Mounjaro pra Cachorro, Terafab, IA Cria Vírus e TikTok Troca Moderadores por IA
Bom dia! Hoje é 7 de agosto. Neste mesmo dia, em 1944, a Universidade Harvard e a IBM inauguravam o Mark I, um computador eletromecânico de 15 metros de comprimento e 5 toneladas de peso que fazia três somas por segundo. A máquina não pensava, apenas seguia instruções. Mas a fronteira que ela cruzou naquele dia mudou o mundo: pela primeira vez, uma tarefa que sempre exigiu um cérebro humano passou a ser executada por uma máquina que não tinha nenhum.
Oitenta e dois anos depois, as fronteiras que as máquinas cruzam são incomparavelmente mais consequentes. Uma inteligência artificial aprende a gramática do DNA e projeta, sozinha, vírus funcionais. Uma startup brasileira aplica a lógica das canetas emagrecedoras humanas a cachorros obesos. Elon Musk anuncia a maior fábrica de chips da história porque suas ambições exigem mais silício do que o planeta produz. E o TikTok demite seu time de moderação porque o algoritmo já faz o trabalho que os humanos faziam, embora ninguém saiba se faz com a mesma sensibilidade. Em todos os casos, a pergunta é a mesma que o Mark I suscitou em 1944: onde está a fronteira entre o que só humanos podem fazer e o que máquinas já fazem melhor? E, a cada notícia, essa fronteira se move.
O Mounjaro Agora É para Cães
Roberto Funari, que foi CEO da Alpargatas entre 2019 e 2023, largou os chinelos e foi para o mundo pet. Sua nova empresa, a Wigow, lançará em setembro um suplemento de controle de peso para cães, um “Mounjaro” para cachorros, que já conta com cerca de 40 mil tutores na fila de espera e uma meta de faturamento de R$ 1 bilhão em três anos. O produto em si não é um medicamento, ele é, na verdade, um tipo de suplemento nutricional desenvolvido exclusivamente para cachorros, com ingredientes que promovem saciedade e auxiliam a aceleração do metabolismo dos pets que o consumirem. Mesmo assim, a comparação com o Mounjaro é inevitável, proposital e, para a estratégia da marca, indispensável, afinal, a epidemia de obesidade que transformou as canetas emagrecedoras no maior mercado farmacêutico do mundo chegou aos pets, e alguém decidiu que a projeção para 2029 de R$ 7 bilhões para o mercado brasileiro de novos suplementos caninos são lucrativos o suficiente para justificar a aposta.
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O dado real que sustenta essa aposta é menos farmacológico e mais sociológico. Segundo a USP, mais de 40% dos cães em São Paulo apresentam sobrepeso ou obesidade. O Brasil possui cerca de 160 milhões de pets, a terceira maior população do mundo. E a tendência que torna tudo isso economicamente viável não é a obesidade em si, mas é a humanização dos animais de estimação. À medida que as famílias têm menos filhos e tratam seus pets como membros efetivos, elas transferem para eles uma parcela crescente do cuidado, do afeto e dos gastos que antes eram reservados a crianças. Com isso, suplementação, planos de saúde, monitoramento genético, medicina preventiva… mercados consolidados na saúde humana começam a migrar para o universo pet pela mesma razão que a Novo Nordisk lançou o NovoCare Farmácia no Brasil: onde há afeto, há disposição para gastar. E onde há disposição para gastar, há mercado.
A Entrelinha mais reveladora do caso, contudo, é a que conecta essa notícia ao arco que acompanhamos há semanas. As canetas emagrecedoras estão redesenhando cadeias inteiras da economia: derrubaram o preço global do açúcar, alteraram a equação do etanol, impulsionaram a proteinificação do consumo e forçaram gigantes como Ambev e Nestlé a reformular seus produtos. Agora, a mesma lógica – a da saciedade como produto, e do controle de peso como serviço – cruza a fronteira entre espécies.
