Bom dia! Hoje é 20 de agosto. Neste mesmo dia, em 1858, Charles Darwin e Alfred Russel Wallace publicavam o artigo que apresentava ao mundo a teoria da seleção natural, a ideia de que, na competição pela sobrevivência, não vencem os mais fortes nem os mais inteligentes, mas os que melhor se adaptam às condições que o ambiente impõe. Darwin levou vinte anos para desenvolver a teoria. Wallace chegou à mesma conclusão de forma independente, em questão de meses. A publicação conjunta resolveu a disputa de forma elegante: os dois tinham razão; o que importava era a ideia, não quem chegou primeiro.
Cento e sessenta e oito anos depois, a seleção natural que Darwin descreveu opera, com precisão quase biológica, no ecossistema de tecnologia. A Nvidia não compete com rivais, mas os absorve, licencia sua tecnologia, contrata seus fundadores e depois investe no que sobrou, garantindo que o dinheiro passe pelo mesmo caixa independentemente de quem vença. A Shein, que há quatro anos valia quase US$ 100 bilhões, chega à bolsa de Hong Kong a US$ 25 bilhões, comprimida por tarifas, regulação e concorrência que seu modelo não conseguiu contornar. A Samsung eleva os preços de fabricação de chips, forçando toda a cadeia a se adaptar a um mundo onde o custo do silício sobe enquanto os modelos de IA que rodam nele ficam mais baratos. E a Amazon prepara 500 cidades americanas para receber entregas por drone, porque entendeu que a última milha, no chão, já atingiu seu limite. Em todos os casos, quem se adapta sobrevive. Quem não se adapta vira nota de rodapé, ou, no melhor dos cenários, vira subsidiária de quem se adaptou primeiro.
A Nvidia Transforma Rival em Subsidiária Sem Comprar Nada
A Groq levantou US$ 350 milhões numa rodada que avalia a empresa em US$ 3,5 bilhões, exatamente a metade dos US$ 6,9 bilhões que valia um ano atrás. Entre os investidores está a própria Nvidia. A informação, em princípio, parece uma rodada de captação com desconto, algo comum em startups que enfrentam dificuldades. Lida, porém, no contexto do que aconteceu nos últimos meses, é outra coisa: é o capítulo final de uma absorção que a Nvidia executou sem jamais assinar um contrato de aquisição.
Deixe-me destrinchar esse história. Em setembro de 2025, a Groq captou US$ 750 milhões e valia quase US$ 7 bilhões, impulsionada pela tese de que seus LPUs – os chips projetados exclusivamente para inferência – poderiam desafiar as GPUs da Nvidia. Em dezembro, a Nvidia firmou um acordo de licenciamento da tecnologia de inferência da Groq e, no mesmo pacote, contratou Jonathan Ross, o fundador e CEO da empresa – sendo ele o mesmo engenheiro que havia liderado a criação das TPUs do Google antes de fundar a Groq. O valor atribuído à operação, segundo a CNBC, foi de cerca de US$ 20 bilhões. A Nvidia lançou, em seguida, o Nvidia Groq 3 LPX, um produto derivado da tecnologia que acabara de licenciar. E agora investe no que sobrou da empresa, que se reposicionou como uma operadora de data centers em vez de fabricante de chips, ou seja, deixou de concorrer com a Nvidia para se tornar cliente dela.
O modelo é fascinante e, também, um pouco perturbador por suas consequências, ou, por algo que denominamos: Teoria das Implicações. A Nvidia não precisou efetivamente comprar a Groq, um movimento que estava claramente evitando o escrutínio antitruste que uma aquisição desse porte atrairia. Em vez disso, ela licenciou a tecnologia, contratou o fundador, lançou um produto derivado e investiu na empresa remanescente, que agora opera num segmento adjacente sem ameaçá-la.
