Na semana passada, durante um podcast, Sam Altman fez três observações pontuais de um CEO refletindo sobre o estado do seu mercado. Afirmações aparentemente simples e que, provavelmente, não sairão em mídia de grande porte alguma. Entretanto, enquanto eu as ouvia, pude entender onde, nas Entrelinhas, ele estava querendo chegar e, por isso mesmo, achei justo vim compartilha-las como vocês, pois eu acredito que elas, juntas, nos dão uma leitura sobre o momento em que a inteligência artificial vivendo.
A primeira é que a IA ainda está esperando o que ele chamou de “seu momento iPhone”. Altman comparou a fase atual a uma época que nós, que vivemos os anos 2000, reconhecemos com clareza: o período em que smartphones já existiam, mas ainda não haviam se tornado aquilo que o iPhone os transformaria. Quem viveu os anos anteriores a 2007 sabe que o conceito de um computador de bolso não era novo. Já existiam muitos aparelhos, como a Palm Treo, os dispositivos com Windows CE, os aparelhos da Nokia com Symbian… e todos nos permitiam checar e-mails, navegar na internet, mesmo que de forma rudimentar, e rodar aplicativos básicos.
Mas eram ferramentas de nicho, usadas por entusiastas e profissionais de tecnologia, e a experiência de utilizá-los era, na melhor das hipóteses, funcional, nunca fluida, nunca intuitiva, nunca algo que uma pessoa comum escolheria usar por prazer. O iPhone, surgindo e ascendendo nesse cenário, não venceu porque tinha um processador mais potente ou uma tela maior que os demais celulares; ele venceu porque reimaginou a relação entre o ser humano e o dispositivo, tornando a interação tão natural que, agora, o smartphone deixou de ser uma ferramenta para se tornar, literalmente, uma extensão da nossa vida. Altman está dizendo, portanto, com todas as letras, que a IA ainda não fez essa transição: as peças tecnológicas existem, os modelos são poderosos, as capacidades impressionam, mas ninguém encontrou ainda a forma de transformar tudo isso em algo que mude completamente a maneira como uma pessoa comum interage com a tecnologia no dia a dia.
É uma admissão um pouco estranha, não acham?. O CEO da empresa que lançou o ChatGPT, que atingiu um bilhão de usuários e que está à beira de um IPO que pode avaliá-la acima de um trilhão de dólares, está dizendo que o produto transformador ainda não foi criado. E se analisarmos essa admissão em face da Teoria da Curva de Rogers e a difusão de inovações, o que Altman está descrevendo é a posição exata em que a IA se encontra na curva: já ultrapassou os inovadores e os early adopters, já alcançou a maioria inicial em muitos segmentos, mas ainda não cruzou o limiar que transforma essa tecnologia em uma infraestrutura invisível do nosso dia a dia. O ChatGPT, nessa analogia, seria o Palm Treo da inteligência artificial: impressionante para quem o usa, transformador para determinados profissionais, mas ainda distante do momento em que a IA desaparecerá dentro da experiência cotidiana de tal forma que usá-la deixará de ser uma decisão consciente e passará a ser algo que simplesmente acontece, da mesma forma que ninguém pensa “vou usar meu smartphone agora”, mas simplesmente pega o celular e resolve o que precisa resolver.
A segunda admissão é que Altman reconhece não saber dizer “não” com a frequência necessária, e para explicar o que quer dizer com isso, recorre a Steve Jobs. Jobs dizia que uma das razões centrais do sucesso da Apple era a disposição de rejeitar mil ideias boas para se concentrar inteiramente nas poucas ideias que eram extraordinárias, uma disciplina que exigia dizer não a propostas que, individualmente, faziam sentido, mas que, somadas, diluiriam o foco da empresa a ponto de comprometer a qualidade do que realmente importava. Altman admite que a OpenAI ainda não aprendeu essa lição, e a trajetória recente da empresa, talvez, pode realmente confirmar o diagnóstico: nos últimos doze meses, a OpenAI lançou geração de imagem, geração de vídeo, agentes de programação, agentes de trabalho genérico, ferramentas de voz, integrações com dezenas de plataformas, um marketplace de aplicativos, recursos de memória, modelos de raciocínio, modelos econômicos e uma expansão geográfica agressiva. São todas iniciativas defensáveis isoladamente, mas que, vistas em conjunto, configuram exatamente o padrão que Jobs identificava como o inimigo da excelência: uma empresa que faz muitas coisas boas em vez de fazer poucas coisas extraordinárias.
