Bom dia! Hoje é 17 de setembro. Neste mesmo dia, em 1787, trinta e nove delegados assinavam, na Filadélfia, a Constituição dos Estados Unidos, o documento que transformou um experimento político numa instituição permanente. Antes daquela assinatura, a democracia americana era uma ideia bonita com resultado incerto: treze estados que concordavam em pouca coisa além do desejo de não serem colônias. Depois, era um sistema, com regras, limites, poderes definidos e uma estrutura que, por mais imperfeita que fosse, sobreviveu a guerras civis, depressões e tentativas de golpe por duzentos e trinta e nove anos.
A distância entre experimento e instituição é, possivelmente, a transição mais importante que uma tecnologia pode fazer, e é exatamente o que a inteligência artificial está fazendo neste momento, diante dos nossos olhos. As notícias de hoje são todas sobre essa passagem. O iFood deixa de ser um aplicativo de comida e se torna infraestrutura logística para qualquer lojista que precise entregar qualquer coisa, além de querer levar você, fisicamente, ao restaurante. A OpenAI testa agentes publicitários dentro do ChatGPT que conversam com o consumidor em nome das marcas, transformando o chatbot em vitrine de shopping. Pela primeira vez desde 2021, todos os setores do S&P 500 devem registrar crescimento de lucros no mesmo trimestre, e a razão, segundo os analistas, é que os trilhões gastos em IA estão se convertendo em receita para setores que não têm nada a ver com tecnologia. E a Huawei projeta que, até 2035, 900 bilhões de agentes autônomos estarão ativos no planeta, cem vezes a população humana. Em todos os casos, o que era experimento virou sistema. E o que era sistema está virando a nova realidade.
O iFood que Entrega Tudo, Inclusive Você ao Restaurante
Se você é dono de uma loja pequena e vende pelo WhatsApp, pelo Instagram ou pelo seu próprio site, até ontem você tinha duas opções para entregar um determinado pedido: os Correios, que levam dias, ou uma transportadora, que cobra caro. A partir de hoje, tem uma terceira: o iFood. O Envios iFood, lançado nesta quarta-feira em parceria com a Nuvemshop, permite que qualquer varejista (mesmo os que não vendem dentro do aplicativo do iFood) contrate a rede de entregadores da plataforma para entregar pedidos feitos nos seus próprios canais, com a promessa de um prazo que de entregas, em alguns casos, de uma hora até a casa dos clientes. É a infraestrutura logística que o iFood construiu para entregar hambúrgueres sendo reaproveitada para entregar roupas, cosméticos, livros e o que mais couber numa mochila.
A expansão não é isolada mas, pelo contrário, faz parte de um pacote de R$ 24 bilhões em investimentos que o iFood está realizando até março de 2027, e que inclui, além da logística para terceiros, a ampliação nacional do iFood Hits (pedidos sem taxa de entrega) e do Turbo (entrega em 20 minutos). Mas o movimento mais inesperado é outro: o Comer Fora, uma funcionalidade que inverte a lógica que definiu o iFood por uma década. Em vez de levar a comida até você, o aplicativo agora quer levar você até o restaurante, usando cupons, ofertas e reservas de mesa para incentivar o consumo presencial. É o reconhecimento de que, como os dados da Starbucks já sinalizavam, o comportamento pós-pandemia não matou o salão, mas ele, agora, coexiste com o delivery, e quem ignorar qualquer um dos dois perde metade do mercado.
A Entrelinha mais reveladora da estratégia, contudo, é o que o iFood está se tornando, nas Entrelinhas, sem que ninguém precise dizer em voz alta. Uma empresa que entrega comida, remédio, produtos de pet shop e supermercado; que opera uma fintech com cartão e crédito; que movimenta R$ 3,4 bilhões em farmácia e agora fornece logística para lojistas de qualquer segmento não é mais um aplicativo de delivery, mas é uma plataforma de infraestrutura para o comércio brasileiro. O iFood está fazendo com o varejo físico o que a AWS fez com a computação, ou seja, transformar uma capacidade que construiu para uso interno num serviço que qualquer empresa pode contratar. E, como a AWS provou, quem vende a infraestrutura captura, em conjunto, mais valor do que quem vende o produto final, porque a infraestrutura é o trilho pelo qual todos os trens precisam passar.
