Por muito tempo, os Estados Unidos defenderam que mercados abertos e o livre comércio seriam o caminho natural para a prosperidade. Recomendaram privatizações, abertura comercial e disciplina fiscal a países da América Latina, da Ásia e do Leste Europeu. Lideraram a construção de uma ordem econômica global baseada na premissa de que o capital deveria ir aonde encontrasse as melhores condições, sem que governos interferissem nesse fluxo além do estritamente necessário. Agora, esse mesmo governo está comprando participações em empresas privadas, direcionando dinheiro público a setores que considera estratégicos e assumindo posições acionárias em companhias de semicondutores e computação quântica. O nome é incômodo, mas preciso: estatização parcial.
Desde junho de 2025, a administração Trump acumulou 35 operações desse tipo, segundo levantamento do Cato Institute. Onze envolvem empresas de semicondutores. Nove, de computação quântica. Os instrumentos variam – desde participações minoritárias, ações, investimentos diretos –, mas o princípio mudou. O Estado deixou de atuar apenas como regulador e financiador e passou a ser, também, proprietário, investidor e, em alguns casos, parceiro direto de negócios privados. A participação na Intel e o investimento de um bilhão de dólares na Anderon, empresa ligada à IBM voltada à fabricação de chips quânticos, são os casos mais visíveis de uma tendência que se espalha por setores considerados vitais para a segurança nacional.
A justificativa imediata é geopolítica. Os Estados Unidos querem reduzir sua dependência da China em chips, minerais críticos e tecnologias emergentes. Mas por trás dessa justificativa existe uma transformação maior: a economia voltou a ser tratada como questão de poder nacional. A pergunta já não é apenas onde produzir determinado componente pelo menor preço. É quem controla a tecnologia, a fábrica e a cadeia de suprimentos quando uma crise ou um conflito interrompe o comércio. E essa pergunta não aceita a resposta que o liberalismo econômico ofereceu durante trinta anos, isto é, a de que o mercado se organizará da melhor maneira por conta própria.
O curioso é que essa lógica não é nova nos Estados Unidos. É, na verdade, mais antiga do que o liberalismo que ela substituiu. No século XIX, Henry Charles Carey, um dos economistas mais influentes da era Lincoln, se opôs à ideia de que o livre comércio beneficiaria igualmente todos os países. Na sua visão, uma economia ainda em desenvolvimento poderia ficar presa ao papel de fornecedora de matérias-primas e compradora de produtos industriais, enquanto potências já industrializadas aproveitariam sua vantagem para dominar os mercados. Carey defendia tarifas e apoio à indústria nacional como instrumentos para diversificar a produção, criar empregos e fortalecer o mercado interno. A proteção, contudo, não seria um fim em si mesma, mas serviria (e serviu) para que diferentes setores crescessem juntos e para que os trabalhadores participassem dos ganhos dessa expansão.
A história americana, portanto, não é a de um país que sempre acreditou em livre comércio e só agora resolveu intervir. Hamilton, Henry Clay, Lincoln e Carey fizeram parte de uma tradição que via tarifas, investimento público e proteção industrial como ferramentas de construção nacional. O próprio “Sistema Americano” combinava barreiras comerciais e apoio estatal à indústria com o desenvolvimento de um grande mercado interno. A ruptura veio depois: sobretudo após o fim da Guerra Fria, ocasião em que a integração econômica global ganhou força e o livre comércio passou a ser apresentado como regra, não como escolha. Assim, Washington liderou essa ordem e recomendou aos outros que fizessem o mesmo. Mas nunca abandonou inteiramente a intervenção quando seus próprios interesses estratégicos estavam em jogo.
O que vemos agora é menos o abandono repentino do liberalismo e mais a volta explícita de uma tradição que havia perdido espaço no discurso, embora nunca tenha desaparecido inteiramente da prática. É nesse contexto que o pós-liberalismo de JD Vance (vice-presidente dos EUA) ajuda a explicar a mudança de linguagem política. Para Vance e outros que compartilham essa visão, a economia não deve ser julgada apenas por sua eficiência ou pela oferta de produtos mais baratos. É preciso considerar o que acontece com os trabalhadores, as famílias e as comunidades quando fábricas fecham e empregos desaparecem. O mercado, nessa visão, é uma ferramenta – e, por sua natureza, deve estar subordinado ao bem comum.
Essa ideia se aproxima de Carey, mas não é a mesma coisa. Carey pensava a proteção industrial como parte de um projeto de desenvolvimento econômico. Vance acrescenta uma crítica mais ampla ao individualismo e à neutralidade moral do Estado. Já as participações do governo em empresas mostram a intervenção em ação, mas não provam, por si só, que os trabalhadores ou as comunidades locais serão os principais beneficiados. O Estado pode, então, ajudar a erguer uma indústria e, ainda assim, deixar os ganhos concentrados nas empresas e nos investidores. Esse é um dos riscos das estatizações parciais: se as decisões forem pouco transparentes, o governo pode favorecer companhias com acesso político, distorcer a concorrência ou assumir riscos que deveriam caber ao setor privado. O Cato Institute, que acompanha esses acordos, critica justamente a falta de clareza sobre os critérios e a base legal de algumas operações – mas ainda é fato que, de todo modo, retor industrias no seu país trazem, inevitavelmente, benefícios de soberania e melhores empregos, ou seja, mais especializados.
A pergunta, portanto, não é se o governo deve intervir. Ele já está intervindo. A questão é a serviço de quem. Se a participação pública servir para reconstruir cadeias produtivas, ampliar empregos qualificados e fortalecer a capacidade tecnológica do país, haverá um paralelo real com a ambição de Carey. Se servir para escolher empresas vencedoras sem exigir contrapartidas claras, o resultado pode ser uma forma de capitalismo de Estado que protege corporações sem entregar o prometido bem comum.
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A inteligência artificial torna esse debate mais urgente do que qualquer teoria econômica, isoladamente, conseguiria torná-lo. A disputa pela IA não envolve somente quem terá o melhor modelo ou o aplicativo mais popular. Depende de quem controla os chips, os minerais, as fábricas e a energia necessários para desenvolver e operar essa tecnologia. Cada data center construído, cada fábrica de semicondutores financiada e cada reserva de terras raras assegurada é uma peça em um tabuleiro onde vantagem tecnológica e poder nacional se tornaram praticamente sinônimos. Deste modo, a corrida da IA não está apenas trazendo o Estado de volta para dentro da economia, mas está, de fato, trazendo o Estado de volta para dentro da empresa – como financiador, como parceiro e, agora, como acionista.
A grande mudança não é que os Estados Unidos tenham deixado de acreditar no mercado. É que já não parecem dispostos a deixar que o mercado global decida sozinho o que o país deve produzir e quem controlará as tecnologias do futuro. Sob a pressão da China e da revolução da IA, Washington está redescobrindo uma velha convicção que Carey articulou há quase dois séculos: um país que não protege sua capacidade produtiva pode acabar dependendo de quem o faz. A ironia é que essa convicção, durante décadas, foi exatamente o que os Estados Unidos disseram ao resto do mundo para ignorar.




