Os CEOs na mesa da geopolítica
A diplomacia entre Washington e Pequim já não se resolve apenas entre chefes de Estado. Agora, ela se negocia também, e talvez sobretudo, entre balanços patrimoniais.
O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping no Grande Salão do Povo, em Pequim, nesta semana, será inevitavelmente lido como mais um capítulo da rivalidade sino-americana. Haverá manchetes sobre Taiwan, declarações vagas sobre cooperação e análises de linguagem corporal entre os dois líderes. Mas quem se detiver apenas no protocolo diplomático perderá aquilo que, de fato, torna este episódio estruturalmente diferente de qualquer cúpula anterior: a delegação que acompanhou Trump não era composta por diplomatas. Era composta por balanços patrimoniais.
Tim Cook, da Apple. Jensen Huang, da Nvidia. Elon Musk, da Tesla. Larry Fink, da BlackRock. Kelly Ortberg, da Boeing. Representantes da Qualcomm, Micron, Meta, Goldman Sachs, Visa, Mastercard, Citi e Blackstone. Ao todo, dezessete executivos cujas empresas, somadas, representam trilhões de dólares em capitalização de mercado, e, mais relevante ainda, trilhões em dependência operacional da China. Quando Trump declarou a Xi que trouxera consigo os trinta maiores empresários do mundo e que todos haviam aceitado o convite, não estava exagerando por retórica. Estava, na prática, explicitando uma arquitetura de poder que os Estados Unidos operam há décadas, mas raramente exibem com tanta transparência: a fusão entre Estado e capital privado na condução da política externa.
Entre os dezessete nomes, um deles carrega um significado que vai além do corporativo: Cristiano Amon, CEO da Qualcomm e o único brasileiro na comitiva. Nascido no Brasil, formado em Engenharia Elétrica pela Unicamp, Amon iniciou sua trajetória na Qualcomm em 1995 como engenheiro e, ao longo de quase três décadas, percorreu o caminho que vai do desenvolvimento técnico de semicondutores à presidência de uma das empresas mais estratégicas do planeta. Foi ele quem liderou a estratégia global de 5G da companhia, conduziu sua expansão para setores como automotivo, computação espacial e inteligência artificial, e hoje ocupa, além da cadeira de CEO, a vice-presidência do Conselho Empresarial EUA-China. Sua presença em Pequim não é protocolar. A Qualcomm é, ao lado da Nvidia, uma das peças centrais no tabuleiro de semicondutores que define a fronteira entre cooperação e contenção tecnológica entre as duas superpotências. E o fato de que quem a representa nessa mesa é um engenheiro que começou sua carreira em uma operadora de rádio brasileira antes de se tornar um dos executivos mais influentes do setor de chips no mundo é, em si, um dado revelador sobre como a tecnologia reorganiza não apenas mercados, mas trajetórias, geografias e, cada vez mais, o próprio acesso aos centros de decisão global.
A distinção é importante porque revela o que, de fato, estava em negociação em Pequim. Enquanto os comunicados oficiais se dividiam entre a retórica da “relação construtiva e estrategicamente estável”, formulação chinesa que ecoa o conceito de parceria da era Clinton, em 1997. e a ênfase americana no Irã, no fentanil e na reabertura do Estreito de Hormuz, o verdadeiro jogo acontecia em outra camada. Acontecia na ala norte do Grande Salão do Povo, onde os dezessete CEOs se reuniram com o premier Li Qiang, o mesmo que, quando era secretário do Partido em Xangai, pavimentou a entrada da Tesla no mercado chinês. Acontecia nos bastidores, onde a Reuters revelou que Washington havia autorizado a venda dos chips H200 da Nvidia a cerca de dez empresas chinesas (incluindo Alibaba, Tencent, ByteDance e JD.com) embora nenhuma entrega tenha sido efetivamente concretizada até o momento. E acontecia no anúncio de que a China concordou em encomendar duzentos aviões da Boeing, um gesto que, isoladamente, parece comercial, mas que, contextualizado, funciona como moeda de troca em um tabuleiro que mistura semicondutores, terras raras, soberania sobre Taiwan e influência sobre o Irã.