Quando o efeito cascata de uma classe de medicamentos vai da farmácia humana à ração canina, o que se observa não é mais uma tendência de saúde, mas é, definitivamente, uma transformação cultural cuja força econômica não respeita fronteiras entre biologia humana e animal.
Musk Constrói a Maior Fábrica de Chips da Terra
A Tesla e a SpaceX anunciaram que a Terafab, a fábrica de semicondutores que estão desenvolvendo em conjunto, será construída no condado de Grimes, no Texas, com um investimento inicial de US$ 16,8 bilhões. A instalação, que Musk descreveu como “de longe o maior e mais valioso edifício da Terra”, terá mais de 9 milhões de metros quadrados de espaço de produção e a Intel já confirmou participação no projeto. A SpaceX sugeriu em documentos que pode investir até US$ 119 bilhões ao longo de um plano multifásico de construção, embora não tenha mencionado a Terafab na teleconferência de resultados desta semana, cujos números, como cobrimos, mostraram que a divisão de IA da empresa opera com prejuízo bilionário.
A motivação por trás da Terafab é a mesma que levou a OpenAI a criar o Jalapeño, a Anthropic a negociar com a Samsung e a DeepSeek a projetar seu próprio chip: quem depende de silício alheio para operar depende de preços, prazos e prioridades que não controla. Mas a escala que Musk propõe é de outra ordem. A Terafab não é um chip customizado para uma tarefa específica, mas ela é uma fábrica inteira, projetada para produzir semicondutores otimizados para os robôs Optimus da Tesla, os Cybercabs autônomos e os data centers orbitais da SpaceX. A visão de Musk exige mais poder computacional do que o planeta oferece hoje, e em vez de esperar que o mercado o forneça, ele decidiu construir a fonte.
A questão que o mercado deveria se fazer, e que os resultados da SpaceX desta semana tornaram impossível de ignorar, é de onde virá o dinheiro. A SpaceX queima US$ 16 bilhões por trimestre na divisão de IA, algo que se continuar, esgotaria o caixa do IPO em 18 meses e suas ações já caíram abaixo do preço de estreia. A Tesla, por sua vez, viu suas ações subirem após o anúncio, porque investidores interpretaram a Terafab como sinal de que a integração vertical aceleraria o Optimus e o Cybercab.
O contraste é revelador, pois o mercado celebra a ambição de construir e pune a realidade de pagar por ela. E US$ 119 bilhões em investimento projetado para uma fábrica que ainda não existe, anunciados por um empresário cujas promessas costumam se materializar em prazos muito mais longos do que os anunciados, devem ser lidos com o mesmo cuidado que aplicamos a qualquer compromisso fora de balanço – com entusiasmo pela visão e cautela pela conta.
A Inteligência Artificial Aprendeu a Criar Vírus
Pela primeira vez, uma inteligência artificial projetou o genoma completo de um vírus funcional – não um fragmento genético isolado, mas o conjunto inteiro de instruções que permite ao organismo se reproduzir e infectar um hospedeiro. Pesquisadores de Stanford e do Arc Institute publicaram na Science os resultados de um experimento em que um modelo de IA chamado Evo, treinado sobre o material genético de milhões de organismos, gerou centenas de milhares de propostas de genomas virais. Desses, quase 300 foram sintetizados em laboratório e testados. Dezesseis funcionaram: infectaram bactérias, se replicaram e destruíram seus hospedeiros, exatamente como um vírus natural faria.
