Pizza no Gemini, Nubank e Mercado Livre, Demissões no eBay e Waymo x Tesla
Bom dia. Hoje é 27 de fevereiro. Nesse mesmo dia, em 2008, a Microsoft fez uma oferta de US$ 44 bilhões para comprar o Yahoo! A empresa de buscas recusou a oferta, naquele que ficou marcado como seu “último erro”. Depois disso, o negócio foi ladeira abaixo até ser desmembrado e vendido por uma fração do valor ofertado pela Microsoft.
A Mudança Gravitacional da IA
IA não é só tecnologia. É plataforma. O Gemini passou a permitir que o usuário peça um Uber ou solicite comida via DoorDash direto na conversa com o algoritmo. Você escreve “chame um Uber para a Rua das Flores, 123” ou “quero uma pizza de calabresa” e a ação acontece. Simples assim. O recurso já está em beta nos EUA e na Coreia do Sul.
O que parece conveniência é, na verdade, deslocamento de poder. O ponto de entrada deixou de ser o app. A decisão começa na IA. O aplicativo vira infraestrutura invisível. Quem organiza a demanda agora é o modelo de linguagem. E quem organiza a demanda controla a distribuição.
Durante anos, marcas brigaram por download, tráfego e posição no ranking das lojas. Agora a disputa é outra. É estar plugado no ecossistema algorítmico. É ser escolhido pela IA quando alguém descreve um contexto, não quando digita uma palavra-chave. O centro gravitacional saiu da interface e foi para a inteligência.
Isso muda o jeito de fazer marketing e criar produto. Líderes que ainda pensam em funil tradicional estão olhando para o retrovisor. A pergunta deixa de ser “como trago o cliente para o meu app?” e passa a ser “como eu me torno a melhor resposta dentro do algoritmo?”. Quem entender isso primeiro ganha escala.
Quem ganhar, vai perder.
“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder”. A frase parece meme político, mas o mercado adora provar que ela faz sentido. Mercado Livre e Nubank entregaram resultados operacionais extraordinários. Crescimento, expansão de produtos, aumento de base, eficiência. Ainda assim, as ações das duas empresas caíram quase 14% nos últimos cinco dias.
É o imediatismo atrapalhando a visão. O mercado olha para o que aconteceu nos últimos três meses, para uma expectativa não cumprida, para um número um pouco abaixo do esperado. O sistema reage e o preço cai. Mas a empresa de verdade continua ali, crescendo base, aumentando uso, ficando mais presente na vida das pessoas e mais difícil de ser substituída.
Empresas que estão construindo infraestrutura digital na América Latina não são histórias de um trimestre. São histórias de década. O Mercado Livre virou canal de tudo. O Nubank virou plataforma financeira completa. Quanto mais crescem, mais dados geram. Quanto mais dados geram, mais eficiente fica o modelo. Isso não aparece inteiro no balanço de 90 dias.
O mercado pode punir no curto. Mas quem está construindo posição estrutural costuma ser recompensado no médio e longo prazo. A pergunta não é por que caiu 14% em cinco dias. A pergunta é onde essas empresas estarão em cinco anos. Quem confunde volatilidade com fraqueza estratégica geralmente vende o futuro para comprar alívio imediato.
eBay demite 6% da força
O eBay anunciou que vai cortar 800 postos de trabalho, cerca de 6% da sua força global, em mais uma rodada de reestruturação estratégica. A empresa tem repetido esse movimento nos últimos anos – incluindo cortes em 2023 e 2024 – enquanto diz que está realinhando sua organização com prioridades de longo prazo.
O que chama atenção é que esse anúncio vem justamente no momento em que a indústria de tecnologia está vivendo um duplo choque estrutural: por um lado, pressionada por resultados de curto prazo. Por outro, empurrada para acelerar investimentos em inteligência artificial, automação e novas formas de operar.
O discurso de que “os cortes se devem a IA” não é raro e já tem até debate sobre “AI-washing”, ou seja, empresas usarem o futuro da IA como justificativa para ajustes que podem não estar realmente ligados à adoção madura de tecnologia. O ponto aqui é que a IA está fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Está aumentando eficiência, mas também reorganizando a forma como os trabalhos são feitos.
Empresas estão repensando funções repetitivas ou facilmente automatizáveis e movendo investimento para construir capacidades de IA que possam sustentar crescimento no médio e longo prazo. Essa transição, claro, tem custo humano e chama atenção para a necessidade de políticas e estratégias que preparem pessoas e mercados para o novo equilíbrio entre trabalho e inteligência artificial.
Waymo venceu a Tesla?
Enquanto a Waymo acelera sua presença em mais cidades dos EUA, expandindo onde carros autônomos estão disponíveis para o público, a Tesla toma uma atitude que chama atenção: anunciar que vai parar a produção de dois de seus modelos.
O contraste é simbólico de duas visões diferentes de futuro. Waymo está investindo pesado em automação total, um futuro em que você simplesmente chama um carro que se dirige sozinho. A Tesla, por outro lado, está reajustando seu foco de produto num momento em que seu modelo de condução autônoma ainda não avançou para uma adoção ampla e segura sem motorista.
Isso mostra algo importante: tecnologia não é apenas sobre inventar coisas novas, mas sobre onde e como o valor real se materializa. A IA aplicada à mobilidade está se tornando um novo padrão. Empresas que estão construindo esse tipo de plataforma podem sacrificar linhas de produto tradicionais hoje para chegar a esse futuro amanhã.
E esse futuro não é distante. Quando um motorista comum começar a pensar “não preciso mais comprar um carro, eu assino mobilidade autônoma”, o centro de gravidade do mercado automotivo muda. É mais sobre ir e vir do que sobre comprar um carro.