É nesse cruzamento que reside o aspecto mais revelador da cúpula. A presença de Jensen Huang, que sequer constava da lista original da delegação e foi convidado por Trump já a caminho de Pequim, ilustra com precisão quase didática o quanto a tecnologia deixou de ser um tema lateral nas relações entre as duas superpotências e passou a ser o próprio eixo em torno do qual a diplomacia gira. A Nvidia, antes das restrições de exportação impostas por Washington, controlava aproximadamente 95% do mercado chinês de chips avançados para inteligência artificial. Perder esse mercado não é apenas uma questão de receita; é uma questão de definir quem controla a infraestrutura computacional que sustentará a próxima década de avanços em IA. E quando Trump negocia uma estrutura na qual os Estados Unidos retêm 25% da receita de cada venda de chips à China, exigindo, inclusive, que os processadores passem fisicamente pelo território americano antes de serem embarcados, o que se configura não é um acordo comercial. É um pedágio geopolítico sobre o fluxo de inteligência artificial global.
Pequim, por sua vez, compreende perfeitamente essa dinâmica, e responde com as ferramentas que tem. A China não apenas possui o maior mercado consumidor do mundo em diversas categorias, como também controla cerca de 60% do processamento global de terras raras, minerais essenciais para a fabricação dos próprios chips que a Nvidia quer vender. Quando Xi Jinping promete aos executivos americanos que “a China abrirá cada vez mais suas portas para o mundo exterior” e que as empresas terão “perspectivas ainda mais promissoras”, a frase não é hospitalidade. É alavancagem. É a sinalização de que o acesso ao mercado chinês será concedido (ou restringido) em função daquilo que Washington estiver disposto a ceder em outras frentes.
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E é precisamente aqui que Taiwan entra na equação com uma centralidade que os comunicados americanos tentaram, sem sucesso, minimizar. Enquanto o lado de Washington praticamente omitiu o tema em seu pronunciamento oficial, Xi Jinping foi inequívoco ao classificar a questão como “o assunto mais importante das relações entre China e Estados Unidos”, alertando que, se mal administrada, pode levar os dois países a “uma situação extremamente perigosa”. A discrepância entre os comunicados não é acidental. Ela revela uma assimetria de prioridades que estrutura toda a relação: para os Estados Unidos, o encontro era sobre comércio, Irã e uma narrativa de vitória negocial antes das eleições de meio de mandato. Para a China, era sobre soberania, segurança tecnológica e a construção de um marco diplomático que limite a interferência americana naquilo que Pequim considera inegociável.
O que surge dessa cúpula, portanto, não é um acordo. É um mapa de interdependências. A Boeing precisa das encomendas chinesas para sustentar sua carteira recorde de 695 bilhões de dólares em pedidos. A Nvidia precisa do mercado chinês para monetizar sua liderança em chips de IA, especialmente quando suas próprias projeções financeiras já excluem receita proveniente da China. A Apple manufatura a esmagadora maioria de seus produtos no país. A Tesla expandiu suas operações chinesas a ponto de depender de Xangai como centro global de produção. E, do outro lado, a China precisa de semicondutores avançados que ainda não consegue produzir domesticamente em escala, de tecnologia agrícola americana e de estabilidade comercial para manter seu crescimento em um momento de desaceleração interna.
Essa teia de dependências mútuas cria o que analistas chamam de “armadilha de Tucídides invertida”: em vez de a rivalidade levar inevitavelmente ao conflito, como previa a tese clássica, a profundidade dos laços econômicos torna o conflito aberto demasiado custoso para ambos os lados. Mas, e esse é o ponto que merece atenção, também torna a estabilidade permanentemente frágil. Porque cada concessão comercial tem um preço político, cada venda de chip carrega uma dimensão estratégica, e cada encomenda de avião é, simultaneamente, um gesto econômico e uma moeda diplomática. Nesse tabuleiro, não existe transação puramente comercial. Tudo é geopolítica.
E talvez a imagem mais marcante dessa nova realidade não tenha vindo dos discursos oficiais nem dos comunicados diplomáticos. Veio de uma cena aparentemente trivial: Elon Musk caminhando pelo Grande Salão do Povo com seu filho, declarando a repórteres que gostaria de realizar “muitas coisas boas” na China.




