Toda calmaria é o ensaio da próxima tempestade
Houve um tempo em que o Yahoo parecia invencível. Era a porta de entrada da internet para milhões de pessoas e chegou a valer mais do que Google, Amazon, Apple, Nvidia e Netflix juntas. Naquele momento, a sensação era de porto seguro. Liderança, relevância, dinheiro, atenção. Tudo parecia sob controle. O tipo de posição que cria a ilusão de que o jogo já foi vencido.
É aí que mora o perigo. Quando uma empresa confunde liderança com estabilidade, ela começa a trocar ambição por preservação. Passa a proteger o que funciona em vez de questionar o que está envelhecendo. O Yahoo não perdeu espaço porque o mercado acabou. Perdeu porque o mercado mudou mais rápido do que a sua capacidade de se reinventar. Enquanto buscava otimizar o portal, o mundo caminhava para busca, dados, plataformas e ecossistemas.
O problema da “zona de conforto” não é a zona em si. É o conforto. Ele anestesia a percepção de risco. O sucesso cria incentivos para não mexer no que dá resultado, mesmo quando os sinais de mudança já estão por toda parte. A empresa cresce, os números são bons, a marca é forte. Internamente, a urgência some. Externamente, a próxima onda já está se formando.
Calmaria nunca é um estado permanente. É um intervalo. Um momento em que o vento parece cessar antes de mudar de direção. Em mercados movidos por tecnologia, essa mudança é ainda mais brutal, porque novos modelos não chegam anunciando que vão substituir os antigos. Eles chegam pequenos, feios, imperfeitos, mas com uma lógica diferente. Quando ficam grandes o suficiente para incomodar, normalmente já é tarde para reagir com a velocidade necessária.
O maior risco estratégico não é errar tentando se mover. É acertar demais ficando parado. É ficar excelente em um jogo que está prestes a mudar de regra. Portos seguros não existem. O mar continua se movendo, quer você queira ou não. A calmaria só engana quem acredita que chegou ao destino.



