Spotify Invade os Shows, Nestlé Encolhe, O Mundo Foge dos EUA e a IA que Fala com Todos
Bom dia! Hoje é 20 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1962, John Glenn se tornava o primeiro americano a orbitar a Terra a bordo da cápsula Friendship 7, completando três voltas ao redor do planeta em menos de cinco horas. O feito foi transmitido ao vivo para milhões de pessoas, numa demonstração de que tecnologia e distribuição de conteúdo em larga escala sempre caminharam juntas.
Sessenta e quatro anos depois, o que mudou não foi a ambição humana por alcance, mas a velocidade com que plataformas digitais transformam audiência em transação, e transações em poder econômico.
O Spotify Quer Sua Atenção Dentro e Fora da Tela
A parceria entre Spotify e SeatGeek para venda de ingressos diretamente no aplicativo é, à primeira vista, uma funcionalidade conveniente. Mas olhada com mais atenção, ela revela uma mudança de filosofia empresarial que vai muito além de um botão de compra. O Spotify, que durante anos operou como distribuidor de atenção musical, conectando artistas a ouvintes via streaming, agora anuncia sua intenção de se tornar o ponto de partida de toda a jornada de consumo do fã: da descoberta da música ao show presencial, passando pela compra do ingresso sem sair do aplicativo.
A integração começa com os 15 principais parceiros da SeatGeek nos Estados Unidos, mas a direção está posta.
O contexto financeiro reforça a lógica dessa parceria. Com 750 milhões de usuários ativos mensais e 290 milhões de assinantes pagos, o Spotify já possui uma das maiores bases de audiência qualificada do entretenimento global. E, como a própria empresa revelou recentemente, seus parceiros de venda de ingressos já geraram mais de US$ 1 bilhão em receita conectando fãs a eventos ao vivo.
A questão que se coloca agora não é se o Spotify pode monetizar esse fluxo com mais eficiência, mas sim o quanto dessa cadeia de valor ele pretende internalizar. Uma plataforma que começa vendendo ingresso pode, amanhã, oferecer pré-venda exclusiva para assinantes premium, pacotes com merchandise ou até transmissões ao vivo do mesmo show para quem não pôde comparecer.
Portanto, para a indústria do entretenimento ao vivo, o sinal é claro e um pouco incômodo. A Ticketmaster e seus concorrentes diretos convivem há décadas com o poder de distribuição que detinham sobre o acesso a eventos. E a SeatGeek, ao se integrar ao Spotify, escolhe o caminho da distribuição via plataformas de descoberta musical, onde o usuário já está engajado emocionalmente, em vez de disputar tráfego próprio.
É uma aposta inteligente: o ingresso mais fácil de vender é aquele oferecido no exato momento em que o ouvinte está obcecado por uma música nova. A economia da atenção, mais uma vez, encontra um atalho para a economia real.
A Nestlé Está Encolhendo, e Isso Diz Muito Sobre o Que Comemos
A decisão da Nestlé de vender sua divisão de sorvetes, integrar nutrição e ciências da saúde em uma única unidade e desinvestir de águas e bebidas premium até 2027 não é o movimento de uma empresa em colapso. É, ao contrário, o diagnóstico de uma empresa que leu o mercado e concluiu que o portfólio que a tornou grande por décadas já não sustenta o crescimento que Wall Street exige.
O problema não é operacional, mas é a mudança no consumo de seus clientes. Atualmente, o consumidor ocidental está, de forma acelerada, deixando de comprar o que a Nestlé vende melhor.
A ascensão dos medicamentos inibidores de apetite, como o Ozempic e seus derivados, combinada com a consolidação de uma cultura fitness entre as classes médias urbanas, está mudando o carrinho de supermercado das pessoas comuns. Categorias que foram o coração da Nestlé por mais de um século, como sorvetes, chocolates e bebidas açucaradas, agora, perdem espaço para proteínas, produtos funcionais e alimentos com menor densidade calórica.
Quando se adiciona a isso um recall global de fórmulas infantis no início de 2026 e uma desaceleração orgânica de crescimento, a reestruturação deixa de ser uma escolha estratégica e passa a ser uma necessidade de sobrevivência corporativa.
O que a Nestlé está fazendo, em essência, é direcionar sua aposta no futuro alimentar: se mantendo no café, afinal, este é um ativo já consolidado pela empresa e (muito) resiliente a volatidade de preços, com altas margens de lucro; e, focando agora na consolidação de seus produtos relacionados à cuidados com animais de estimação (um dos setores de maior crescimento no consumo doméstico global), nutrição especializada e alimentos funcionais. Afinal, estas são categorias que respondem ao novo contrato que o consumidor faz com o que ingere - menos prazer imediato, mais propósito de longo prazo.