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O funcionamento do Evo segue a mesma lógica que o ChatGPT ou o Claude usam para gerar texto, ou seja, em vez de prever a próxima palavra de uma frase, o modelo aprendeu a prever a próxima “letra” do DNA – as bases A, C, G e T que compõem o código genético. Alimentado com genomas de milhões de organismos, o sistema absorveu as regras que fazem um gene funcionar corretamente ao lado do outro, sem que ninguém as ensinasse explicitamente. É como se a IA tivesse aprendido a gramática da vida observando exemplos, da mesma forma que uma criança aprende a falar ouvindo frases antes de conhecer qualquer regra gramatical. O resultado mais surpreendente, porém, foi outro: quando os vírus artificiais foram expostos a bactérias que já haviam desenvolvido resistência ao vírus natural equivalente, uma combinação dos vírus gerados pela IA conseguiu vencer essa resistência, algo que vírus naturais similares não conseguiram.
A implicação é disso é, portanto, dupla, e as duas faces são igualmente consequentes. De um lado, a tecnologia abre um caminho promissor para o combate a infecções resistentes a antibióticos, um dos maiores problemas da medicina contemporânea: projetar vírus sob medida que atacam bactérias específicas sem afetar o paciente. Do outro, a mesma capacidade que permite projetar vírus benéficos pode, em tese, ser direcionada a projetar patógenos perigosos, algo que os próprios pesquisadores reconhecem, tendo excluído deliberadamente do treinamento qualquer material genético de vírus que infectam humanos.
A distância entre um vírus inofensivo criado em laboratório e um patógeno humano projetado por IA é ainda enorme, mas a fronteira conceitual foi cruzada: uma máquina aprendeu a escrever um código genético funcional. E, como toda fronteira cruzada na história da tecnologia, a questão não é se alguém tentará ir mais longe; é quando, e com que salvaguardas.
O TikTok Troca Moderadores Humanos por Algoritmos
O TikTok fechará seu escritório em Nashville e demitirá todas as 250 pessoas que trabalham ali, incluindo parte do time de moderação de conteúdo – os profissionais que filtram vídeos violentos, explícitos e potencialmente perigosos antes que cheguem ao feed dos usuários. A empresa não atribuiu os cortes explicitamente à inteligência artificial, mas o padrão é inconfundível: nos últimos dois anos, o TikTok já eliminou centenas de posições de moderação em Dublin e em outros escritórios pelo mundo, à medida que transferia o trabalho para sistemas automatizados.
A moderação de conteúdo é, entre todas as funções corporativas, a mais visível vítima da automação, porque é imensa, cara, traumática para quem a executa e, aparentemente, replicável por algoritmos que já sinalizam a maior parte do material problemático.
O “aparentemente” é onde mora o risco. Moderar conteúdo em escala é uma tarefa que exige não apenas reconhecimento de padrões – algo que a IA faz bem – mas o julgamento contextual, a sensibilidade cultural e a capacidade de distinguir entre ironia e ameaça, arte e violência, protesto e incitação. Um vídeo de guerra pode ser jornalismo ou propaganda. Um comentário sarcástico pode ser humor ou assédio. A diferença entre os dois depende de nuances que algoritmos, treinados sobre padrões estatísticos, capturam com uma eficiência que cai à medida que o contexto se torna mais ambíguo.
Assim, quando o TikTok demite moderadores humanos e confia essas decisões à IA, a plataforma ganha em escala e custo, mas perde a camada de julgamento que, em muitos casos, é a única barreira entre um conteúdo aceitável e um conteúdo que pode causar dano real a pessoas reais.
O timing dos cortes adiciona uma camada de complexidade. Os demissões acontecem numa empresa que ainda está se reestruturando após a ByteDance, sua controladora chinesa, ter desmembrado a operação americana em janeiro para cumprir a lei que a obrigava a vender o negócio ou enfrentar banimento nos Estados Unidos. Demitir moderadores enquanto se tenta provar ao governo americano que a plataforma é segura e responsável é, no mínimo, uma contradição. E, no máximo, é a confirmação de que, para as empresas de tecnologia, a pressão de custos fala mais alto do que a pressão regulatória – e que a IA, mesmo quando reconhecidamente imperfeita para a tarefa, será adotada porque custa menos, não porque funciona melhor.







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