Existe uma nova classe trabalhadora se formando diante dos nossos olhos.
Em 2025, cerca de 1,96 milhão de brasileiros trabalharam por meio de aplicativos, segundo o IBGE. São motoristas, entregadores, prestadores de serviços e profissionais que encontraram nas plataformas digitais uma nova maneira de acessar o mercado. Já representam 1,9% de toda a população ocupada do país.
O número, isoladamente, talvez não impressione. A transformação que existe por trás dele, sim. Durante boa parte do século passado, a relação de trabalho era relativamente fácil de identificar. De um lado estava a empresa. Do outro, o empregado. Entre eles, um contrato, uma jornada, um salário e uma estrutura hierárquica razoavelmente definida. As plataformas criaram uma terceira coisa.
O trabalhador não é exatamente funcionário da empresa, mas também não opera com a mesma autonomia do profissional independente tradicional. Segundo o levantamento, 86,8% se consideram trabalhadores por conta própria. Mas existe um detalhe importante nessa definição: boa parte depende dos aplicativos para estabelecer preços, encontrar clientes, definir prazos e determinar as próprias condições de pagamento. É uma autonomia intermediada por um algoritmo.
E talvez esteja aí uma das características mais importantes dessa nova classe trabalhadora. O aplicativo não funciona apenas como um lugar onde oferta e demanda se encontram. Ele se transforma em uma espécie de infraestrutura do trabalho. É a plataforma que organiza a demanda, distribui oportunidades, calcula preços, mede desempenho e, em muitos casos, determina quem terá acesso ao próximo serviço.
A empresa tradicional tinha chefes. A economia das plataformas tem sistemas de recomendação, rankings, taxas de aceitação, avaliações e algoritmos. A gestão não desapareceu. Ela virou software.
Os números do IBGE ajudam a enxergar outra dimensão dessa transformação. Os profissionais de aplicativos trabalham, em média, 44,7 horas por semana, contra 39,3 horas dos demais ocupados. Mesmo assim, o rendimento mensal médio dos dois grupos é praticamente igual: aproximadamente R$ 3,15 mil.
Na prática, isso significa que o trabalhador plataformizado precisa colocar mais horas na mesa para chegar praticamente ao mesmo rendimento. O resultado é um ganho por hora cerca de 12% menor.
Há ainda outra fragilidade: 72,1% estão na informalidade e somente 34% possuem cobertura previdenciária. Esses dados ajudam a derrubar duas simplificações comuns sobre esse fenômeno. A primeira é imaginar que estamos apenas diante de empregos tradicionais transferidos para uma tela. Não estamos. A segunda é tratar todos esses profissionais simplesmente como empreendedores individuais. Também não parece ser exatamente isso.
Estamos assistindo ao surgimento de uma relação econômica diferente, na qual existe liberdade para escolher quando trabalhar, mas muito menos liberdade para determinar as regras econômicas daquele trabalho. Essa distinção será cada vez mais importante. E não apenas para motoristas ou entregadores.
A lógica das plataformas tende a avançar sobre inúmeras outras profissões. Programadores, designers, advogados, professores, consultores, profissionais de saúde e inúmeras outras categorias poderão trabalhar dentro de marketplaces digitais que distribuem demanda, definem reputação e intercediam pagamentos.
Com a inteligência artificial, essa transformação pode ganhar ainda mais velocidade. Quando isso acontecer, o debate sobre trabalho por aplicativos deixará de ser uma discussão sobre Uber, iFood ou entregadores. Será uma discussão sobre como o trabalho será organizado na economia digital.
A Revolução Industrial concentrou trabalhadores dentro das fábricas. A economia corporativa concentrou trabalhadores dentro das empresas. As plataformas estão fazendo algo diferente: estão organizando milhões de profissionais sem necessariamente empregá-los.
Talvez estejamos vendo nascer uma nova classe trabalhadora. Não definida pela fábrica onde trabalha, pela empresa que assina sua carteira ou pelo escritório que frequenta. Mas pela infraestrutura digital da qual depende para trabalhar. E essa é uma mudança muito maior do que parece.





Excelente conteúdo. Essa nova categoria de trabalhadores ainda dará um bom debate jurídico. Obrigado.