Bom dia! Hoje é 8 de setembro. Neste mesmo dia, em 1966, a NBC estreava Star Trek, a série que imaginava um futuro em que a humanidade teria superado a escassez, abolido as fronteiras nacionais e unificado o planeta sob uma federação que usava a tecnologia como instrumento de cooperação, não de dominação. Gene Roddenberry criou um universo onde o replicador eliminava a fome, o teletransporte eliminava a distância e a moeda não existia porque ninguém precisava competir por recursos. Era a utopia tecnológica na sua expressão mais pura, e, durante sessenta anos, funcionou como a referência cultural de como o futuro deveria ser.
Sessenta anos depois, o futuro que de fato chegou não se parece em nada com o que Roddenberry imaginou. A tecnologia avançou além do que a ficção previa, mas em vez de unificar, dividiu. Em vez de eliminar a escassez, criou novas formas de disputá-la. E em vez de tornar as fronteiras irrelevantes, transformou-as no campo de batalha mais consequente da economia global. As notícias de hoje são o retrato mais nítido dessa inversão. A ByteDance desenvolve inteligência artificial para mundos virtuais porque o Ocidente pode, a qualquer momento, bloquear seu acesso à próxima plataforma de computação. A Coreia do Sul anuncia um plano industrial para garantir que a China permaneça em segundo lugar na fabricação de chips de memória. Tim Cook deixa o cargo de CEO da Apple, mas permanece como embaixador pessoal da empresa junto a Trump e Xi Jinping, porque a geopolítica se tornou tão importante quanto o produto. E bancos centrais do mundo inteiro retiram seu ouro dos Estados Unidos, porque a confiança de que Washington é um guardião neutro de riqueza alheia já não é mais o consenso que era. Em todos os casos, a tecnologia é a protagonista. Mas o enredo não é de cooperação: é de soberania.
A ByteDance Quer Construir os Mundos Virtuais do Futuro
Zhang Yiming, fundador da ByteDance (a dona do TikTok), está supervisionando pessoalmente o desenvolvimento de um modelo de inteligência artificial voltado à geração de vídeo espacial em tempo real, o que, em outros palavras, significa um modelo de IA que gera mundos virtuais interativos e tridimensionais que respondem à voz e aos movimentos do usuário. O modelo, previsto para lançamento no próximo mês, será uma evolução do Seedance, a plataforma de geração de vídeo cinematográfico que a ByteDance já opera, e se conectará ao Pico, a divisão de realidade estendida da empresa, cujos headsets (os óculos de realidade virtual) competem com o Vision Pro da Apple e o Quest da Meta. A ideia é que o conteúdo espacial seja gerado na nuvem e transmitido ao dispositivo, reduzindo drasticamente a exigência de processamento no headset e, por consequência, o custo do hardware. Nesse caso, se funcionar, a ByteDance transferirá a competição em realidade virtual da especificação do aparelho para a qualidade do modelo de IA que alimenta a experiência, um terreno onde a empresa acredita ter vantagem.
A ambição vai além do entretenimento. Modelos que simulam ambientes físicos tridimensionais são considerados cruciais para o avanço da robótica, dos veículos autônomos e dos jogos, exatamente as áreas em que o Google trabalha com o Genie e a Meta investe bilhões. Estes modelos que simulam ambientes físicos tridimensionais são considerados cruciais para o avanço da robótica e dos veículos autônomos, pois permitem que as máquinas compreendam o espaço ao seu redor, antecipem como ele pode mudar e decidam como agir com segurança dentro dele.
Zhang, sob essa ótica, vê o modelo espacial como o motor que conecta as diferentes divisões da ByteDance (conteúdo, nuvem, hardware e IA) numa plataforma integrada capaz de competir, frente a frente, com os ecossistemas que Apple e Meta constroem há anos. É a mesma lógica de super ecossistema que já vemos no delivery, nas fintechs e no comércio: quem controla a plataforma onde o conteúdo é criado, distribuído e consumido captura o valor em todas as camadas.