O ChatGPT Agora Tem Vendedores Dentro Dele
Até agora, quando você perguntava ao ChatGPT qual aspirador de pó comprar, você recebia uma resposta produzida pelo modelo, que era imparcial (na teoria) e sem nenhum interesse financeiro em que você escolhesse uma marca ou outra. A partir desta semana, a OpenAI começou a testar algo que muda fundamentalmente essa dinâmica: os Sponsored Agents, agentes de IA patrocinados por empresas que podem conversar com você depois que você clica num anúncio exibido dentro do ChatGPT. Você pergunta sobre aspiradores. Um anúncio da Dyson aparece. Você clica. E, em vez de ser levado a um site, abre-se uma conversa com um agente que fala pela Dyson, responde às suas dúvidas, entende o que você precisa e, no final, oferece um link para compra.
A evolução é sutil na interface e radical na estrutura. Em setembro, cobrimos o ChatGPT Ads atingindo US$ 1 bilhão em receita anualizada com anúncios tradicionais, sendo estes banners e links que o usuário poderia, sem problemas, ignorar. Os Sponsored Agents são outra coisa: são conversas. E conversas geram algo que nenhum banner produz: contexto. Deste modo, quando o agente da Dyson pergunta quantos cômodos você tem, se tem animais de estimação e qual é seu orçamento, ele está coletando informações que, numa plataforma de publicidade convencional, exigiriam semanas de navegação monitorada por cookies. No ChatGPT, contudo, o consumidor entrega esses dados voluntariamente, em troca de uma resposta útil, numa conversa que parece natural. É, possivelmente, a forma mais eficiente de coleta de intenção de compra já inventada, e a OpenAI sabe muito bem disso.
Já pensou em ter todo esse conteúdo em formato de áudio? Se sim, é só você clicar aqui e aproveitar!
A integração com HubSpot e Shopify, as plataformas de CRM e e-commerce mais usadas por pequenas e médias empresas, revela a ambição completa, de pode que podemos inferir que a OpenAI não quer apenas exibir anúncios dentro do ChatGPT, mas quer que o ChatGPT se torne o lugar onde toda a jornada de compra acontece, da descoberta ao pagamento, sem que o consumidor saia da conversa. É o modelo que o WeChat opera na China há mais de uma década, e que, se funcionar no Ocidente, transformará o ChatGPT de uma ferramenta de produtividade em um novo marketplace conversacional.
Enfim, para o Google, cuja receita de publicidade depende do modelo de busca que o ChatGPT ameaça, os Sponsored Agents são a confirmação de que a OpenAI não está mais apenas competindo pela atenção; está competindo pelo dinheiro. E, quando a IA que responde às suas perguntas passa a ser paga para responder de um jeito específico, a pergunta que o consumidor precisa fazer é se a resposta que recebe é a melhor, ou apenas a mais bem financiada.
A IA Já Lucra em Todos os Setores da Economia Americana
Pela primeira vez desde 2021, quando as empresas americanas saíram da retração provocada pela pandemia, todos os onze setores do S&P 500 devem registrar crescimento dos lucros no mesmo trimestre. Não apenas tecnologia. Não apenas energia. Todos, de saúde a indústria, de consumo a serviços financeiros, de imóveis a utilities. E a razão que os analistas apontam para essa unanimidade não é uma recuperação econômica generalizada, nem um ciclo de queda de juros, nem uma expansão do consumo. É a inteligência artificial. Mas não da forma que se imagina.
A lógica é circular e, por isso mesmo, poderosa. As big techs gastam centenas de bilhões em infraestrutura de IA. Esse dinheiro se transforma em receita para construtoras de data centers, fabricantes de equipamentos elétricos, fornecedores de sistemas de refrigeração, empresas de cabeamento e geradores. Esses fornecedores contratam engenheiros, compram materiais e pagam serviços, e esse gasto se espalha para restaurantes, hotéis, imobiliárias e varejo nas regiões onde os data centers são construídos. A construção civil, que normalmente desacelera quando os juros sobem, está crescendo porque a demanda por data centers absorveu a mão de obra que, em ciclos anteriores, teria sido dispensada. E, por fim, os bancos lucram com o financiamento de toda essa expansão, e, ainda em breve, lucrarão ainda mais com os IPOs da Anthropic, da OpenAI e de outras empresas de IA que se preparam para a bolsa.
