A mudança de eixo de Warren Buffett
Os movimentos do Buffett não são sobre empresas isoladas. São sobre onde está o valor real num mundo que mudou de eixo. Cada vez que o mega investidor move o pêndulo, o mercado inteiro para para observar. Afinal de contas, ele pode estar enxergando o que poucos conseguem ver.
Por exemplo: ele cortou 75% da sua posição na Amazon e quase zerou Apple. Isso não é uma rejeição à tecnologia. É leitura correta do ciclo. As big techs viraram consenso de portfólio. Todo mundo já está comprado na mesma tese: IA, nuvem, plataformas, ecossistemas. Quando todo mundo acredita na mesma história, o retorno marginal fica menor e o risco relativo sobe. O futuro bom dessas empresas já está embutido no preço. O ganho adicional fica mais apertado do que parece.
Ao mesmo tempo, ele entrou pesado no New York Times. E isso não é nostalgia por mídia tradicional. É aposta em dois ativos que ficaram escassos ao mesmo tempo: credibilidade e dados. Num mundo dominado por IA generativa, o conteúdo confiável vira matéria-prima de muito valor. As grandes plataformas de IA precisam de dados de alta qualidade para treinar, ajustar e validar seus modelos. E isso não é infinito, nem gratuito. O NYT não é só uma marca de informação. É um repositório valioso de conteúdo, contexto, histórico e linguagem de alta qualidade. Isso vira ativo estratégico num mundo em que IA depende de dados para continuar evoluindo. E cada vez mais esses dados terão dono, preço e contrato.
Ou seja: o NYT deixa de ser “só mídia” e passa a ser parte da infraestrutura da economia da IA. Ela é, ao mesmo tempo, credibilidade para humanos e dados para máquinas. Receita recorrente de assinantes de um lado. Potencial de licenciamento e negociação com plataformas de IA do outro. É um ativo que conversa com o futuro da tecnologia sem precisar ser uma big tech.
Buffett também aumento seus investimentos em petróleo e seguros. Isso completa o desenho. Energia é o mundo físico lembrando que nem tudo virou digital. A economia da IA consome energia brutalmente. Data centers, chips, processamento. Tudo isso roda em eletricidade e cadeias produtivas que ainda dependem de petróleo e gás. Já Seguros são o outro lado do mesmo fenômeno: quanto mais tecnologia, mais complexidade sistêmica. Quanto mais o mundo depende de sistemas interconectados, mais caro fica o risco quando algo falha. Clima extremo, ciberataques, interrupções logísticas, falhas de infraestrutura. Alguém sempre ganha dinheiro precificando essa incerteza.
O fio que amarra tudo é simples: menos aposta no “front-end” glamouroso da tecnologia e mais exposição à infraestrutura que sustenta o sistema. Dados, energia, risco e credibilidade.
Buffett não está apostando contra a IA. Ele está se posicionando em quem fornece os insumos invisíveis para que a IA, a economia digital e o mundo real continuem funcionando. É uma rotação silenciosa do palco para os bastidores.