A Entrelinha geopolítica, contudo, é inseparável da estratégia comercial. A ByteDance foi forçada a desmembrar o TikTok americano em janeiro para evitar o banimento nos Estados Unidos. A Bilibili, como cobrimos há semanas, está contratando no Brasil e recruta criadores americanos enquanto expande sua presença global. E agora Zhang coloca sua empresa na corrida pela computação espacial, um mercado que Apple e Meta consideram central para a próxima década. Cada um desses movimentos é, na superfície, uma decisão de produto. Lidos em conjunto, desenham uma estratégia de soberania tecnológica chinesa que se estende do conteúdo à nuvem, do hardware ao modelo de IA, e que não precisa da permissão de Washington para existir. A ByteDance não está entrando na realidade virtual porque quer competir com a Meta. Está entrando porque não pode se dar ao luxo de depender dela.
A Coreia do Sul Traça um Plano para Manter a China Atrás
A próxima batalha tecnológica entre China e Coreia do Sul será travada dentro das fábricas de chips. Em disputa está o mercado de memórias, componentes essenciais para armazenar e transportar os dados processados por celulares, computadores e sistemas de inteligência artificial. A Coreia do Sul ainda lidera esse setor graças à Samsung e à SK Hynix, mas começa a se preparar para um avanço acelerado da indústria chinesa.
É nesse contexto que deve ser lido o novo relatório do Banco da Coreia. O documento funciona menos como uma análise econômica do que como a formulação de uma nova política industrial: até 2028, o país pretende ampliar em cerca de 600 mil unidades mensais sua capacidade de produção de wafers – que são as finas lâminas de silício sobre as quais os chips de memórias são fabricados –, com novas fábricas da Samsung e da SK Hynix. O objetivo não é apenas preservar a vantagem sobre a China, mas ampliá-la antes que sua principal concorrente consiga reduzir a distância.
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No mesmo período, a chinesa CXMT – cuja estreia na bolsa, com alta de 466%, cobrimos em julho – pretende dobrar sua capacidade, também para 600 mil wafers mensais. A equivalência, porém, existe apenas no tamanho das fábricas. Na produção de semicondutores, tão importante quanto processar um grande número de wafers é conseguir extrair de cada lâmina uma quantidade elevada de chips que funcionem e atendam aos padrões exigidos pelo mercado. Como a tecnologia e o processo produtivo da CXMT ainda geram proporcionalmente mais unidades defeituosas ou inadequadas, parte relevante de sua capacidade nominal não se transforma em produto vendável.
Por isso, embora reúna cerca de 15% da capacidade mundial, a empresa responde por apenas 8% dos embarques. Samsung e SK Hynix, por sua vez, aproveitam melhor cada wafer processado e conseguem fabricar mais chips comercializáveis com uma capacidade semelhante. É nessa diferença de eficiência (e não apenas o número de fábricas) que se sustenta a vantagem sul-coreana.
O Encantador de Trump
Tim Cook deixou o cargo de CEO da Apple na semana passada, mas a razão pela qual a empresa o mantém como presidente executivo com participação ativa em decisões estratégicas é menos sobre governança corporativa e mais sobre diplomacia pessoal. Cook se tornou, ao longo de quinze anos, o executivo de tecnologia mais hábil na arte de navegar entre Washington e Pequim, algo que, para uma empresa cuja cadeia de suprimentos depende da Ásia e cujo maior mercado regulatório é os Estados Unidos, é menos competência acessória e mais condição de sobrevivência. O apelido que circula entre executivos e jornalistas americanos resume: Cook é “o encantador de Trump”.
Quando Trump, em seu primeiro mandato, ameaçou impor tarifas sobre produtos Apple fabricados na China, Cook o convenceu de que as sobretaxas colocariam a empresa em desvantagem frente à Samsung, que fabrica na Coreia do Sul. A Apple foi isentada. Quando Trump voltou à Casa Branca em 2025, Cook anunciou, em menos de um mês, um plano de US$ 500 bilhões em investimentos nos Estados Unidos ao longo de quatro anos, incluindo a contratação de 20 mil trabalhadores e o acordo com a Broadcom para chips fabricados em solo americano. Cada um desses movimentos foi, simultaneamente, uma decisão de negócio e uma gesto diplomático, sendo que a fronteira entre os dois, na Apple de Cook, nunca foi clara. O que se perde ao aposentar um CEO que negociou pessoalmente com dois presidentes americanos e com o presidente chinês não é só um executivo, mas um tipo um canal.
