É a primeira fábrica do mundo com essa capacidade, e o fato de que ela fica na China não deveria surpreender ninguém que tenha acompanhado o Entrelinhas.
Desde a edição de 1º de setembro, quando documentamos que mais de dois milhões de robôs já operam nas fábricas chinesas, passando pelo IPO da Unitree que obteve em sua estreia uma demanda oito mil vezes maior que a oferta, até a projeção da Huawei de 900 bilhões de agentes autônomos até 2035, o padrão é o mesmo: a China não debate se deve automatizar, ela automatiza, e depois lida com as consequências.
A UBTech, nesse contexto, não é a única. A Agibot já produz em massa seu robô A3 Ultra e o distribui em hotéis, supermercados, concessionárias e em inspeções de metrôs. E, a cadeia de suprimentos que torna essa velocidade possível, ou seja, engenheiros formados aos milhares, componentes entregues em horas, custos de produção incomparáveis, é o que torna a vantagem chinesa em robótica diferente de uma liderança de mercado convencional. Não é uma empresa que está à frente. É mais. É um ecossistema industrial inteiro.
A implicação para o restante do mundo é a que percorre estas páginas há meses sob diferentes ângulos: quando a China produz um robô humanoide a cada dez minutos enquanto os Estados Unidos banem a importação desses mesmos robôs por “razões de segurança nacional”, o resultado não é que a China para de fabricar. É que o mercado se bifurca, tendo um ecossistema chinês, massivo e barato, e um ecossistema ocidental, restrito e caro. E, enquanto o Ocidente debate se deveria desacelerar a IA e a robótica, a fábrica em Liuzhou não parou de funcionar nenhum minuto sequer. Os robôs que saem dela não têm opinião sobre regulação, não participam de audiências no Congresso e não leem ensaios de CEOs sobre desaceleração. Eles apenas saem da linha de montagem, um a cada dez minutos, prontos para trabalhar.
Metade do Brasil Tem Medo da IA (e o Medo Está Crescendo)
Em 2025, 32% dos brasileiros entre 18 e 34 anos diziam estar mais preocupados do que animados com a inteligência artificial. Em 2026, o número saltou para 44%, um aumento de doze pontos percentuais em um único ano. No total da população, 52% dos brasileiros declaram mais preocupação do que entusiasmo, um percentual significativamente acima da mediana global de 37% e acima até mesmo da mediana de países de renda alta, onde a exposição à tecnologia é maior e a preocupação, curiosamente, menor. Os dados são do Pew Research Center, que ouviu mais de 42 mil pessoas em 36 países. E, lidos nas Entrelinhas, dizem algo que nenhuma campanha de marketing de IA conseguiu mudar: o brasileiro médio olha para a inteligência artificial e sente mais ameaça do que oportunidade.
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O dado mais revelador da pesquisa, contudo, não é o medo em si, mas é a desinformação que o alimenta. Vinte e sete por cento dos brasileiros dizem nunca ter ouvido ou lido nada sobre inteligência artificial. Isso significa que num país onde mais de 215 milhões de mensagens são enviadas ao ChatGPT por dia (o terceiro maior mercado da OpenAI no mundo), quase um terço da população declara não saber o que é a tecnologia que já usa. A contradição sugere que muitos brasileiros interagem com IA sem saber que estão interagindo com IA, e que o medo que expressam na pesquisa não vem da experiência, mas da narrativa. Manchetes sobre robôs substituindo empregos, agentes escapando de sandboxes e modelos que aprendem a invadir computadores produzem uma percepção de ameaça que o uso cotidiano, de pedir ao ChatGPT para reescrever um e-mail, ao iFood para sugerir um restaurante, ao Nubank para categorizar uma despesa, raramente confirma.
A Entrelinha mais consequente da pesquisa é a que conecta o medo à ação, ou, mais precisamente, à falta dela. Se metade da população teme a IA e quase um terço não sabe o que ela é, o risco não é que as pessoas sejam substituídas pela tecnologia, mas é que sejam substituídas sem terem tido a chance de se preparar, porque ninguém as informou com clareza suficiente sobre o que está acontecendo. Como cobrimos na edição sobre o iFood, 85% dos usos de IA na empresa não geram impacto substancial, mas os 2% que geram mudam o ponteiro do negócio inteiro. A diferença entre os dois está no conhecimento de quem usa, não na ferramenta que é usada. Salem executou inocentes porque o medo substituiu o entendimento. O Brasil de 2026 não está executando ninguém, mas está deixando que o medo de algo que não compreende inteiramente defina sua relação com a força mais transformadora que a economia já produziu. E o custo de não entender, como Salem demonstrou há trezentos anos, quase sempre é maior do que o custo de aprender.






