A IA Não Está Nivelando os Profissionais. Está Separando-os
A mesma ferramenta produz resultados opostos em mãos diferentes. A IA não é o diferencial, mas a atitude de quem a usa, sim.
Existe uma ideia, uma suposição, confortável que acompanha a adoção da inteligência artificial no ambiente de trabalho: a de que a tecnologia, ao ser distribuída igualmente entre todos os funcionários, produziria um efeito equalizador. Algo como: se todos têm acesso às mesmas ferramentas, todos melhoram. O raciocínio parece lógico. E está profundamente errado.
Um estudo publicado por pesquisadores do Stanford Social Media Lab e da BetterUp revelou algo que, quando articulado com clareza, muda a forma como qualquer líder deveria pensar sobre a IA dentro de sua organização: a mesma ferramenta, nas mãos de profissionais diferentes, está produzindo resultados opostos. Não ligeiramente diferentes. Opostos. E a diferença não está na ferramenta. Está na atitude de quem a usa.
Os pesquisadores identificaram dois perfis. O primeiro, que chamaram de “pilotos”, são profissionais que tratam a IA como um instrumento de amplificação. Estes usam a tecnologia para refinar ideias que já tinham, para testar hipóteses, para acelerar tarefas operacionais e liberar tempo para o trabalho que exige julgamento, criatividade e decisão. Eles não delegam o pensamento. Delegam a execução. E, justamente por isso, usam a IA significativamente mais do que a média, tanto no trabalho quanto fora dele, porque entenderam que a ferramenta é tão boa quanto a intenção de quem a opera.
O segundo perfil, os “passageiros”, são profissionais que fazem o oposto: estes delegam o pensamento. Copiam um prompt genérico, colam a resposta do modelo em um e-mail ou relatório, fazem ajustes cosméticos e enviam. O resultado é o que os pesquisadores batizaram de “workslop”, uma palavra nova para descrever um fenômeno que qualquer pessoa que trabalha em um escritório em 2026 já reconhece: aquele e-mail desnecessariamente longo, artificialmente polido, que diz muito e comunica pouco. Aquele relatório que parece sofisticado na superfície, mas que, quando lido com profundidade, não contém nenhuma ideia original, nenhuma análise que não seja óbvia, nenhuma contribuição que justifique o tempo gasto para lê-lo. É conteúdo que existe não porque alguém pensou algo que valia a pena comunicar, mas porque alguém pediu a uma máquina que preenchesse um espaço que deveria ter sido preenchido por raciocínio.
E, de acordo com o estudo, o impacto disso já deixou de ser abstrato e pode ser mensurável. Quarenta por cento dos profissionais entrevistados afirmaram ter recebido workslop no último mês. Cerca de 15% de toda a comunicação corporativa já se encaixa nessa categoria. E quando os colegas percebem que estão recebendo texto gerado por IA disfarçado de trabalho humano, a reação não é de indiferença. Pelo contrário. Mais da metade dos entrevistados relatou sentir irritação, confusão ou ofensa. Metade passou a considerar os colegas que produzem esse tipo de conteúdo menos criativos e menos confiáveis. E um terço disse não querer mais trabalhar com eles. O workslop, nesse sentido, é um destruidor de reputações, uma vez que o profissional que usa a IA para parecer mais produtivo está, na prática, corroendo a confiança que seus colegas depositam nele, e essa erosão, uma vez percebida, é extraordinariamente difícil de reverter.
A dimensão financeira do problema é igualmente concreta. O estudo estima o que chama de “imposto invisível” do uso desatento da IA: 186 dólares por funcionário por mês em perda de produtividade, somando-se o tempo gasto por colegas lendo, interpretando e reagindo a conteúdo que não deveria existir na forma em que existe. Em uma empresa com dez mil colaboradores, o custo anual ultrapassa nove milhões de dólares. É um número que não aparece em nenhum balanço, em nenhum relatório de eficiência, em nenhum dashboard de produtividade, mas que está sendo pago, silenciosamente, por toda organização que distribuiu IA sem pensar em como ela seria usada.
E é exatamente aqui que o estudo de Stanford se conecta a algo que temos analisado ao longo das edições do Entrelinhas de formas distintas mas convergentes. Quando descrevemos, na edição sobre o executivo que vê tudo e não enxerga nada, o risco da atrofia cognitiva provocada pela delegação excessiva de pensamento à IA, estávamos descrevendo o mecanismo que produz os passageiros. Quando analisamos, na edição sobre o darwinismo profissional, a separação entre quem se adapta e quem se anestesia, estávamos descrevendo a consequência organizacional desse mesmo fenômeno. O estudo de Stanford dá nome, número e estrutura empírica a algo que a observação cotidiana já tornava visível: a IA não está substituindo profissionais, mas está acelerando a separação entre os que pensam com ela e os que param de pensar por causa dela.
Um dos achados mais reveladores do estudo, e que merece atenção especial de quem lidera equipes, é o papel do otimismo na forma como os profissionais adotam a tecnologia. Não otimismo no sentido ingênuo, mas no sentido de disposição para experimentar, errar, corrigir e integrar a ferramenta ao processo criativo sem medo de que ela substitua o valor do próprio trabalho. Os pilotos, segundo os dados, tendem a ser profissionais mais confiantes na própria capacidade, que veem a IA como extensão, não como ameaça. Os passageiros, por outro lado, tendem a adotar a postura oposta: usam a IA como atalho justamente porque não confiam que o próprio trabalho, sem o polimento da máquina, seja suficiente. A ironia é que, ao delegar o pensamento para parecer mais competente, acabam demonstrando exatamente o oposto.
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Por fim, a recomendação conclusiva dos pesquisadores para as organizações foi de que não basta as empresas distribuírem ferramentas de IA. É preciso mais. É preciso criar protocolos claros de uso, com critérios que definam quando a IA agrega valor e quando ela está apenas inflando volume. É preciso estabelecer ciclos de feedback humano que impeçam o simples copiar e colar de respostas automáticas. E, talvez mais importante do que tudo, é preciso criar uma cultura em que a transparência sobre o uso da IA seja valorizada, não punida. O profissional que diz “usei a IA para gerar um primeiro rascunho e depois reescrevi com base no que conheço do projeto” está sendo honesto e estratégico. O que cola a resposta do modelo e assina como se fosse dele está praticando algo que, no fundo, todo mundo percebe, mas ninguém sabe bem como chamar. Stanford agora deu o nome: workslop.
Assim, para quem lidera negócios, a pergunta que o estudo coloca é incômoda, mas necessária: na sua empresa, a IA está criando pilotos ou passageiros? Porque se a resposta for “não sei”, há uma boa chance de que a segunda categoria esteja crescendo silenciosamente, corroendo a qualidade da comunicação interna, inflando relatórios com volume sem substância e destruindo, interação por interação, a confiança entre colegas que é o tecido invisível de qualquer organização que funciona.
A IA é a ferramenta mais poderosa que o ambiente de trabalho já recebeu. Mas ferramentas poderosas, nas mãos erradas, não produzem resultados melhores. Produzem erros maiores, mais rápidos e mais difíceis de detectar. E o erro mais caro de todos, como Stanford deixa claro, não é usar IA de menos. É usar IA sem pensar.




Olá Paulo, boa tarde. Claro, aqui está: https://hbr.org/2025/09/ai-generated-workslop-is-destroying-productivity
Junior, como sempre, um ótimo artigo. Você teria o estudo para compartilhar?