Por fim, para investidores e analistas do varejo, o movimento é um sinal de alerta sobre o impacto sistêmico das mudanças comportamentais na indústria alimentar. Empresas que não souberem reposicionar seus portfólios antes que a demanda migre completamente verão seus múltiplos de avaliação encolherem junto com as fatias de mercado.
O Mundo Está Saindo da Órbita dos EUA
Talvez a transformação geopolítica mais silenciosa em curso hoje não esteja nos discursos de Trump nem nas manchetes sobre tarifas, mas nos dados de fluxo comercial que a Organização Mundial do Comércio vem registrando discretamente.
A participação dos Estados Unidos no comércio global de mercadorias caiu ao nível mais baixo desde 2014. A China, alvo número um do protecionismo americano, não apenas sobreviveu ao choque tarifário, mas o contornou. Quando Trump disparou sua primeira salva em 2018, os EUA absorviam 19% das exportações chinesas. No final de 2025, essa fatia já havia caído para 11%. O superávit comercial chinês, contudo, continuou crescendo, porque Pequim simplesmente redirecionou seu fluxo para o Sudeste Asiático, a África, a Europa e a América Latina.
O que os economistas chamam de “a grande realocação” é, na prática, a reconfiguração das redes de interdependência que sustentaram a globalização liderada pelos Estados Unidos nas últimas três décadas.
A materialidade disso pode ser observada em países como o Brasil, Chile, Argentina e Peru, que registraram exportações recordes, não para Washington, mas para Pequim e para um conjunto crescente de parceiros do Sul Global. A União Europeia, por sua vez, também assinou acordos de livre comércio com o Mercosul e a Índia no espaço de 12 meses. Isso demonstra que o mundo pós tarifaço não parou de comercializar; ele simplesmente começou a comercializar sem os EUA no centro da equação.
A pergunta que permanece em aberto é a mais importante de todas: as tarifas de Trump vão, no longo prazo, produzir a reindustrialização prometida, ainda que a um custo considerável no curto prazo, ou vão simplesmente acelerar a marginalização americana no comércio global?
A resposta provavelmente é: depende de quão longe os EUA conseguem avançar na construção de capacidade produtiva doméstica antes que os parceiros comerciais encontrem alternativas permanentes. O que já é claro é que a janela para esse reposicionamento se fecha à medida que as cadeias de suprimento se reestruturam em torno de novos polos. Desglobalização não é um destino, mas um processo, e seus vencedores serão aqueles que souberem construir dependências novas antes que as antigas se dissolvam completamente.
A IA agora Fala com Todo Mundo
Para entendermos o que a Cohere acaba de lançar, vale um passo atrás. Modelos de inteligência artificial como o ChatGPT, o Gemini ou o próprio Claude são, em essência, sistemas treinados com volumes gigantescos de texto para aprender padrões de linguagem, e, a partir disso, responder perguntas, redigir documentos, traduzir conteúdos, resumir informações e executar tarefas que antes exigiam horas de trabalho humano.
O problema é que esses modelos foram, em sua maioria, treinados predominantemente em inglês e em outros poucos idiomas dominantes. Para quem fala hindi, suaíle, tagalog ou Bengali, o acesso a essas ferramentas ainda é limitado, impreciso ou simplesmente inexistente.
É exatamente essa lacuna que a Cohere mira com o lançamento da família Tiny Aya: modelos de linguagem com suporte direto a tradução de mais de 70 idiomas, compactos o suficiente para rodar diretamente em smartphones, sem necessariamente depender de conexão com a internet ou de servidores em nuvem. A diferença prática é enorme. Hoje, usar o ChatGPT ou o Gemini exige que cada mensagem digitada pelo usuário viaje até um data center nos Estados Unidos, seja processada por supercomputadores e retorne como resposta. Isso exige internet estável, tem custo de infraestrutura e cria dependência de plataformas centralizadas.
Um modelo que roda localmente no dispositivo elimina todas essas camadas - e, com elas, boa parte das barreiras de acesso.
O impacto potencial é estrutural, pois países linguisticamente diversos como a Índia (com mais de 20 línguas oficiais e centenas de dialetos regionais) representam mercados onde a barreira do idioma é profunda - e atrapalha economia. Aplicações de saúde, educação, serviços financeiros e atendimento governamental que dependem de comunicação precisa em língua local podem ser completamente revolucionadas com modelos que rodam offline, no aparelho que o usuário já possui. O mesmo vale para regiões da África subsaariana, do Sudeste Asiático e da América Latina, onde a internet de alta velocidade ainda é um privilégio de minoria.
Em um mundo onde os grandes modelos de linguagem ainda falam, predominantemente, inglês, a pluralidade linguística da IA deixa de ser uma questão de inclusão e passa a ser uma janela competitiva concreta para quem chegar primeiro.



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