Uma orquestra precisa aproximadamente do mesmo número de músicos e do mesmo tempo para executar uma sinfonia de Beethoven hoje que precisaria há dois séculos. É possível produzir instrumentos melhores, organizar os ensaios com mais eficiência e transmitir a apresentação para milhões de pessoas, mas para executar a obra ao vivo, os músicos precisam tocar cada nota durante o tempo originalmente previsto, porque não existe um botão capaz de transformar uma sinfonia de quarenta minutos em uma apresentação de cinco sem destruir aquilo que o público deseja consumir.
Essa observação aparentemente trivial ajudou os economistas William Baumol e William Bowen a explicar um dos grandes paradoxos dos serviços na economia: determinadas atividades ficam progressivamente mais caras mesmo sem apresentar ganhos equivalentes de produtividade, e o fenômeno, que ficou conhecido como doença dos custos de Baumol, atravessou décadas sem encontrar uma solução, porque parecia pertencer à própria natureza de certos trabalhos. Agora, a inteligência artificial promete atacar justamente o problema que, até então, parecia ser insolúvel: aumentar a produtividade de atividades cuja principal matéria-prima sempre foi o tempo humano. A pergunta, portanto, é inevitável: a IA encontrou a cura?
Para entender por que essa pergunta importa, vale reconstruir a mecânica da doença com a clareza que ela exige. Para que todos entendemos bem, vejamos o exemplo de uma fábrica em que se produzia cem peças com dez trabalhadores, mas pode, com a lucratividade de seus negócios, adotar novas máquinas e passar a produzir mil peças com a mesma equipe, de modo que cada funcionário se torna mais produtivo, o custo unitário por peça diminui e parte desse ganho pode ser distribuído na forma de salários maiores.
O mesmo raciocínio, por outro lado, não se aplica facilmente a uma aula, a uma consulta médica ou a uma reunião com um advogado, porque um professor continua precisando de tempo para explicar um conteúdo, um médico ainda precisa ouvir o paciente antes de tomar uma decisão e um advogado deve ler todos os autos de um processo antes construir uma argumentação sólido, de modo que a produtividade dessas atividades cresce mais lentamente porque o trabalho humano não é apenas um custo de produção, mas parte do próprio produto. Ainda assim, professores, médicos, advogados e músicos disputam trabalhadores no mesmo mercado das indústrias mais produtivas, e seus salários precisam acompanhar, ao menos parcialmente, a remuneração do restante da economia, o que faz com que o custo dos serviços suba sem que sua produção cresça na mesma proporção. Não se trata necessariamente de incompetência por partes destes profissionais, desperdício ou má administração: em muitas atividades, a baixa possibilidade de automação era uma característica estrutural, inerente à profissão. Era, talvez, até a chegada da IA.
A inteligência artificial faz com o trabalho cognitivo algo semelhante ao que as máquinas fizeram com parte do trabalho físico, porque não precisa substituir integralmente o profissional para alterar profundamente sua produtividade, uma vez que basta reduzir o tempo necessário para pesquisar, organizar, comparar, redigir e revisar informações. Um advogado que antes levava cinco horas para preparar a primeira versão de um contrato pode passar a utilizar apenas uma. Um professor pode adaptar o mesmo conteúdo para diferentes níveis de aprendizagem sem reconstruir todo o material do zero. Um médico pode receber o histórico do paciente previamente organizado, com exames, medicamentos e possíveis inconsistências destacados pelo sistema.
O serviço, nesse novo mundo, continua dependendo de conhecimento humano, mas uma parcela crescente de sua produção torna-se, agora, replicável, e já existem sinais concretos desse movimento: um estudo realizado com aproximadamente cinco mil profissionais de atendimento encontrou aumento médio de produtividade próximo de 14% entre aqueles que utilizaram ferramentas de IA, e entre trabalhadores menos experientes o ganho chegou a 35%, porque o sistema conseguia disseminar padrões de comportamento aprendidos com os profissionais mais produtivos. A consequência mais importante, contudo, não está apenas no número de atendimentos realizados, porque a IA também reduziu o tempo necessário para que profissionais iniciantes se aproximassem do desempenho dos mais experientes, o que significa que a tecnologia pode aumentar a produção por hora e, simultaneamente, encurtar a curva de aprendizagem do trabalho intelectual. Pela primeira vez, setores historicamente atingidos pela doença de Baumol podem experimentar ganhos semelhantes aos observados na indústria, aumentando sua produção utilizando a mesma quantidade de trabalho.
