A perda de 1 trilhão de dólares
Microsoft e Nvidia perderam, cada uma, mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado nos últimos seis meses. Isso não é uma correção trivial de mercado. É uma mudança de narrativa. Quando as duas empresas que melhor simbolizaram a “era da IA” passam por uma reprecificação dessa magnitude, fica claro que o mercado começou a questionar não a tecnologia em si, mas a capacidade de transformar liderança tecnológica em valor sustentado ao longo do tempo.
Na largada da corrida da inteligência artificial, a Microsoft fez a aposta certa, antes de quase todo mundo, ao se associar à OpenAI. Ganhou protagonismo, percepção de vanguarda e uma posição privilegiada na construção da camada de aplicação da IA. A Nvidia, por sua vez, virou o gargalo físico do novo mundo: sem seus chips, simplesmente não existe IA em escala. Esse combo criou uma narrativa poderosa: quem estava na frente na infraestrutura e na plataforma iria capturar a maior parte do valor do novo ciclo tecnológico. O mercado comprou essa história com apetite quase ilimitado.
O que começa a mudar agora é a percepção de captura de valor. No caso da Nvidia, a dúvida não é se seus chips são fundamentais hoje. Eles são. A dúvida é até quando essa posição se sustenta com margens extraordinárias num setor que historicamente transforma vantagens tecnológicas em commodities em ciclos cada vez mais curtos. Concorrentes correm, arquiteturas mudam e os grandes clientes viram concorrentes quando passam a desenhar seus próprios chips. O prêmio de escassez que inflou o valuation não é eterno.
Já no caso da Microsoft, o problema não é estar “na estrutura certa”. É um problema muito mais incômodo: uso. A empresa saiu na frente ao apostar na OpenAI, lançou o Copilot em praticamente toda a sua suíte de produtos e criou a sensação de que a IA estaria no centro da experiência de trabalho do mundo corporativo. Mas, na prática, o usuário médio ainda não incorporou o Copilot como algo essencial no dia a dia. Existe curiosidade, testes pontuais, experimentação. E sem uso recorrente e profundo, não existe monetização consistente, por melhor que seja a tecnologia por trás.
Isso não invalida a tese da IA, nem rebaixa Microsoft e Nvidia ao papel de coadjuvantes. O que está sendo corrigido é o descompasso entre a velocidade da narrativa e o ritmo real de adoção e captura de valor. O mercado precificou um futuro em que a liderança tecnológica se converteria rapidamente em dependência dos usuários e em margens duráveis. A realidade está mostrando que essa conversão é mais lenta, mais disputada e mais incerta do que parecia. O futuro continua ali. Só não é tão imediato quanto o preço das ações sugeria.



