Admitir ignorância é o ato mais sofisticado de liderança hoje
Em Delfos, no templo dedicado a Apolo, estava inscrita a frase “conhece-te a ti mesmo”. Séculos depois, Sócrates transformaria essa máxima em algo profundamente desconfortável para qualquer época. E especialmente para a nossa. Para ele, o primeiro passo do conhecimento não era acumular respostas, mas reconhecer a própria ignorância. O famoso “nada sei” não é fraqueza intelectual. É método de aprendizagem.
No mundo atual dos negócios, fazemos exatamente o oposto. Executivos são pressionados a parecer certos o tempo todo, a sustentar narrativas de controle, previsibilidade e domínio do futuro. Mas vivemos um ambiente onde ciclos são curtos, tecnologias se reinventam em meses e modelos vencedores envelhecem rapidamente. A ilusão de certeza virou um risco estratégico.
Para Sócrates, conhecer a si mesmo era entender os próprios limites, questionar crenças e desconfiar das verdades prontas. Transferido para o contexto empresarial, isso significa reconhecer que planos longos demais quebram, que decisões precisam ser revistas e que opiniões fortes, pouco informadas, custam caro. O líder que acredita saber tudo fecha portas para o aprendizado. O que admite o “nada sei” mantém o sistema aberto.
Existe uma diferença sutil, mas decisiva, entre ignorância e consciência da ignorância. A primeira paralisa. A segunda liberta. Quando um gestor assume que não sabe, ele cria espaço para experimentar, testar, ouvir o time, usar dados, recorrer à inteligência artificial e aprender mais rápido que o mercado. O “nada sei” é o ponto zero da inovação.
Sócrates também defendia que uma vida não examinada não merece ser vivida. Nos negócios, uma estratégia não examinada não merece ser executada. Questionar métricas, modelos mentais, incentivos e decisões passadas não é sinal de insegurança, é sinal de maturidade. Empresas que não se questionam se repetem até ficarem irrelevantes.
No fim, o pensamento socrático nos leva a uma conclusão incômoda, mas muito atual: liderar não é ter respostas prontas, é sustentar boas perguntas. Em um mundo não linear, complexo e cada vez mais imprevisível, a maior virtude do líder moderno talvez seja justamente aquela que Sócrates já apontava há mais de dois mil anos: a coragem intelectual de dizer “eu não sei” e, a partir daí, aprender mais rápido do que os outros.



