Spotify em Alavancagem, Nova Concorrente nos Autônomos, Infância Regulada e as Terras Raras Brasileiras
Bom dia! Hoje é 25 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1837, Thomas Davenport recebia a primeira patente americana para um motor elétrico, uma invenção que, à época, parecia curiosidade de laboratório.
Menos de dois séculos depois, o motor elétrico é o coração de toda a cadeia de mobilidade que está redesenhando a geopolítica industrial do planeta, e, ironicamente, depende de minerais cujas maiores reservas dormem, inexploradas, no subsolo brasileiro.
O que parece distante no tempo frequentemente se revela urgente no presente. Essa tensão entre potencial adormecido e execução tardia atravessa, de diferentes formas, todas as histórias de hoje.
O Spotify Aprende que Música é Só o Começo
A parceria entre Spotify e Liquid Death para lançar a Eternal Playlist Urn, uma urna funerária com caixa de som Bluetooth embutida, exclusiva e limitada à 150 unidades, pode parecer, à primeira vista, uma piada de mau gosto. E, de certa forma, é. Mas reduzir o movimento a uma excentricidade de marketing seria um erro analítico significativo.
O que o Spotify está fazendo, ao unir seu nome a uma marca como a Liquid Death famosa por transformar água engarrafada em símbolo de identidade subcultural, é uma declaração estratégica sobre onde a empresa acredita que o valor de uma plataforma de streaming se encontra no longo prazo: não no áudio em si, mas na construção de uma identidade cultural capaz de gerar pertencimento.
Essa mesma lógica se manifesta com muito mais escala e impacto em outros movimentos paralelos da plataforma. A expansão das Playlists Sugeridas por IA para novos mercados, onde o usuário descreve em linguagem natural o que quer ouvir e a IA cria uma playlist personalizada com base em seu histórico e nas tendências culturais do momento, representa a transição definitiva do Spotify de um repositório de músicas para um motor de curadoria comportamental. Afinal, quando a plataforma passa a interpretar intenções difusas (”algo para uma tarde chuvosa em que me sinto nostálgico”) e traduzi-las em experiências sonoras, ela começa a capturar uma camada de dados emocionais e contextuais que nenhum concorrente consegue replicar facilmente.
Combinado à integração com a SeatGeek (a qual já cobrimos) para venda de ingressos diretamente pelo app, o Spotify vai desenhando silenciosamente um ecossistema em que o áudio é o ponto de entrada, mas o território disputado é a experiência completa do fã: da descoberta ao show ao vivo.
O movimento mais amplo aqui é a compreensão de que, em um mercado onde conteúdo se comoditiza rapidamente, a diferenciação migra para a relação. Portanto, plataformas que souberem construir identidades culturais ao redor de seus produtos, seja por uma urna inusitada, seja por uma IA que “entende” o seu humor, estarão disputando algo muito mais valioso que minutos de escuta. Estarão disputando o lugar que antes era ocupado pelas rádios e, antes delas, pelas discotecas: o de mediador cultural da vida cotidiana.
Wayve e o Mercado que Ainda Não Decidiu Quem Vai Ganhar
A rodada de US$ 1,2 bilhão captada pela startup britânica Wayve, com participação de Nvidia, Uber, Microsoft e três montadoras ainda não identificadas, chega em um momento em que o mercado de direção autônoma começa a se consolidar em torno de poucos modelos de negócio distintos. E a proposta da Wayve é deliberadamente dissidente: em vez de operar sua própria frota de robotáxis, como faz a Waymo, ou integrar verticalmente hardware e software como a Tesla, a empresa vende sua inteligência como “camada agnóstica”, ou seja, ela vende um software que aprende a dirigir sem depender de mapas de alta definição como data base, sensores específicos ou chips proprietários. Desse modo, a empresa posiciona seu produto como uma “IA incorporada” que pode ser instalada sobre qualquer arquitetura de veículo já existente.
Com esta estratégia, a Wayve reduz drasticamente a barreira de adoção de suas soluções para montadoras que não querem (ou não podem) reconstruir toda a sua cadeia produtiva. É a lógica da plataforma aplicada à mobilidade: assim como o Android permitiu que fabricantes de hardware diversos se beneficiassem de um ecossistema de software único, a Wayve aposta que há espaço para um sistema operacional de direção autônoma que não pertença nem às montadoras nem às big techs, mas às duas ao mesmo tempo.
Ao fim, o aporte adicional de até US$ 300 milhões da Uber, condicionado ao desempenho em implantações reais de robotáxis em Londres, sinaliza que a parceria não é apenas financeira, mas é um teste de validade do modelo. Para a Uber, que já tem acordos com Waymo nos EUA e investiu na Lucid para sua frota autônoma, a Wayve representa uma aposta diversificada numa indústria onde ainda não há um vencedor claro. Para investidores e reguladores, o dado mais relevante é que o capital continua fluindo para múltiplos modelos competidores simultaneamente, o que indica que o mercado ainda está genuinamente aberto, e que a consolidação, quando vier, pode ser mais abrupta do que gradual.
