Pense num cenário onde você vai encontrar um amigo para tomar um café. No local, ele chega usando óculos, senta à sua frente e começa a conversar. Em algum momento, você percebe que aquele acessório também tem uma câmera. Visto isso, a conversa pode continuar exatamente como antes, mas agora existe uma dúvida que não existia: será que ela está sendo gravada? E, se estiver, onde aquela imagem vai parar? Isso se deve ao fato de que, para quem usa estes óculos inteligentes (como o da Meta), registrar um momento sem tirar o celular do bolso é uma conveniência, sendo, talvez, a superação do telefone celular. Para quem está diante deles, porém, a mesma facilidade pode representar uma perda de controle sobre a própria exposição, afinal, todo pessoa com esse produto parece ser um big-brother ambulante.
Toda essa situação vem do fato de que a Meta investiu nessa aposta com uma lógica que, do ponto de vista de produto, é difícil de contestar. Os Ray-Ban Meta incorporam câmera, áudio e inteligência artificial a um objeto que já faz parte da vida de centenas de milhões de pessoas. Assim, em vez de criar um dispositivo novo que exija hábitos novos – o erro que o metaverso cometeu ao tentar colocar um headset no rosto de quem não queria usá-lo –, a empresa escolheu um objeto que as pessoas já vestem. Dessa forma, a proposta é transformar os óculos na próxima interface entre o usuário e o mundo digital, de tal forma que, agora, quem possuir os óculos poderá assistir, gravar, traduzir, pergunta e buscar na web, tudo sem tirar o celular do bolso. E, quanto mais essa interação se torna natural, maior o potencial de fazer dos óculos aquilo que o iPhone fez com o celular, que é se tornar a porta de entrada para um ecossistema inteiro de serviços – por exemplo, a Meta poderia facilmente usar o seu agente Muse para comprar um produto que o usuário viu pelas do óculos e, com seu pedido, o agente o busca e realiza a compra.
Mas a naturalidade tem uma consequência que joga contra ela. Quando alguém levanta um celular e aponta a câmera, essa pessoa produz um gesto reconhecível. Esse gesto funciona como um aviso social, que permite que o outro perceba o que está acontecendo, faça uma pergunta, se afaste ou manifeste desconforto. Já nos óculos, olhar para uma pessoa e registrar aquela pessoa podem acontecer praticamente da mesma maneira. O gesto, então, desaparece. E com ele desaparece parte da possibilidade de reação.
O problema, por isso, não se resume aos usuários que deliberadamente abusam da tecnologia, pois a incerteza inerente ao produto, por si só, já altera a convivência. Uma pessoa talvez evite um assunto, contenha uma brincadeira ou deixe de agir com espontaneidade porque não sabe se aquele momento permanecerá privado. O produto pode, com isso, funcionar exatamente como foi projetado e, mesmo assim, introduzir um custo que recai sobre quem não o comprou, isto é, a sociedade que precisará lidar com a possibilidade de fazer parte de um registro que não foi autorizado. Dessa forma, a disposição de um consumidor para pagar pelo dispositivo não revela tudo sobre a capacidade do produto de se tornar um objeto cotidiano. Vender unidades é uma etapa. Conseguir que ele seja usado com frequência, em diferentes lugares e sem gerar conflitos recorrentes é outra completamente diferente.
Essa resistência já saiu do campo das opiniões e entrou no campo das decisões. A Hans Anders, uma das maiores redes de óticas da Europa, suspendeu a venda dos Ray-Ban Meta em mais de 400 lojas na Holanda e na Bélgica. A Wehkamp, varejista online holandesa, fez o mesmo. A Consumentenbond, principal organização de defesa do consumidor dos Países Baixos, ameaçou processar a Meta caso a empresa não adapte o produto às leis de privacidade. Na Noruega, o governo propôs uma proibição temporária do uso de óculos inteligentes em espaços públicos como parques, praias, museus e eventos, e a capital Oslo já proibiu o uso em escolas desde agosto. Na Austrália, o governo federal anunciou que está avaliando banir óculos com câmera em órgãos públicos por razões de segurança e privacidade. Nos Estados Unidos, o sistema judiciário unificado de Nova York proibiu o uso em todas as suas instalações a partir de julho. No Reino Unido, tribunais da Inglaterra e do País de Gales aplicaram a mesma restrição, a associação de cinemas britânicos estuda medidas semelhantes para combater pirataria e transmissões ao vivo, e a rede de pubs Wetherspoons baniu os óculos de seus estabelecimentos. Na União Europeia, o Comitê Europeu de Proteção de Dados encomendou um relatório sobre a “aceitabilidade social” dos óculos inteligentes, e parlamentares de França, Alemanha e Holanda pediram formalmente que a Comissão Europeia considere ações regulatórias.
A velocidade com que essas restrições se espalharam é, em si mesma, um dado relevante, pois esses movimentos não são protestos de ativistas de nicho, mas são governos, tribunais, redes varejistas, cinemas e pubs (instituições que não costumam agir por antecipação) decidindo que o produto não é bem-vindo nos seus espaços antes mesmo de aguardar uma regulação específica. Obviamente que, frente à esse fato, a Meta defende os mecanismos de proteção presentes no dispositivo e incentiva o uso responsável. Mas a questão já ultrapassou o terreno da intenção do fabricante, porque o que está sendo contestado não é se o produto funciona bem para quem o compra, e sim o que ele impõe a quem não participou da decisão de compra.
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Esse é o desafio mais difícil que a Meta enfrenta com seus óculos, e é um desafio que nenhuma melhoria técnica resolve sozinha. Um produto convencional precisa superar uma barreira: convencer o consumidor a comprá-lo. Os Ray-Ban Meta precisam superar duas. A primeira é a barreira de compra, que tem por obstáculos o preço e o design do produto que são fora do padrão do mercado. A segunda é a barreira social, ou seja, a aceitação por parte de todas as pessoas que conviverão com o produto sem tê-lo escolhido. E quando países inteiros começam a legislar sobre onde o dispositivo pode ou não ser usado, a segunda barreira deixa de ser um desconforto difuso e se torna uma restrição concreta que limita os lugares, os momentos e as situações em que o produto pode existir.
Assim, para quem está por dentro da evolução da tecnologia vestível, o que está acontecendo com os Ray-Ban Meta é um caso de estudo em tempo real sobre um tipo de obstáculo que a indústria raramente enfrenta: o produto que funciona bem e ainda assim encontra resistência, não porque decepcione quem o usa, mas porque incomoda quem está ao redor. Nesse novo cenário, a Meta precisa convencer milhões de consumidores a usar seus óculos. Mas o teste verdadeiro não é esse. É convencer todas as outras pessoas a continuar agindo naturalmente quando alguém estiver usando.