A Meta e o Google já recorreram a arranjos semelhantes com outras startups de IA, contratando equipes inteiras sem comprar a empresa formalmente. O padrão que se consolida a partir disso, é o de uma concentração de poder que não aparece nas estatísticas de fusões e aquisições, mas que produz o mesmo resultado: qualquer que seja o vencedor da corrida de inferência, o dinheiro passa pelo caixa da Nvidia. No caso da Groq, passa duas vezes, uma como investidora, outra como fornecedora. Darwin chamaria isso de adaptação perfeita. Os reguladores antitruste deveriam chamar de outra coisa.
A Shein Chega à Bolsa Valendo um Quarto do que Já Valeu
A Shein planeja lançar sua oferta pública inicial na bolsa de Hong Kong ainda esta semana, buscando uma avaliação entre US$ 25 e US$ 28 bilhões. Cronologicamente, em 2022, a empresa era avaliada em US$ 98 bilhões. A queda de 75% em quatro anos é o retrato mais nítido do que acontece quando um modelo de negócio construído sobre condições excepcionais – ou sejam, de frete barato, isenções fiscais para pacotes de baixo valor e regulações inexistentes – encontra um mundo que decidiu fechar essas brechas, uma por uma.
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O golpe mais recente veio dos Estados Unidos, que revogaram a isenção de impostos de importação sobre pequenas encomendas – a regra que permitia à Shein enviar pacotes individuais da China diretamente ao consumidor americano sem pagar tarifas. Sem essa vantagem, a Shein registrou um prejuízo trimestral de US$ 99 milhões, e, em conjunto, o crescimento da receita da empresa desacelerou e as margens encolheram. O modelo que fez da empresa a varejista de moda mais rápida do mundo, que detinha de um modelo produção sob demanda na China, com fretes diretos ao consumidor e, por isso, preços imbatíveis preço imbatível, depende estruturalmente de custos de comércio internacional que governos estão, ativamente, encarecendo.
Assim, para o ecossistema de e-commerce global, o IPO da Shein é um teste de apetite. Se o mercado comprar a US$ 25 bilhões, validará a tese de que a empresa pode se adaptar a estas eventualidades e ainda ser relevante num mundo de comércio mais caro. Se recusar, o sinal será de que o modelo de fast fashion transfronteiriço, que Shein e Temu popularizaram, atingiu seu teto regulatório.
A resposta importa para o Brasil diretamente, uma vez que a Shein é uma das plataformas de e-commerce de maior crescimento no país, e qualquer mudança nas regras de importação brasileiras – que seguem em discussão – afetará tanto a empresa quanto os milhões de consumidores que se acostumaram a comprar roupa a R$ 15 com frete grátis. A seleção natural de Darwin não perdoa: quem não se adapta às novas condições do ambiente não desaparece por decisão de ninguém, mas desaparece porque o ambiente mudou.
A Samsung Sobe os Preços, e Toda a Cadeia Se Beneficia
A Samsung elevou entre 10% e 15% os preços de fabricação de semicondutores nos processos de 4 e 5 nanômetros para clientes nos Estados Unidos e na China. A decisão, à primeira vista, parece rotineira. Nas Entrelinhas, é um reposicionamento que, potencialmente, reorganiza toda uma cadeia global de semicondutores. Isso pode acontecer dado ao motivo de que a Samsung é a segunda maior fundição de chips do mundo, atrás apenas da TSMC, e seus preços funcionam como piso para o mercado: quando a Samsung sobe, a TSMC ganha margem para subir também sem perder clientes, e a Intel – que está investindo bilhões, com apoio do governo americano, para se tornar uma fundição competitiva – encontra espaço para oferecer seus serviços a preços que antes não seriam viáveis.