A Entrelinha que merece atenção, contudo, é a tensão contida na unanimidade. Quando todos os setores lucram ao mesmo tempo, impulsionados pelo mesmo motor, a diversificação que supostamente protege um portfólio de investimentos se torna ilusória, uma vez que tudo depende de que o motor continue funcionando. Se os gastos com IA desacelerarem, e, como analistas já relatam, há sinais de que a adoção corporativa está mais lenta do que o esperado, o efeito cascata que hoje distribui lucros para todos os setores pode, no caminho inverso, distribuir prejuízo com a mesma amplitude.
A IA que ergue o S&P 500 inteiro é a mesma que, se tropeçar, pode derrubar o índice inteiro. O fato de que todos os setores dependem do mesmo impulso não é força, mas é um certo tipo de fragilidade sistêmica disfarçada de prosperidade. E a diferença entre as duas só aparece quando o impulso para.
900 Bilhões de Agentes
A Huawei publicou nesta semana um relatório que projeta 900 bilhões de agentes autônomos de inteligência artificial operando no planeta até 2035, cerca de cem para cada ser humano vivo. Esses agentes não seriam chatbots que respondem perguntas, mas sistemas que percebem o ambiente ao redor, raciocinam sobre o que observam, tomam decisões e acionam ferramentas externas sem intervenção humana. Segundo a empresa, esses agentes dominarão mais de 90% do tráfego global de tokens de IA, deslocando o consumo de computação de interações humano-máquina para interações máquina-máquina. Em outras palavras: na próxima década, a maior parte do processamento de IA no mundo não será feita por pessoas usando chatbots, mas será feita por agentes conversando entre si.
O contraste com o que acontece do outro lado do Pacífico é a Entrelinha mais consequente do relatório. Enquanto CEOs americanos publicam ensaios clamando pela desaceleração da IA, enquanto Trump classifica esses pedidos de farsa, enquanto o Congresso debate kill switches e enquanto os mercados oscilam entre pânico e euforia a cada manchete sobre segurança de IA, a Huawei, que, vale lembrar, foi banida de redes de telecomunicações em metade do Ocidente, publica um relatório de 200 páginas que não menciona uma única vez a palavra “desaceleração”.
Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibilizam as transformações.
A China não está debatendo se deve frear. Está, claramente, calculando quanto poder de computação precisará para não frear. E quando o presidente do conselho fiscal da Huawei diz que a empresa quer se tornar “a Nvidia chinesa”, ele está descrevendo um plano industrial que o governo de Pequim financia, regulamenta e protege com a mesma disciplina que aplicou a painéis solares, baterias e veículos elétricos.
Para o leitor que acompanha o Entrelinhas, o número de 900 bilhões não é exatamente surpreendente; é a extrapolação lógica de tudo que documentamos nos últimos meses. O iFood opera 27 mil agentes para 8 mil funcionários. O Muse da Meta quer gerenciar a vida inteira do usuário, do e-mail ao mercado. A Salesforce acabou de lançar o Koa para que agentes resolvam tarefas corporativas sem recorrer ao Claude ou ao ChatGPT. E a OpenAI, cuja IA escapou de um sandbox e atacou a Hugging Face, desenvolve um kill switch para desligar agentes que saiam do controle. A questão não é se os agentes virão, eles já estão aqui. A questão é o que acontece quando cem deles trabalham para cada pessoa no planeta, sem que a maioria dessas pessoas saiba que existem. A Constituição que os delegados assinaram na Filadélfia em 1787 foi escrita para governar seres humanos. Ninguém ainda escreveu a constituição que governará 900 bilhões de agentes. E, se a Huawei estiver certa, o prazo para escrevê-la é mais curto do que parece.






