A Difícil Arte de Não Fazer Nada
Em tempos de histeria tecnológica, fazer nada virou quase um ato de rebeldia. Enquanto o Vale do Silício entra numa corrida armamentista de US$ 100 bilhões em chips, data centers e energia para treinar modelos cada vez maiores, a Apple escolheu o caminho mais contraintuitivo possível: não correr. Não lançou LLM “de fronteira”. Não saiu comprando laboratórios de IA. Não fez manifesto sobre AGI. Em vez disso, escreveu um cheque de cerca de US$ 1 bilhão por ano para licenciar tecnologia do Google e seguiu focada no que ela realmente controla: dispositivos, sistema operacional e ciclo de atualização.
A imagem é simbólica. Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta acelerando capex como se estivessem perfurando petróleo em mar aberto. A Apple, quase estável, como quem olha a tempestade e decide não zarpar com todo mundo ao mesmo tempo. É aqui que entra a provocação que gosto de fazer: talvez o fosso nunca tenha sido o modelo. Talvez sempre tenha sido o ecossistema. Enquanto os “desbravadores” queimam caixa para disputar liderança em benchmarks, a Apple se posiciona para vender o “posto de gasolina” onde a IA vai rodar: 2 bilhões de dispositivos ativos e um ecossistema de altíssimo engajamento e retenção.
Há algo de profundamente desconfortável em não fazer nada quando todo mundo grita “agora ou nunca”. A Rainha Elizabeth II dizia que “não fazer nada é uma das coisas mais difíceis do mundo”, especialmente sob pressão e incerteza. A tentação é agir para parecer relevante, mesmo que a ação seja a errada. A Apple parece ter escolhido o silêncio estratégico. Em outubro de 2025, ela lançou o chip M5 otimizado para rodar IA no dispositivo. Modelos grandes rodando localmente. O jogo dela Apple não é sobre ganhar a corrida do modelo mais poderoso do planeta. É sobre capturar o valor quando a IA vira função cotidiana do hardware que você já vende.
O contraste é brutal. OpenAI projetando prejuízos bilionários. Anthropic com receitas crescentes, mas custos ainda mais agressivos. Taxas de escala comprometendo centenas de bilhões em infraestrutura para sustentar a nova camada computacional do mundo. A Apple não quer ser a refinaria. Quer ser a marca do carro que todo mundo dirige, com o motor que roda a IA “boa o suficiente” no bolso do usuário. Se a IA puxar um ciclo de upgrade de 10% a 15%, estamos falando de dezenas de bilhões em receita de alta margem, sem risco de modelo e sem a conta de luz de um data center do tamanho de uma cidade.
A arte de não fazer nada não é inércia. É escolha. É entender onde você realmente cria valor e onde está só sendo arrastado pela narrativa do momento. Em um mercado obcecado por protagonismo técnico, a Apple escolheu o protagonismo do canal. Os laboratórios estão cavando poços cada vez mais fundos. A Apple está vendendo o iPhone que roda em cima do petróleo.
Talvez a decisão mais difícil hoje não seja investir mais, anunciar mais, prometer mais. Talvez seja aguentar a pressão, ficar quieto e construir a vantagem onde ninguém está olhando. Em ciclos de ruptura, fazer nada pode ser o movimento mais ativo de todos.