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O contexto que torna esse reajuste estruturalmente relevante é o mesmo que acompanhamos há semanas: a demanda por chips avançados supera a capacidade de produção do planeta, e as três únicas empresas capazes de fabricá-los – TSMC, Samsung e Intel – estão expandindo fábricas a custos colossais. A TSMC, aproveitando esse cenário, deve aumentar seus próprios preços entre 8% e 10% em 2027 para financiar a expansão nos Estados Unidos, onde o custo de operação é significativamente mais alto do que em Taiwan. A Intel, por sua vez, precisa de clientes externos para justificar os investimentos nos processos 18A e 14A, e um mercado com preços mais altos lhe dá essa abertura. O resultado é que o custo de fabricar chips avançados está subindo para todos, e esse custo, inevitavelmente, se transfere ao preço dos produtos que os utilizam.
A ironia, que já observamos em edições anteriores, é que o preço da computação bruta sobe enquanto o preço da inteligência que roda nessa computação despenca. Fabricar um chip de 4 nanômetros ficou 15% mais caro. Mas o custo de rodar um modelo de IA nesses mesmos chips caiu 99% em seis meses, graças à crescente commoditização dos modelos de IA – um fenômeno causado pelos chineses. A cadeia de valor da inteligência artificial está se invertendo: o silício encarece, o software barateia, e o valor migra de quem treina o modelo para quem fabrica o substrato onde ele roda. Para quem investe em IA, essa inversão é a Entrelinha mais importante da temporada, porque significa que o gargalo não está mais no código, mas na fábrica. E fábricas, ao contrário de modelos, não se copiam por download.
A Amazon Quer Entregar por Drone em 500 Cidades
A Amazon anunciou que pretende expandir o Prime Air, seu serviço de entrega por drones, de 11 cidades para quase 500 até o fim do ano – um salto de mais de quarenta vezes numa escala que, se concretizada, transformará a entrega aérea de uma curiosidade logística que vemos pelo internet apenas, em uma operação industrial real. O serviço promete pedidos entregues em até 30 minutos, cobrindo categorias que vão de eletrônicos e cosméticos a medicamentos e alimentos de mercearia. Chicago, Atlanta, Cleveland e Syracuse estão entre os próximos mercados. Segundo a empresa, as cidades que já operam com drones registram os maiores volumes médios de entrega dos Estados Unidos, com milhares de entregas diárias.
A expansão responde a uma realidade que a guerra da última milha no Brasil e no mundo já tornou evidente: a entrega no chão atingiu um limite prático de velocidade. Motos no trânsito, vans estacionadas em fila dupla, entregadores que disputam espaço com pedestres… a infraestrutura urbana não foi desenhada para o volume de entregas que o e-commerce gera em 2026. O drone entra aqui, obviamente, não para eliminar esses problemas, mas para os contornar, literalmente, por cima. Num raio de poucos quilômetros, um drone entrega mais rápido, consome menos energia e não enfrenta engarrafamento. A equação econômica disso melhora a cada geração de equipamento, à medida que baterias ficam mais leves, a navegação autônoma mais confiável e regulação mais flexível.
Para os concorrentes da Amazon, e para o ecossistema de delivery como um todo, a escala de 500 cidades é o dado que importa mais do que a tecnologia em si. O Walmart testa drones há anos, mas em escala limitada. Startups de entrega aérea operam em nichos urbanos. Ninguém tentou 500 cidades ao mesmo tempo. Se a Amazon conseguir, ela terá criado a primeira rede logística aérea de cobertura nacional nos Estados Unidos – uma infraestrutura que, uma vez construída, funciona como um tipo de barreira de entrada tão poderosa quanto os centros de distribuição terrestres que a empresa levou duas décadas para construir.
E essa, nas Entrelinhas, é a verdadeira aposta: não entregar mais rápido, mas tornar a entrega aérea tão rotineira que o consumidor deixe de percebê-la como uma inovação e passe a tratá-la como um novo padrão. Quando isso acontecer, quem não tiver drones no ar estará tão atrasado quanto quem, há dez anos, não tinha aplicativo de delivery.






