Bom dia! Hoje é 10 de setembro. Neste mesmo dia, em 2008, o CERN ativava pela primeira vez o Grande Colisor de Hádrons, a máquina mais cara já construída pela humanidade, um anel subterrâneo de 27 quilômetros de circunferência, instalado a cem metros de profundidade sob a fronteira entre a Suíça e a França, que custou mais de US$ 13 bilhões e levou mais de uma década para ser projetado e montado. O objetivo era encontrar uma partícula que ninguém jamais havia observado, mas que os modelos teóricos previam que deveria existir: o bóson de Higgs, batizado pela imprensa de “partícula de Deus”. Quatro anos depois, em 2012, a partícula foi encontrada. A teoria era real.
Dezoito anos depois, a indústria de tecnologia conduz seu próprio experimento trilionário, e os resultados começam a chegar. Os gastos globais com infraestrutura de IA são a versão corporativa do Grande Colisor: investimentos colossais feitos sob a premissa de que algo que os modelos teóricos preveem (a inteligência artificial como motor de produtividade, receita e transformação) de fato existe em escala comercial. Os primeiros sinais desta semana apontam em direções que não se alinham tão facilmente quanto os investidores gostariam. A Apple lança seu primeiro iPhone dobrável e testa se a era Ternus começa com a mesma capacidade de redefinir categorias que a era Jobs inaugurou. Os gastos com IA por funcionário nas maiores empresas do mundo caíram quase 10% em agosto, levantando a pergunta que ninguém quer fazer: e se a adoção estiver desacelerando? Michael Dell se torna a segunda pessoa mais rica do mundo porque a Dell Technologies se reinventou como fornecedora de servidores de IA, provando que, nesta corrida, quem monta o rack pode lucrar mais do que quem programa o modelo. E o Brasil regulamenta seu próprio mensageiro criptografado para uso governamental, porque o Estado concluiu que manter conversas sensíveis em plataformas controladas por empresas estrangeiras é uma vulnerabilidade que não pode mais aceitar.
O iPhone Dobra pela Primeira Vez: a Era Ternus Começa
A Apple apresentou nesta quarta-feira o iPhone Duo, seu primeiro celular dobrável e o primeiro produto de destaque lançado sob a gestão de John Ternus como CEO. O dispositivo, descrito pela empresa como “inspirado na versatilidade do iPad”, abre horizontalmente para oferecer uma tela contínua que funciona tanto no modo convencional quanto no modo paisagem, com uma experiência que tenta borrar a fronteira entre celular e tablet. O iPhone 18 Pro foi apresentado no mesmo evento, mas era o Duo que a plateia (e o mercado) esperava. Ternus, que assumiu o cargo há oito dias, fez do dobrável o gesto inaugural de sua gestão: a Apple que Cook protegeu com disciplina agora precisa, sob Ternus, provar que ainda sabe surpreender.
O timing é revelador tanto pelo que a Apple faz quanto pelo que deixou de fazer. Samsung e Huawei vendem dobráveis desde 2019, ou seja, são sete anos de vantagem em iterações de design, fornecedores de tela flexível e experiência de usuário com dobradiças. E, mesmo assim, os dobráveis nunca ultrapassaram um dígito percentual de participação no mercado global de smartphones. O formato ficou preso num paradoxo: era avançado demais para ser acessível e não era transformador o suficiente para justificar o preço premium. A Apple aposta que sua entrada muda essa equação, não pela tecnologia em si, que se beneficia de anos de avanços na cadeia de suprimentos que Samsung e Huawei financiaram, mas pela capacidade histórica da empresa de pegar uma categoria que existe e fazê-la parecer que acabou de ser inventada.
A Entrelinha mais reveladora do lançamento, porém, não está no produto, mas está no preço. O iPhone Duo custará o equivalente a quase 14 meses de salário-mínimo no Brasil, praticamente um ano inteiro de renda de quem ganha o piso. É o tipo de dado que transforma o produto de um tipo de aspiracional em inacessível para a esmagadora maioria da população, e que, nas Entrelinhas, diz algo sobre o mercado que a Apple de fato persegue. O iPhone Duo não é feito para democratizar o dobrável. É feito para demonstrar que a Apple sob Ternus continua capaz de definir o topo do mercado, e que a categoria que Samsung e Huawei criaram mas não conseguiram escalar pode ganhar tração quando o logotipo certo aparece na dobradiça.
