A engenharia da inevitabilidade
A opinião pública rejeita a IA. Contudo, as big techs não precisam que ela mude de ideia, mas apenas que isso deixe de importar.
Há uma contradição reveladora no centro da atual fase da inteligência artificial, e ela diz mais sobre poder do que sobre tecnologia. De um lado, pesquisas recentes, como a conduzida pela NBC, mostram que a maioria dos americanos avalia a IA de forma negativa, posicionando-a, em termos de percepção pública, abaixo até mesmo do ICE, o controverso serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos. De outro, as maiores empresas de tecnologia do planeta continuam investindo dezenas de bilhões de dólares em infraestrutura, modelos e integração de IA em praticamente todas as camadas de suas operações. A pergunta que surge, portanto, dessa dissonância é incômoda, mas necessária: se a sociedade, aparentemente, não quer, por que o avanço não desacelera?
A resposta está em uma distinção que raramente aparece nos debates públicos. A adoção da IA não depende mais de aceitação popular. Depende de incorporação institucional. E é precisamente nesse deslocamento, da esfera do consumo para a esfera da infraestrutura, que reside a estratégia mais sofisticada das big techs: tornar a inteligência artificial inevitável antes que a sociedade decida se a quer.
Enquanto o debate público gira em torno de riscos existenciais, substituição de empregos e dilemas éticos, as grandes empresas de tecnologia operam em outra camada. Elas não estão tentando convencer o cidadão comum de que a IA é boa. Estão, pelo contrário, inserindo a tecnologia nas engrenagens que sustentam o funcionamento do Estado, do mercado financeiro e da geopolítica global, de modo que, quando a conversa sobre regulação finalmente amadurecer, a dependência já esteja consolidada. E os acontecimentos recentes desta semana ilustram esse movimento com uma clareza quase didática.
Consideremos, por exemplo, o caso do Pentágono. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos está implementando o Mythos, modelo de cibersegurança desenvolvido pela Anthropic, com o objetivo de identificar e corrigir vulnerabilidades de software em toda a infraestrutura governamental americana. O detalhe, porém, é que essa mesma administração está, simultaneamente, acelerando a transição para abandonar outros produtos de inteligência artificial da Anthropic nos próximos meses. Há, portanto, uma tensão evidente: o governo americano quer se afastar da empresa, mas precisa reconhecer que sua tecnologia é, neste momento, indispensável para a segurança nacional. E esse paradoxo é, em si, uma demonstração de como a incorporação institucional da IA cria dependências que transcendem preferências políticas, afinal, quando a tecnologia já está embutida na defesa de um país, rejeitá-la deixa de ser uma escolha ideológica e passa a ser um risco operacional.
Esse padrão de incorporação silenciosa não se limita ao aparato militar. No campo financeiro, as declarações de Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, oferecem outra camada de leitura. Ao afirmar que o capital está crescendo mais rápido do que os salários e que a IA acelerará essa tendência, Fink não está fazendo uma previsão. Está, com a autoridade de quem administra mais de dez trilhões de dólares, legitimando a tese de que a inteligência artificial é deflacionária por natureza e, portanto, estruturalmente favorável ao capital. E ao declarar que não há bolha de IA, mas sim um desequilíbrio entre demanda e oferta, o que o CEO da BlackRock faz, na prática, é traduzir para a linguagem dos mercados aquilo que as big techs já sabem: o investimento em IA não é especulativo, é infraestrutural. E infraestrutura, uma vez construída, não se desmonta por vontade política.
Mas talvez o episódio mais revelador da semana esteja no depoimento de Satya Nadella, CEO da Microsoft, no julgamento do processo movido por Elon Musk contra a OpenAI. Ao classificar como “amadora” a tentativa do conselho da OpenAI de demitir Sam Altman, Nadella não estava apenas narrando um evento corporativo. Estava, de forma calculada, reafirmando o controle da Microsoft sobre a empresa mais valiosa do ecossistema de IA. A Microsoft detém cerca de 27% da OpenAI, uma participação avaliada em mais de duzentos bilhões de dólares, e Nadella sabe que a relação entre as duas empresas carrega uma ironia histórica quase poética: na década de 1980, a IBM firmou um acordo com uma então desconhecida Microsoft para desenvolver o sistema operacional de seus computadores pessoais, sem imaginar que essa parceria acabaria por transferir o centro de gravidade da indústria para a empresa de Bill Gates. Nadella, portanto, não está apenas investindo na OpenAI. Está, conscientemente, tentando evitar que a história se repita, desta vez com a Microsoft no papel da IBM.
Essa preocupação não é paranoia corporativa. É leitura estratégica. Porque o que está em jogo entre Microsoft e OpenAI não é apenas uma participação acionária, mas a definição de quem controlará a plataforma dominante da próxima era computacional. E, enquanto OpenAI, xAI e Google disputam a liderança nos modelos, a Microsoft aposta que o verdadeiro poder não estará no modelo em si, mas na camada de distribuição, integração e infraestrutura que o torna acessível. É, em muitos sentidos, a mesma lógica que a Amazon aplicou ao varejo, como já analisamos aqui no Entrelinhas: o diferencial não é o produto, mas a estrutura que o sustenta.
E é nesse ponto que a geopolítica completa o quadro. A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para esta semana, evidencia uma contradição americana que é, na verdade, o reflexo institucional do mesmo dilema que o Pentágono enfrenta com a Anthropic. Depois de meses endurecendo o discurso contra a tecnologia chinesa, restringindo exportações de chips e pressionando aliados a adotarem medidas semelhantes, Trump agora admite discutir cooperação em IA com Pequim. A presença de Jensen Huang, CEO da Nvidia, na delegação que acompanha o presidente americano à cúpula, não é simbólica. É operacional. Trump precisa de Huang para abrir o mercado chinês para os semicondutores americanos, porque a Nvidia, apesar de toda a retórica protecionista, depende da China como mercado consumidor. E a China, apesar de toda a retórica soberanista, depende dos chips da Nvidia para treinar seus modelos mais avançados.
O que emerge desse cenário é uma interdependência tecnológica que nenhuma das partes pode romper sem incorrer em custos estratégicos severos. E essa interdependência, paradoxalmente, é o que garante que a IA continuará avançando independentemente do sentimento público. Porque quando uma tecnologia se torna peça central da segurança nacional, da competição geopolítica e da arquitetura financeira global, ela deixa de estar sujeita ao escrutínio democrático convencional. Não porque a democracia falhou, mas porque a velocidade da incorporação institucional superou a capacidade de deliberação pública.
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Ao fim, o que conecta todos esses eventos, do Pentágono à cúpula de Pequim, é uma dinâmica que transcende cada caso individualmente. As big techs não estão apenas desenvolvendo inteligência artificial. Estão, de forma coordenada e simultânea, inserindo-a nas camadas mais profundas do poder global: defesa, finanças, diplomacia e infraestrutura. E o fazem com uma compreensão precisa de que a resistência pública, embora real, opera em uma velocidade incompatível com a velocidade da incorporação institucional. Quando a sociedade finalmente organizar suas objeções de forma coerente, as decisões estruturais já terão sido tomadas.
Não se trata, portanto, de um embate entre otimistas e pessimistas da IA. Trata-se de reconhecer que o jogo está sendo definido em uma arena à qual a maioria das pessoas não tem acesso, e que o verdadeiro poder não está em quem desenvolve o melhor modelo, mas em quem consegue torná-lo indispensável antes que alguém pergunte se ele deveria ser. A inevitabilidade da IA não é um fato tecnológico. É uma construção estratégica. E, como toda construção, serve a quem a projeta.




