Os Dados não Dizem Tudo, o Fast Food na Era Proteica, os Recordes do Nubank e o Futuro do Software
Bom dia! Hoje é 26 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1935, o cientista britânico Robert Watson-Watt realizava a primeira demonstração bem-sucedida do radar, uma tecnologia que, à época, parecia mágica e que, décadas depois, revelou-se infraestrutura silenciosa de toda a aviação, defesa e navegação modernas.
A lição que o episódio deixa é duradoura: as tecnologias que mais transformam o mundo raramente chegam com alardes, elas se instalam como camadas invisíveis de uma nova realidade, e só percebemos sua centralidade quando já é tarde demais para ignorá-las. Noventa anos depois, a inteligência artificial repete esse roteiro com uma velocidade que Watson-Watt jamais poderia imaginar.
Quem vê Bolsa não vê Estratégia
Os resultados do trimestrais do Mercado Livre chegaram com números que pouquíssimas empresas no mundo conseguiriam apresentar: uma receita de US$ 8,8 bilhões (um crescimento de 45% na base anual) e, talvez o dado mais eloquente de todos, 28 trimestres consecutivos crescendo acima de 30%.
É uma consistência que desafia a lógica de ciclos econômicos, pressões competitivas e instabilidades macroeconômicas de uma América Latina que não costuma ser generosa com quem tenta escalar. E ainda assim, as ações chegaram a cair 14% logo após o anúncio. O mercado não estava errado nos números, ele estava errado na leitura.
O gatilho da queda foi um lucro de US$ 559 milhões, um número real, expressivo, mas abaixo dos US$ 596 milhões que analistas esperavam. A diferença de US$ 37 milhões, menos de 0,5% da receita trimestral, foi suficiente para provocar uma das piores reações do papel em anos.
A razão é conhecida: o Mercado Livre acelerou deliberadamente seus investimentos em expansão, comprimindo margens no curto prazo para ganhar posição em mercados e verticais que ainda estão sendo construídos. É uma escolha estratégica consciente, e historicamente recompensada pela companhia, mas que colide frontalmente com a lógica trimestral que governa o comportamento de boa parte dos investidores institucionais.
O Mercado Pago é onde essa aposta de longo prazo fica mais visível e mais reveladora. Com 78 milhões de clientes, volume de pagamentos crescendo em 42% e uma carteira de crédito que expandiu 90% em base anual, a operação financeira do grupo já não é mais um complemento ao e-commerce, mas é realmente um negócio paralelo com dinâmica própria, escala própria e, em breve, competitividade própria contra incumbentes bancários.
Ao mesmo tempo, os 83 milhões de compradores únicos do e-commerce do Mercado Livre atingidos no período, combinados com recordes de NPS simultâneos no Brasil, México e Argentina, desmentem a narrativa de que crescimento em escala inevitavelmente corrói qualidade. O Mercado Livre, deste modo, está crescendo e melhorando ao mesmo tempo, uma combinação rara que o preço da ação, neste momento, simplesmente não reflete.
O Fast Food na Era Proteica: Quando a Indústria Segue o Músculo
O lançamento da linha Séries Dobro de Frango pelo Subway, com sanduíches de 15 cm carregando mais de 40g de proteína e menos de 500 calorias, é um sintoma de uma transformação cultural e econômica muito maior do que parece à primeira vista.
Com o aumento da demanda recente, o mercado global de alimentos com proteína adicionada deve crescer em cerca de 63% até 2033, segundo o Grand View Research, e esse número já começou a mudar, mesmo que silenciosamente, até as redes que por décadas foram sinônimo de alimentação ultra-processada e indulgente. Burger King, Bob’s e agora Subway estão todos correndo para ocupar o mesmo território: o do fast food que não envergonha quem se preocupa com o que come.
Esse reposicionamento revela uma tensão produtiva no setor. De um lado, a conveniência que sempre foi a proposta central do fast food; de outro, a demanda crescente - especialmente entre consumidores jovens e da chamada “geração da academia” - por produtos que se alinhem a uma identidade de saúde e performance. A resposta da indústria não é mudar sua essência, mas expandir seu portfólio para capturar esse novo desejo sem abrir mão de sua eficiência operacional. Nesse sentido, escalar Ramon Dino, atual fisiculturista campeão do Mr. Olympia, como porta-voz da linha é a tradução publicitária exata dessa intenção: transformar o sanduíche em objeto de aspiração funcional.
Aqui no Brasil, esse movimento encontra terreno fértil numa tendência paralela: a “proteinificação” das bebidas, com o lançamento de águas e sucos proteicos por parte de grandes grupos como Heineken e Ambev. O que emerge desse cruzamento é um novo segmento de mercado, a alimentação funcional de conveniência, que desafia a dicotomia antiga entre saudável e prático.
