A "Mosca na Sopa" do Marketing
Se fizermos uma metáfora, o marketing tradicional virou a mosca na sopa da tecnologia que está cozinhando o futuro: está ali, claro que está, mas já não é mais o ingrediente principal. Isso porque o jogo mudou, e quem não percebeu que a IA deixou de ser um ator coadjuvante ontem já corre o risco de ficar irrelevante hoje.
Nos últimos meses, vimos uma das mais emblemáticas demonstrações dessa mudança. A americana Profound, uma startup com apenas 18 meses de vida, captou US$ 96 milhões e se tornou um unicórnio ao oferecer uma solução que ajuda marcas a serem encontradas e recomendadas por modelos de IA como ChatGPT, Gemini e outros mecanismos de resposta. É um movimento que redefine onde mora a atenção dos consumidores na era digital.
O que faz essa empresa é simples na descrição, mas radical na consequência: ela mede e impulsiona a forma como os modelos de IA “veem” e citam marcas, redesenhando o antigo SEO para o que hoje se chama de Answer Engine Optimization ou Generative Engine Optimization (GEO). Em vez de lutar por um link no topo do Google, as marcas agora brigam por aparecer como resposta forte em conversas geradas por inteligência artificial.
Esse movimento pode parecer pequeno, uma curiosidade técnica, mas é, na verdade, o equivalente a descobrir que o sol já nasceu enquanto ainda estávamos debatendo se ele vai nascer. Nos últimos anos, parte significativa do tráfego na internet deixou de vir de cliques humanos sobre links azuis e passou a ser gerada por bots que esfriam o clique humano. Ou seja, pela própria IA.
Tradicionalmente, quando uma pessoa queria descobrir algo, ela digitava no Google, clicava num resultado, navegava no site e talvez comprasse algo. Hoje boa parte desses passos não existe mais: o usuário pergunta direto ao ChatGPT ou a outro assistente, e a IA sintetiza a resposta, incluindo recomendações de produtos, serviços, soluções e opções. Tudo isso sem passar por páginas ou rankings clássicos. É esse trecho invisível da cadeia que já vale ouro.
E isso nos leva a uma conclusão desconfortável, mas inescapável. O marketing não morreu. Ele foi reescrito. O marketing que conhecíamos era centrado no humano: atraí-lo, engajá-lo, persuadi-lo. Hoje, o primeiro agente que influencia a jornada de compra é uma inteligência artificial. E essa IA pode nem estar “consciente”. Ela não sente afinidade com a sua marca, não tem preferência cultural por você, não lê seu anúncio porque achou bonito: ela responde com base em dados, padrões, autoridade e relevância percebida nos modelos que a treinam.
Portanto, marketing agora precisa marcar presença compostamente no universo dos agentes de IA. E não como um plano B, mas como o ponto de partida.
Empresas bilionárias já nasceram desse novo marketing. Algumas ainda nem operam como empresas tradicionais, mas são avaliadas no mesmo patamar que gigantes, porque têm visibilidade onde a descoberta acontece agora. Elas constroem ferramentas que garantem que, quando alguém perguntar a um agente de IA “Qual é o melhor software para X?”, o nome da marca X esteja na resposta e não enterrado na página 78 de resultados.
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A Profound é apenas um dos exemplos: em menos de dois anos, ela transformou algo que parecia nicho - otimização de respostas de IA - em um modelo que vale mais de um bilhão de dólares. Isso não acontece por acaso.
Outras empresas, como aquelas que monitoram e posicionam marcas em respostas de IA ou que criam plataformas de visibilidade de marca para sistemas generativos, também estão crescendo rapidamente, levantando capital, atraindo clientes e transformando a forma como pensamos como e onde o público encontra soluções.
O ponto chave aqui é: quem decide hoje o que será comprado muitas vezes não é nem humano. São agentes de IA alimentados por grandes modelos de linguagem. Eles interpretam a intenção humana, sintetizam respostas e, em muitos casos, sugerem soluções com autoridade própria. Às vezes antes mesmo de o usuário formular uma busca tradicional.
Se sua marca não está otimizada para aparecer nesses fluxos, se você ainda está preso ao mantra de “rankear no Google”, então você pode ser a mosca na sopa que ninguém quer por perto.
O futuro do marketing não será decidido por quem grita mais alto, quem tem mais verba ou quem compra mais anúncios. Será decidido por quem entende o novo palco de descoberta, quem se antecipa à jornada do agente e alinha conteúdo, dados e experiência para ser citado como resposta relevante.
Essa é a verdadeira chave: não é mais quem aparece primeiro na busca. É quem aparece primeiro na conversa. E se você quer ganhar esse jogo, precisa começar a pensar em marketing para IA antes mesmo do usuário pensar em comprar.