Se a IDC estiver certa ao projetar que a Apple capturará 40% do mercado de dobráveis até o final do próximo ano, o Duo será a prova de que a marca ainda vale mais do que a especificação técninca do aparelho. E essa prova, para a era Ternus, vale mais do que qualquer venda unitária.
Os Gastos com IA Estão Desacelerando, e Isso Importa
Os dados de agosto da Ramp, plataforma de pagamentos corporativos que monitora os gastos de mais de 70 mil empresas americanas, mostram que a adoção de ferramentas de IA praticamente estagnou no mês passado: apenas 56% dos clientes pagaram por produtos de IA, um crescimento de 0,4% em relação a julho. Mais preocupante do que a estagnação geral é o que aconteceu no topo da pirâmide: entre o 1% das empresas que mais gastam com IA, o investimento por funcionário caiu quase 10%, para pouco mais de US$ 7 mil. É possível que agosto, com o resquício das férias corporativas, explique parte da queda. Mas há sinais que as férias não explicam, e que dialogam diretamente com o que temos acompanhado ao longo de meses nestas edições.
O primeiro sinal é a deflação de preços. O custo médio por milhão de tokens caiu de US$ 1,15 em março para US$ 0,68 em agosto, uma queda de 41% em cinco meses, provocada pela guerra de preços entre OpenAI e Anthropic, pela pressão dos modelos chineses (que custam, no extremo, 99% menos que os tradicionais americanos) e pela decisão de muitos clientes corporativos de migrar para versões mais antigas e mais baratas dos modelos, como o GPT-5.6-Terra e o Claude Sonnet, em vez de pagar pelo estado da arte.
Isso demonstra que os laboratórios ainda não conseguiram compensar a queda de preço - seu “desconto” nos tokens - com um aumento proporcional de volume de assinaturas, o que significa que eles vendem até mais tokens, mas faturam menos por unidade vendida. É a mesma dinâmica de commoditização que, como escrevemos, produz a imagem de um fosso construído na entrada da fábrica enquanto o produto que sai dela vale cada vez menos.
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O segundo sinal é que, apesar de toda a narrativa sobre modelos abertos ameaçando os laboratórios de fronteira, apenas 6,4% das empresas que investem em IA usam plataformas de inferência de modelos abertos. O número cresce, mas não na velocidade que o entusiasmo com a DeepSeek e o Kimi K3 sugeria. E os clientes corporativos, quando optam por modelos abertos, tendem a fazê-lo não por convicção ideológica, mas por economia, o que reforça o argumento de que a competição neste mercado será decidida por preço, não por capacidade. Para OpenAI e Anthropic, que se preparam para IPOs que dependem de provar suas receitas recorrentes crescentes, os dados de agosto não são uma sentença, mas são um lembrete de que a adoção de IA nas empresas não é uma linha reta ascendente. É, na verdade, uma curva que oscila, que responde a preços, que depende de ciclos orçamentários, e que pode se estabilizar num patamar muito abaixo do que as projeções trilionárias presumem.
O Grande Colisor encontrou o bóson de Higgs. A indústria de IA ainda está procurando o seu, e os dados de agosto sugerem que a busca pode demorar mais do que a paciência dos investidores.
Michael Dell É o 2º Mais Rico do Mundo, e a IA Explica Tudo
Michael Dell se tornou a segunda pessoa mais rica do planeta, com patrimônio estimado em US$ 273 bilhões, ultrapassando Larry Page, cofundador da Alphabet, e ficando atrás apenas de Elon Musk. Tal fato ocorre num cenário em que as ações da Dell Technologies subiram 327% desde o início do ano, impulsionadas por uma transformação que, há três anos, parecia improvável: a empresa que o mundo associava a computadores pessoais baratos se reinventou como uma das principais fornecedoras de servidores otimizados para inteligência artificial, o tipo de infraestrutura pesada que treina e executa os modelos que o planeta inteiro consome.
