Bom dia! Hoje é 1º de setembro. Neste mesmo dia, em 1715, morria em Versalhes Luís XIV, o Rei Sol, após 72 anos no trono francês, o reinado mais longo da história da Europa. Luís não governou apenas pela força, embora a tivesse de sobra. Governou por absorção: trouxe a nobreza inteira para dentro de Versalhes, onde podia vigiá-la, seduzi-la e controlá-la ao mesmo tempo. Cada duque que se instalava no palácio deixava de ser uma ameaça em sua própria província e se tornava um cortesão dependente dos favores do rei. O poder de Luís não cresceu eliminando rivais; cresceu fazendo com que os rivais operassem dentro do seu ecossistema.
Trezentos e onze anos depois, a estratégia do Rei Sol é, possivelmente, a melhor metáfora para o que a Nvidia está fazendo com a indústria de inteligência artificial. As notícias de hoje contam, cada uma à sua maneira, a mesma história de absorção: empresas que expandem seu domínio não pela eliminação dos concorrentes, mas pela integração deles ao próprio ecossistema. A Nvidia investe US$ 3,5 bilhões na MediaTek para garantir que os chips personalizados que seus clientes constroem continuem falando a língua da Nvidia. A OpenAI transforma seu bilhão de usuários em audiência publicitária, absorvendo o modelo de negócio que sempre sustentou o Google e a Meta. A Eli Lilly usa os lucros recordes das canetas emagrecedoras para comprar mais uma empresa de biotecnologia, expandindo seu portfólio para doenças autoimunes com a mesma voracidade com que conquistou a obesidade. E a China investe US$ 20 bilhões para colocar milhões de robôs em suas fábricas, absorvendo a manufatura global numa escala que o restante do mundo não consegue acompanhar. Em todos os casos, o padrão é o mesmo de Versalhes: o poder não cresce conquistando território, mas cresce fazendo com que todo o território funcione segundo as suas regras.
A Nvidia e Seu Império
A Nvidia investiu US$ 3,5 bilhões na taiwanesa MediaTek, uma das maiores fabricantes de chips do mundo, num acordo que dá à empresa asiática acesso à tecnologia NVLink Fusion, um tipo de protocolo que permite que qualquer chip, mesmo que não seja da Nvidia, se comunique diretamente com os processadores e a infraestrutura de data center da empresa americana. Em troca, a MediaTek passará a projetar chips personalizados para clientes de IA e hiperescaladores que poderão ser conectados, sem atrito, à plataforma que a Nvidia já domina. É, na essência, o mesmo movimento que fez com o Groq: a Nvidia não precisa fabricar todos os chips do mundo, mas precisa apenas garantir que todos os chips do mundo falem a sua língua.
A lógica por trás do investimento responde diretamente à maior ameaça que a Nvidia enfrenta neste momento, e que o mercado tem acompanhado ao longo de meses: praticamente todos os seus maiores clientes, desde a OpenAI à, mais recentemente, Apple, desenvolvem chips próprios para reduzir a dependência das GPUs da Nvidia. O Jalapeño da OpenAI, as TPUs do Google, os Trainium da Amazon, as negociações da Anthropic com a Samsung… cada um desses projetos é um passo em direção à autonomia de silício. A Nvidia, nesse cenário, não pode efetivamente impedir que seus clientes construam alternativas, mas pode garantir que essas alternativas precisem do NVLink para funcionar em escala, e que, ao funcionar, gerem demanda adicional pelo ecossistema da Nvidia em vez de substituí-lo. É a estratégia de Luís XIV aplicada ao mundo dos chips: se o nobre vai construir seu próprio castelo, que ao menos o construa dentro de Versalhes.