A Regulação Crescerá tão Rápido quanto a Tecnologia?
O lançamento global das ferramentas de verificação de idade da Apple, incluindo bloqueios de apps classificados para maiores de 18 anos no Brasil, Austrália e Singapura, representa um ponto de virada silencioso, mas estruturalmente significativo, na relação entre Big Tech e regulação estatal. Pela primeira vez, a empresa de Cupertino não está apenas respondendo a uma legislação isolada, mas construindo uma infraestrutura técnica capaz de se adaptar a um mosaico crescente e descentralizado de leis de proteção à infância digital ao redor do mundo.
O mecanismo escolhido para o implemento destas novas barreiras diz muito de como serão as implementações futuras do restante do mercado (e de como a Apple já se posiciona à frente de muitos): uma API que fornece a faixa etária do usuário sem expor dados pessoais como a data de nascimento. Isso é, tecnicamente, elegante e, estrategicamente, inteligente. Assim, ao criar uma camada de intermediação entre o dado bruto e o desenvolvedor, a Apple preserva sua posição como guardiã da privacidade (um símbolo da marca) enquanto entrega conformidade regulatória.
É a mesma lógica que fundamentou o ATT (App Tracking Transparency, um recurso de privacidade da Apple que obriga os aplicativos a solicitarem permissão do usuário antes de rastreá-los em outros sites e aplicativos): transformar uma exigência regulatória em vantagem competitiva, reforçando o argumento de que o ecossistema fechado da Apple é sinônimo de proteção ao usuário.
Contudo, as implicações acopladas a esta mudança, para o mercado de aplicativos são consideráveis. Desenvolvedores de jogos com loot boxes, mecanismos que os legisladores corretamente associam à mecânica do jogo de azar, já estão sendo reclassificados automaticamente como apps adultos no Brasil. Isso afeta diretamente a monetização de uma parcela relevante do mercado mobile, que historicamente dependeu da ambiguidade regulatória para manter acesso irrestrito a públicos jovens.
À medida que mais países adotam legislações similares, a capacidade técnica de cumpri-las em escala deixa de ser diferencial e passa a ser requisito de sobrevivência. Quem não construir essa infraestrutura agora estará, em breve, fora do mercado.
O Brasil e as Terras Raras
O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras, sendo a segunda maior concentração do planeta, e é responsável por menos de 1% da produção global. Esse número, isolado, já seria desconcertante. Contextualizado no momento geopolítico atual, em que EUA e União Europeia correm para reduzir sua dependência da China nos minerais críticos que alimentam toda a cadeia de transição energética e digital, ele se torna simplesmente indefensável como política de Estado.
A contradição é estrutural e tem causas identificáveis, afinal, em nosso país, empresas não podem usar direitos minerários como garantia para captação de crédito, o que encarece o financiamento de projetos; falta uma estratégia nacional que conecte as etapas de mineração, separação e manufatura numa cadeia integrada; e, ao fim, o país não possui capacidade industrial para separar ou refinar os materiais extraídos em escala relevante.
O resultado prático disso tudo é que o Brasil exporta matéria-prima bruta e, em muitos casos, reimporta compostos refinados - frequentemente da China - para abastecer sua própria indústria. É a síndrome da commoditização aplicada ao mineral mais estratégico do século XXI.
O que torna essa situação particularmente aguda é a janela temporal que está se fechando para nós - o que pode acontecer antes mesmo de acordarmos. A corrida global por diversificação de cadeias de minerais críticos, acelerada pelas tensões entre Washington e Pequim, criou uma demanda sem precedentes por fornecedores confiáveis fora da esfera chinesa. Nessa esteira, países como Austrália e Canadá já firmaram acordos estratégicos com os EUA.
Neste cenário, o Brasil, com suas reservas de argilas iônicas, geologicamente mais fáceis e baratas de processar do que as rochas exploradas por concorrentes, teria uma vantagem comparativa que qualquer analista de recursos naturais classificaria como rara. Desperdiçá-la por ausência de financiamento adequado, fragmentação regulatória e falta de visão industrial de longo prazo não é apenas um erro econômico. É uma abdicação estratégica num momento em que quem controla os minerais críticos controla, em larga medida, o ritmo e a direção da transição energética global. Thomas Davenport patenteou seu motor elétrico e mudou o mundo. O Brasil tem o ingrediente. Falta, ainda, a vontade de fazer algo com ele.