Os resultados do último trimestre sustentam a narrativa com números que dispensam adjetivos: receita de US$ 47 bilhões, alta de 58%, com uma carteira de pedidos de IA de quase US$ 100 bilhões - uma demanda contratada que a empresa ainda não entregou e que representa mais de um ano de produção no ritmo atual. A Dell se posicionou, com astúcia, no espaço entre a Nvidia (que fabrica os chips) e os hyperscalers (que operam os data centers): ela monta, configura e entrega os racks de servidores que conectam os dois, o equivalente a ser o empreiteiro que constrói a casa cujo terreno pertence a um e cujo material vem de outro. E, como todo bom empreiteiro sabe, quando a demanda explode e ninguém mais tem capacidade de entregar no prazo, quem monta a casa captura uma parcela desproporcional do valor gerado em todo o processo.
*Um rack de IA é uma estrutura de servidores altamente especializada e densa, projetada para abrigar o hardware de computação de alto desempenho necessário para treinar e executar modelos de inteligência artificial.
A ascensão de Dell ao segundo lugar da lista da Forbes é, nas Entrelinhas, a confirmação mais eloquente de uma tese que percorre estas edições desde julho: na cadeia de valor da inteligência artificial, o valor está migrando do software para o hardware, do modelo para a infraestrutura, do código para o ferro. A Nvidia lucra US$ 60 bilhões por trimestre fabricando chips. A Micron triplicou de valor fabricando memória. A Samsung registrou lucro 250 vezes maior na divisão de semicondutores. E agora a Dell, que nenhum analista de IA citaria como protagonista da revolução há dois anos, se torna a segunda maior fortuna do mundo porque monta os servidores onde os modelos rodam. A revolução da IA prometia que o poder estaria no código. Por enquanto, o poder está no rack.
O Brasil Cria Seu Próprio WhatsApp, Para Não Depender do Alheio
A Agência Brasileira de Inteligência regulamentou o MSG Gov, um aplicativo de mensagens criptografado desenvolvido pelo Serpro em parceria com a Universidade Federal do Ceará, projetado para substituir o WhatsApp e o Telegram nas comunicações entre órgãos do governo federal. A ferramenta já está em operação na Casa Civil, no GSI, no Itamaraty, na Polícia Federal, na Polícia Rodoviária Federal, no Banco Central, na Anatel, no Coaf, no Ibama e em outros integrantes do Sistema Brasileiro de Inteligência. O aplicativo oferece mensagens de texto, chamadas de voz e vídeo em grupo, ferramentas de auditoria e um painel de gerenciamento, funcionalidades que, individualmente, qualquer mensageiro comercial oferece. A diferença é quem controla o servidor, quem detém as chaves de criptografia e sob qual jurisdição os dados são armazenados: o governo.
A decisão se insere numa estratégia de soberania digital que o governo brasileiro vem construindo em múltiplas frentes: a criação de cargos de especialista em infraestrutura de IA, os estudos para construir um data center estatal, a assinatura do acordo de governança de IA com a China e agora a regulamentação de um mensageiro próprio para comunicações sensíveis. A lógica que conecta todas essas iniciativas é a mesma: quando o governo brasileiro troca mensagens pelo WhatsApp, ele está usando uma infraestrutura cujas chaves de criptografia pertencem à Meta, cujos servidores operam sob jurisdição americana e cujos dados podem, em tese, ser requisitados por autoridades estrangeiras sob leis como o Cloud Act. O MSG Gov não resolve todos esses problemas, mas remove o mais visível, que é a dependência de uma plataforma que o próprio governo não controla para comunicações que, por definição, deveriam ser soberanas.
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A ambição declarada é que o MSG Gov se torne, eventualmente, a ferramenta oficial de comunicação de toda a administração pública federal, e não apenas da comunidade de inteligência. Se concretizada, a transição representaria a maior migração de comunicação governamental no Brasil desde a adoção massiva do e-mail nos anos 2000. Mas a distância entre a ambição e a realidade é considerável: o WhatsApp está instalado em mais de 99% dos smartphones brasileiros, e a resistência à mudança em burocracias governamentais não deve ser subestimada. A questão, contudo, transcende a conveniência. Quando bancos centrais da Holanda e da França retiram seu ouro dos Estados Unidos porque não confiam mais em manter ativos sob jurisdição americana, como cobrimos na terça, e quando o governo brasileiro cria um mensageiro próprio porque não quer que suas conversas passem por servidores que não controla, o que se observa é um padrão global em que a soberania digital deixou de ser conceito acadêmico e se tornou uma efetiva política pública. O ouro volta para casa. As mensagens também. E a confiança que sustentava o sistema em que cada um guardava suas coisas no cofre do outro está, silenciosamente, sendo revogada.