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O acordo com a MediaTek se soma à parceria anunciada na semana passada com a AWS, que implantará mais 2 milhões de GPUs da Nvidia e também integrará o NVLink Fusion, à proposta de compra da Hugging Face por US$ 12,9 bilhões, à absorção da tecnologia da Groq, e aos mais de US$ 1,35 trilhão em compromissos financeiros que a Nvidia acumulou ao longo deste ano. O padrão que surge é, portanto, o de uma empresa que deixou de ser fabricante de chips e se tornou a nova arquiteta de um ecossistema, onde, a cada investimento, a cada parceria e a cada aquisição, torna mais caro, mais difícil e mais irracional para qualquer cliente operar fora dele. Jensen Huang disse na última teleconferência que “basicamente todas as nuvens, todos os criadores de modelos estão implementando nossa plataforma de alguma forma”. A frase, lida nas Entrelinhas, é a declaração de um monarca que já não precisa conquistar, porque todos os que importam já moram no palácio.
A Outra Face do Modelo de Negócio da OpenAI
A OpenAI anunciou que o ChatGPT Ads, seu negócio de publicidade, atingiu US$ 1 bilhão em receita anualizada. Os anúncios, que começaram como testes nos Estados Unidos no início do ano, agora se expandem para Índia, Europa, Oriente Médio e Norte da África por meio de um Ads Manager próprio que já atrai pequenas e médias empresas como anunciantes. Os anúncios são exibidos para usuários do plano gratuito e do OpenAI Go, que representam a vasta maioria da base de um bilhão de usuários ativos semanais da plataforma de IA. O marco de US$ 1 bilhão é apresentado pela empresa como prova de um “modelo de negócios diversificado”, e, nas Entrelinhas, como mais uma linha de receita para justificar a avaliação de US$ 852 bilhões que o IPO precisará sustentar.
A decisão de vender anúncios é, simultaneamente, a coisa mais previsível e mais reveladora que a OpenAI poderia fazer. Previsível porque toda plataforma com um bilhão de usuários acaba monetizando atenção, o próprio Google fez isso com a busca, a Meta fez com o feed, o YouTube fez com o vídeo, e o TikTok está fazendo com tudo ao mesmo tempo. Com a IA não seria diferente. Reveladora porque expõe o limite do modelo de assinatura: cobrar US$ 20 ou US$ 200 por mês de quem paga não é suficiente para cobrir uma operação que, como vem sendo demonstradora por todas as fornecedoras de modelos, queima mais caixa do que gera, haja vists que a própria OpenAI faturou cerca de US$ 25 bilhões no último ano e queimou US$ 27 bilhões. A publicidade não fecha essa conta sozinha, mas reduz a pressão, e, mais importante, abre um caminho de receita que escala com a base de usuários em vez de depender exclusivamente do preço por assinatura.
A ironia é que a Anthropic, principal rival da OpenAI, transformou a decisão de vender anúncios no alvo de sua primeira campanha no Super Bowl, ridicularizando a ideia de que um chatbot de IA deveria exibir publicidade. A Anthropic se posiciona como a alternativa de IA “limpa”, sem anúncios, focada exclusivamente na qualidade do modelo e na segurança. Mas a Anthropic também acumulou US$ 42 bilhões em prejuízo e se prepara para um IPO onde precisará provar que seu modelo de negócio é sustentável sem publicidade. A pergunta que o mercado fará, e que, no fundo, é a pergunta que define toda a economia da IA neste momento, é se o futuro pertence a quem cobra caro e entrega qualidade, ou a quem distribui de graça e monetiza a atenção. O Google e a Meta já responderam a essa pergunta. A OpenAI está respondendo agora. E a Anthropic aposta que a resposta dessa vez será diferente. Será mesmo?
A Eli Lilly Usa o Dinheiro do Mounjaro para Comprar Outra Empresa
A Eli Lilly anunciou a aquisição da Merida Biosciences por até US$ 2,9 bilhões, a mais recente numa sequência de compras que transforma os lucros recordes das canetas emagrecedoras em planejamentos farmacêuticos de longo prazo. A Merida desenvolve tratamentos para doenças autoimunes, com foco num medicamento chamado MER511, voltado à doença de Graves e à doença ocular da tireoide, condições para as quais os tratamentos atuais não atacam os anticorpos que de fato causam o problema. Se aprovado, o MER511 seria o primeiro a fazê-lo, o que explica o interesse da Lilly e o preço que está disposta a pagar por uma empresa em fase inicial de desenvolvimento clínico.