Para Ternus, que assumiu uma empresa de US$ 5 trilhões com a responsabilidade de criar o que Cook não criou (uma nova categoria de produto transformadora) e manter o que Cook manteve (o equilíbrio geopolítico mais delicado do setor), a permanência de Cook como presidente executivo é tanto um alívio quanto uma advertência. Alívio porque as relações com Trump e Xi não precisam ser reconstruídas do zero. Advertência porque a necessidade de manter um “encantador de Trump” na folha de pagamento diz algo profundo sobre o estado do capitalismo tecnológico em 2026: as empresas mais valiosas do mundo não competem apenas por clientes, por engenheiros e por chips… competem pelo favor de governos que podem, com um decreto, alterar a viabilidade de cadeias de suprimentos inteiras. Cook entendeu isso antes de qualquer outro CEO do setor. E a Apple, ao mantê-lo, está admitindo que a habilidade mais valiosa que ele possui não é operacional. É relacional.
Os Bancos Centrais Estão Trazendo o Ouro para Casa
O banco central da Holanda confirmou nesta semana que transferiu 86 toneladas de ouro dos Estados Unidos e do Canadá para Londres, citando “aumento da instabilidade geopolítica” e a necessidade de que o metal estivesse “prontamente disponível em uma situação de crise”. A Holanda se junta à França, que no início do ano retirou suas reservas dos Estados Unidos, numa movimentação que, isoladamente, parece uma mera gestão prudente de ativos. Obviamente não é. Lida no contexto dos últimos anos, estes movimentos são a expressão mais concreta de algo que economistas discutem em tom cada vez menos teórico: a erosão da confiança no dólar como ativo neutro e no território americano como cofre seguro do mundo.
Os números sustentam a tendência com uma clareza que dispensa interpretação. Nos últimos quatro anos, bancos centrais compraram, em média, mil toneladas de ouro por ano, o dobro da média da década anterior. O preço do metal ultrapassou US$ 5 mil a onça em janeiro, renovando recordes históricos. E a China, que já figurava como a maior compradora entre bancos centrais, acrescentou 20 toneladas às suas reservas apenas em agosto deste ano, o maior aumento mensal em quase três anos. A corrida não é motivada por uma crise específica, mas pelo acúmulo de episódios que, juntos, redefiniram o que significa “seguro” no sistema financeiro internacional: o congelamento de centenas de bilhões em reservas russas por Washington, as guerras tarifárias de Trump e a militarização do sistema financeiro como instrumento de pressão geopolítica.
A Entrelinha que conecta o ouro às demais notícias desta edição – e a tudo que o Entrelinhas vem documentando sobre a reconfiguração de alianças globais – é que a repatriação de reservas é o equivalente monetário do que a ByteDance faz na tecnologia, do que a Coreia do Sul faz nos semicondutores e do que a China faz em robótica, baterias e modelos de IA: trazer para dentro do próprio território o controle de algo que, até pouco tempo, se confiava a terceiros. Quando um país retira ouro dos Estados Unidos, ele está dizendo, da forma mais concreta que um banco central pode dizer, que não confia plenamente em manter seus ativos sob jurisdição americana. Quando diversos países fazem o mesmo, ao mesmo tempo, o que se observa não é um ajuste técnico de carteira, mas é o início de uma reorganização monetária que espelha, no sistema financeiro, a mesma bifurcação que já vemos na tecnologia, nos semicondutores e no comércio.
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O ouro não precisa de internet, de servidor, de nuvem nem de permissão de nenhum governo para valer o que vale. E é exatamente por isso que, num mundo onde todas essas coisas podem ser controladas, congeladas ou revogadas por decreto, os bancos centrais querem mais dele, e mais perto de casa.







