Mercado Livre: o canal de tudo
Durante muito tempo, a gente se acostumou a olhar para o Mercado Livre como um grande shopping virtual. Um lugar para comprar celular, eletrodoméstico, bugiganga importada e, no máximo, alguns itens de supermercado. Esse olhar já ficou velho. O Mercado Livre deixou de ser uma “loja” faz tempo. Ele virou um canal. E quando uma empresa vira canal, ela deixa de vender produtos específicos e passa a vender… qualquer coisa.
O que define esse novo patamar não é só o sortimento. É a escala. São dezenas de milhões de usuários ativos, frequência altíssima de acesso e uma base de dados brutal sobre comportamento de compra, intenção, recorrência, ticket médio, jornada e timing. Isso muda o jogo. Quando você tem tráfego, dados e infraestrutura logística, o limite do que pode ser vendido deixa de ser a categoria e passa a ser a criatividade de quem usa o canal. Se dá para vender um celular, dá para vender um carro. Se dá para vender um liquidificador, dá para vender insumo agrícola. O canal é o mesmo. O contexto muda.
A Stellantis, dona das marcas como Fiat, Jeep, Ram, Citroën e Peugeot, entendeu isso antes e bebeu água limpa. Em 2025, a operação da companhia dentro do Mercado Livre faturou cerca de R$ 200 milhões e praticamente dobrou a base de clientes. Não é pouca coisa para uma montadora tradicional, acostumada a pensar em concessionária, showroom físico, vendedor empurrando opcional e negociação em mesa. O movimento mostra algo maior do que um bom resultado comercial: mostra que até produtos de alto valor, complexos e historicamente “presenciais” já cabem dentro de uma lógica de plataforma digital.
O ponto mais interessante aqui não é a Stellantis. É o Mercado Livre. Quando uma plataforma vira o lugar onde as pessoas começam a jornada de compra, ela passa a ser o “canal de tudo”. Não importa se você vende carro, peça, seguro, financiamento, adubo, máquina agrícola ou serviço. Se o cliente já está lá, a batalha não é mais por audiência. É por relevância dentro do canal. A vitrine mudou de endereço. E muita empresa ainda está discutindo layout de loja física como se isso fosse sua única alternativa.
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No fundo, isso é sobre infraestrutura de mercado. Quem controla o canal controla o fluxo. E quem controla o fluxo passa a ter poder para conectar oferta e demanda em qualquer categoria. O Mercado Livre está construindo, aos poucos, algo que vai muito além do varejo digital: uma espécie de “porta de entrada” para o consumo em vários setores da economia. Hoje são eletrônicos, autopeças e carros. Amanhã podem ser tratores, insumos, serviços financeiros mais sofisticados, seguros, B2B pesado.
O desconforto para quem vende é simples: se o cliente começa no canal, você não decide mais sozinho como é a jornada. O canal passa a ditar as regras do jogo. E, goste ou não, o Mercado Livre já é grande demais para ser tratado como “só mais um parceiro de vendas”. Ele virou o canal de tudo.