A aquisição é o terceiro grande movimento da Eli Lilly em seis meses: em fevereiro, comprou a Orna Therapeutics por US$ 2,4 bilhões para terapias autoimunes baseadas em células B; em maio, investiu quase US$ 4 bilhões em desenvolvedoras de vacinas; e, em julho, fechou a compra da AtaiBeckley por US$ 3,8 bilhões para entrar no mercado de terapias psicodélicas para depressão. Somadas, as aquisições ultrapassam US$ 13 bilhões em menos de um ano, todas financiadas pelo caixa gerado pelo Mounjaro e pelo Zepbound, os medicamentos que, como temos acompanhado nos últimos anos, estão redesenhando mercados que vão muito além da farmácia.
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A estratégia da Lilly é a de uma empresa que entendeu que a janela do GLP-1 é extraordinária, mas não eterna. A tirzepatida gerou a maior parte da receita dos últimos trimestres, e sua respectiva proteção patentária se estende até 2036, mas sua concorrente mais direta, a Novo Nordisk, já enfrenta cinco concorrentes genéricos no Brasil, dando a Lilly o sinal de por onde ela deve seguir após as perdas das patentes. A Lilly está usando o pico de caixa gerado pela obesidade para construir, peça por peça, um portfólio diversificado que sobreviva ao dia em que o Mounjaro não for mais a fonte dominante de receita. É a versão farmacêutica do conselho mais antigo do capitalismo: não guarde todo o dinheiro no mesmo lugar. E US$ 13 bilhões em aquisições sugerem que a Lilly leva o conselho a sério.
A China Constrói um Exército de Robôs
Mais de dois milhões de robôs já operam dentro das fábricas chinesas, mais do que em qualquer outro país do mundo, e o número cresce a um ritmo que a maioria dos analistas ocidentais subestimou. O plano de Xi Jinping de investir US$ 20 bilhões para colocar a China na vanguarda da robótica industrial, mais do que um projeto de pesquisa, é uma reorganização da base manufatureira da segunda maior economia do planeta, conduzida com a mesma disciplina que transformou o país no maior produtor mundial de painéis solares, baterias, veículos elétricos e, agora, chips de memória. A China já fabrica mais da metade dos robôs industriais do mundo. Os braços que soldam, pintam, içam cargas e montam peças nas fábricas de Chengdu e Hangzhou trabalham sem pausa, sem benefício trabalhista e sem reclamar, e alguns deles já são projetados para construir outros robôs.
A urgência por trás da automação não é apenas competitiva, mas é também demográfica. Até 2035, mais de um terço da população chinesa terá mais de 60 anos. O país perderá quase 60 milhões de habitantes na próxima década, um número equivalente à população da França. E cerca de 120 milhões de pessoas ainda trabalham no setor manufatureiro, muitas delas em funções repetitivas que um braço robótico de US$ 20 mil já executa com mais precisão e menos custo. A automação não é, para Pequim, uma escolha estratégica entre eficiência e emprego; é, de fato, uma necessidade imposta pelo envelhecimento de uma população que, sem robôs, simplesmente não terá mãos suficientes para manter as fábricas funcionando (assim como boa parte do Ocidente).
A China está, portanto, construindo um ecossistema completo para sustentar seu avanços tecnológicos que se expandem para todas as áreas do mercado: escolas técnicas que formam engenheiros desde os 15 anos, cadeia de suprimentos que fornece componentes em menos de uma hora, e uma base industrial que, como uma analista citada pela BBC resumiu, permite fabricar um robô em Shenzhen em um dia, enquanto, na Europa, o mesmo processo leva uma semana. A vantagem que o Ocidente ainda mantém, segundo os próprios chineses, é no “cérebro”, com a inteligência artificial que programa os robôs. Mas a distância nessa frente, como a DeepSeek e a Moonshot demonstraram, está encolhendo mais rápido do que qualquer embargo conseguiu impedir. E quando os robôs que a China constrói encontrarem o cérebro que a China treina, possivelmente veremos uma revolução industrial que nenhuma tarifa conseguirá deter.