Para marcas tradicionais, a mensagem é clara: ou encontram formas críveis de habitar esse novo território, ou perdem relevância junto a um consumidor cujo principal critério de compra deixou de ser apenas o sabor.
Os re(cordes)sultados do Nubank
Se o Mercado Livre foi “punido” pelo mercado apesar de seus números, o Nubank chega ao mesmo ciclo de resultados com uma trajetória que não deixa muito espaço para ambiguidade: 131 milhões de clientes, 17 milhões de novos usuários em apenas três meses, receita trimestral de US$ 4,9 bilhões e lucro líquido de US$ 895 milhões com um ROE de 33%.
Em termos anuais, 2025 encerrou com US$ 16,3 bilhões de receita - um crescimento de 45% sobre 2024 - e US$ 2,9 bilhões de lucro líquido, frente a aproximadamente US$ 2 bilhões no ano anterior. São números que, isolados, já seriam notáveis. O que os torna extraordinários é o contexto em que foram gerados.
O custo de servir um cliente permanece em US$ 0,80. Para quem não está familiarizado com benchmarks do setor bancário global, esse número merece uma pausa. Afinal, bancos tradicionais gastam entre US$ 15 e US$ 25 para atender um cliente ao mês, ao passo que fintechs mais eficientes raramente ficam abaixo de US$ 5.
Porém, o Nubank opera a uma fração desse custo e, ao mesmo tempo, mantém NPS entre os mais altos do setor financeiro mundial. Essa combinação de eficiência operacional extrema com altíssima satisfação do cliente é a expressão prática de um modelo que foi construído do zero para ser digital, sem o peso de agências, sistemas legados ou estruturas burocráticas herdadas de décadas anteriores.
O destaque mais estratégico do relatório, porém, não está nos números de crescimento, mas está no papel crescente da inteligência artificial como vantagem competitiva estrutural. O Nubank já utiliza IA para decisões de crédito, conversão de produtos, cross-sell e atendimento ao cliente, com recordes de conversão reportados em múltiplas linhas. Isso é relevante porque transforma a IA de ferramenta operacional em motor de receita: cada interação com o cliente passa a ser uma oportunidade de oferta mais precisa, com risco mais calibrado e custo de aquisição mais baixo.
Assim à medida que o modelo aprende com 131 milhões de usuários ativos, a vantagem competitiva não apenas se mantém, mas se aprofunda de forma que concorrentes com bases menores simplesmente não conseguem replicar na mesma velocidade.
O Grande Debate do Software: Extinção ou Reinvenção?
A onda de vendas que atingiu as ações de software nestes últimos meses cristalizou um medo que vinha se acumulando nos bastidores dos mercados: se a IA consegue escrever código, automatizar fluxos de trabalho e substituir funções inteiras de profissionais do conhecimento, qual é o valor residual de empresas cujo ativo principal é o software?
O UBS Wealth Management (a divisão de gestão de fortunas do UBS Group AG, um banco de investimento suíço), sob a CIO Ulrike Hoffmann-Burchardi, respondeu a essa pergunta com uma mudança concreta em seu portfólio: saindo de “bits” e migrando para “átomos”, ou seja, migrando seu capital para mineradoras, geradoras de energia e fabricantes de equipamentos. A lógica, que parece ser simplista e antiga, na verdade, é cirúrgica: ativos físicos são menos replicáveis por IA do que propriedades intelectuais e, por isso, não serão substituídos, mas pelo contrário, serão a base física da infraestrutura moderna.
Do lado oposto do debate, Jensen Huang, CEO da Nvidia, oferece um contraponto que merece atenção. Para ele, a ideia de que a IA tornará o software obsoleto é “a coisa mais ilógica do mundo”. Seu argumento central é que agentes de IA não recriam ferramentas do zero, mas, assim como nós, eles as utilizam.
Comprovando essa lógica, podemos observar que os avanços mais recentes em agentes autônomos operam precisamente através de softwares existentes: navegam em browsers, executam planilhas, manipulam APIs e etc. Portanto, o substrato permanece; o que muda é quem (ou o quê) o opera. Nessa visão, o software não morre, mas se torna utilidade, assim como a eletricidade se tornou infraestrutura invisível e indispensável.
A verdade provavelmente habita o espaço entre as duas posições. Assim, plataformas de infraestrutura, como sistemas operacionais, bancos de dados e ambientes de desenvolvimento, tendem a se valorizar como utilidades ferramentais essenciais, exatamente porque agentes de IA precisam de um substrato estável sobre o qual operar. Ao passo que ferramentas de nicho, com proposta de valor estreita e fácil replicação por LLMs, já enfrentam um risco existencial real.
O que essa rotação de mercado revela, ao fim, não é o fim do software, mas o fim de uma era em que código era, por si só, uma barreira competitiva suficiente. Daqui para frente, o diferencial migrará da capacidade de construir software para a capacidade de construir o software que a IA quer usar.