E existe uma conexão direta entre as duas primeiras admissões, porque elas nos mostram algo sobre a natureza do “momento iPhone” que a IA ainda não alcançou. O iPhone não foi o resultado de a Apple ter tentado fazer tudo ao mesmo tempo. Foi, pelo contrário, o resultado de anos de foco obsessivo em uma única ideia, a de um dispositivo que reimaginasse a interface entre pessoa e computador, executada com uma atenção ao detalhe que só era possível porque a empresa havia dito não a centenas de outros projetos que competiam por atenção e recursos. Se a IA realmente está à espera do seu iPhone, e se Altman reconhece que não aprendeu a lição de Jobs sobre dizer não, a implicação é que o momento transformador da IA talvez não venha da empresa que lança mais funcionalidades, mas daquela que encontrar a coragem de eliminar quase tudo para se concentrar na experiência que realmente muda a forma como as pessoas vivem. E essa implicação levanta uma possibilidade que o próprio Altman provavelmente preferiria não contemplar: que o iPhone da IA talvez não saia da OpenAI.
A terceira admissão é, possivelmente, a mais surpreendente e a que mais merece atenção dos nossos leitores do Entrelinhas, porque contradiz a narrativa dominante sobre o que a IA vai fazer com a economia. Altman prevê que estamos prestes a presenciar “o maior boom de pessoas abrindo pequenos negócios que o mundo já viu”. A parte esperada dessa previsão é que a IA vai permitir que empreendedores individuais, sem equipe, sem capital de risco e sem formação técnica, operem negócios que antes exigiriam estruturas corporativas para funcionar, exatamente o fenômeno do vibe coding que já se espalhou por todos os lugares. Mas a parte verdadeiramente reveladora é o que vem depois: Altman acredita que muitos desses novos negócios vão prosperar “precisamente porque não têm nada a ver com IA”, porque as pessoas vão querer “experiências autênticas e não tecnológicas”.
Essa previsão, vinda do CEO da maior empresa de IA do mundo, carrega uma honestidade que realmente merece ser levada a sério, porque ela reconhece algo que temos explorado ao longo de várias edições por aqui e que talvez seja uma das Entrelinhas mais importantes de todo esse movimento: quanto mais a inteligência artificial permeia a vida cotidiana, mais valor adquire aquilo que ela não consegue replicar. A padaria artesanal cujo pão é feito por mãos humanas. O restaurante cuja experiência depende de um chef que cozinha com intuição, não com algoritmo. O terapeuta cuja escuta é insubstituível precisamente porque é humana. O artesão cujo produto é valorizado porque alguém o fez, não porque uma máquina o otimizou…
A IA pode cuidar da gestão, do marketing, da contabilidade, do atendimento automatizado e de dezenas de outras funções operacionais que antes exigiriam uma equipe inteira. E ao cuidar de tudo isso, ela libera o empreendedor para se concentrar exclusivamente naquilo que nenhuma máquina consegue oferecer: autenticidade.
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É uma inversão que ecoa na neurociência do consumo, afinal, já se sabe o por que os consumidores recusaram a conveniência de comprar pelo ChatGPT e preferiram manter o ritual de escolher por conta própria - justamente pelo prazer dopaminérgico que está envolto ao processo de escolha dos produtos, por exemplo, algo essencialmente humano. E ecoa, também, nessa homogeneização da linguagem, onde observamos que, em um mundo onde todos os textos soam igual porque foram filtrados pelo mesmo modelo IA, a voz que se distingue é a mais autêntica.
Diante disso, fica cada vez mais claro que quanto mais a IA padroniza, automatiza e otimiza, mais escasso e mais valioso se torna aquilo que é genuinamente humano, genuinamente imperfeito e genuinamente original.
Para quem lidera negócios e acompanha essas transformações, as três admissões de Altman, lidas em conjunto, compõem uma leitura do momento que é mais nuançada e mais útil do que a maioria das análises de mercado: a IA é poderosa, mas ainda não encontrou sua forma definitiva de chegar às pessoas; a empresa que lidera o setor reconhece que está tentando fazer coisas demais e que precisa aprender a focar; e o maior impacto econômico da IA pode não estar nos negócios que a utilizam como produto, mas nos negócios que ela viabiliza justamente por cuidar de tudo aquilo que não é o coração do que oferecem. É, em certo sentido, a admissão mais generosa que o líder de uma revolução tecnológica poderia fazer: reconhecer que o legado mais importante da tecnologia que construiu talvez seja permitir que as pessoas façam, com mais liberdade e mais escala, exatamente aquilo que as máquinas não sabem fazer.