Antes de declarar a cura, porém, é preciso fazer uma pergunta que parece simples até que se tente respondê-la: o que exatamente estamos comprando quando contratamos um serviço? Quando procuramos um advogado, estamos comprando um documento ou o julgamento de alguém que responde por seu conteúdo? Quando vamos ao médico, queremos apenas uma hipótese diagnóstica ou a segurança de que um profissional analisou nossa condição? Quando pagamos por uma aula, adquirimos informações ou a atenção de alguém capaz de perceber nossas dificuldades? A IA consegue acelerar a produção de documentos, análises e materiais, mas nem todo valor dos serviços está contido em suas entregas mensuráveis, porque parte dele está na confiança, outra parte na responsabilização, e há ainda presença, reputação, empatia e julgamento diante de situações ambíguas, elementos que dificilmente são comprimidos na mesma velocidade que a produção de texto ou o processamento de dados. É possível pedir que uma IA examine mil páginas em poucos minutos, mas isso não significa que um juiz, um cliente ou um paciente aceitará imediatamente que a decisão final seja tomada sem qualquer tipo de supervisão humana, e quanto maior for o risco, mais valiosa tende a permanecer a existência de uma pessoa responsável. Aqui aparece o limite da suposta cura: a IA reduz o custo de executar o serviço, mas não elimina necessariamente o custo de confiar nele.
Há, ainda, um paradoxo que a história da tecnologia já demonstrou em outros contextos: se um advogado consegue produzir cinco vezes mais utilizando inteligência artificial, seria natural esperar que seus serviços se tornassem cinco vezes mais baratos, mas esse resultado não é automático, porque a produtividade maior também pode permitir que ele analise mais documentos, teste mais hipóteses e entregue um trabalho mais sofisticado, produzindo um serviço melhor pelo mesmo preço em vez de um serviço igual por preço menor, ou até cobrando mais pela qualidade adicional. Foi exatamente isso que ocorreu quando a arquitetura adotou, à época, os softwares de modelagem 3D: um projeto feito à mão continha um determinado nível de detalhamento, e com novas ferramentas tornou-se possível criar simulações, modelos tridimensionais e incontáveis versões, de modo que a tecnologia reduziu o custo de cada etapa, mas o mercado respondeu exigindo um produto mais complexo, e o preço final não caiu na proporção que o ganho de produtividade sugeriria. A inteligência artificial pode repetir esse processo, porque um parecer jurídico produzido em menos tempo não significará necessariamente menos trabalho, podendo significar que o cliente passará a esperar mais cenários, mais fontes, mais revisões e mais velocidade. A produtividade cresce, mas a fronteira do serviço também se expande.
A doença de Baumol, além disso, não atinge todas as partes de um serviço da mesma forma. Pesquisar precedentes, resumir prontuários, preparar exercícios e organizar informações são atividades altamente expostas à IA, enquanto persuadir um tribunal, frente a frente ao júri, comunicar um diagnóstico grave, perceber que um aluno não compreendeu determinado conceito apenas por seu olhar, ou conquistar a confiança de um cliente são atividades muito menos compressíveis, o que significa que a IA não eliminará a doença de maneira uniforme, mas dividirá os serviços em duas camadas que evoluirão em velocidades diferentes. A primeira será formada pelas tarefas que podem ser industrializadas, como pesquisa, documentação, produção inicial, organização e controle, e nelas veremos redução de custos, aumento de escala e intensa pressão sobre preços. A segunda concentrará tudo aquilo que depende de confiança, julgamento e responsabilidade, e nela o tempo humano continuará escasso e talvez se torne ainda mais valorizado, porque quanto mais barata ficar a produção de respostas, mais importante será saber quem está disposto a responder por elas.
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A inteligência artificial provavelmente curará uma parte importante da doença dos custos de Baumol, e serviços antes limitados pela quantidade de horas disponíveis poderão ser produzidos em maior escala, profissionais menos experientes alcançarão desempenhos que antes exigiam anos de aprendizado, e a educação, saúde, direito e consultoria poderão atender mais pessoas utilizando estruturas menores. Mas a tecnologia não transformará automaticamente toda relação humana em uma linha de produção, porque ao remover a escassez da informação e reduzir o custo de inúmeras tarefas, ela revela outra escassez que permanecia escondida: a escassez de julgamento confiável. O trabalho intelectual será, então, dividido entre aquilo que pode ser produzido infinitamente pelas máquinas e aquilo que ainda exige a presença de alguém capaz de interpreta e assumir as consequências de sua decisão. A IA pode ter encontrado a cura para a parte operacional da doença de Baumol. Quanto à parte humana, talvez ela não seja uma doença. Talvez seja justamente aquilo pelo qual continuaremos dispostos a pagar.




