GLP-1 e o Fim do Açúcar, Microsoft Troca Aliados, Grok na Briga de Gente Grande e Chips Apple
Bom dia! Hoje é 9 de julho. Neste mesmo dia, em 1962, Andy Warhol apresentava pela primeira vez suas 32 telas de latas de sopa Campbell’s na Ferus Gallery, em Los Angeles. A obra, que custou US$ 100 por painel e inicialmente não vendeu quase nada, se tornaria o marco inaugural da Pop Art e uma das declarações artísticas mais poderosas do século XX: Warhol não pintou sopa, mas revelou que o produto industrial mais banal da prateleira americana carregava, em sua repetição mecânica, uma verdade sobre o que a sociedade de consumo realmente valoriza.
Sessenta e quatro anos depois, a lição de Warhol segue sendo uma das mais subestimadas da cultura contemporânea: o verdadeiro poder raramente está no produto em si, mas no sistema que o produz, distribui e precifica. As notícias de hoje são variações sobre esse princípio. Uma caneta emagrecedora está derrubando o preço global de uma commodity agrícola. Uma empresa de tecnologia está trocando os modelos de IA de seus parceiros pelos seus próprios, mais baratos. Uma startup de foguetes lança uma inteligência artificial que custa metade da concorrência. E a maior empresa do mundo assina um contrato de US$ 30 bilhões para fabricar chips em solo americano. Em nenhum desses casos a história é sobre o produto. A história é sempre sobre quem controla o sistema ao redor dele.
As Canetas Emagrecedoras Estão Derrubando o Preço do Açúcar
A popularização do Ozempic, do Wegovy e de outros medicamentos da classe GLP-1 está produzindo um efeito que nenhum analista de commodities previu quando as canetas emagrecedoras começaram a escalar: o preço global do açúcar atingiu a menor cotação em cinco anos, com uma queda acumulada de 29% em apenas um ano.
O próprio Departamento de Agricultura dos Estados Unidos já cita nominalmente esses medicamentos como um fator de risco real para a demanda global da commodity. A explicação é bioquímica e comercial ao mesmo tempo, uma vez que a semaglutida atua no cérebro e no sistema digestivo para aumentar a saciedade, fazendo com que os usuários reduzam drasticamente a ingestão de calorias, sendo que o impacto destas novas dietas é maior justamente sobre alimentos ultraprocessados, doces e bebidas açucaradas, que eram os maiores motores de demanda.
Para o Brasil, o maior exportador de açúcar do planeta, a consequência disso é direta e, potencialmente, em cascata. Analistas projetam que até 9% da população americana pode estar usando esses medicamentos até 2035, o que forçaria as gigantes alimentícias a reformular muitos de seus produtos, reduzir suas porções e cortar seu teor de açúcar para manter relevância junto a consumidores que agora buscam dietas mais proteicas e funcionais, uma tendência que ganhou o nome de “proteinificação” do consumo, e descreve a reestruturação do portfólio de empresas como a Nestlé.
E, se essa demanda por açúcar cai de forma sustentada, as usinas brasileiras de cana de açucar podem, até mesmo, redirecionar sua produção para etanol, aliviando a pressão sobre a commodity alimentícia. Mas especialistas alertam que, se todas tomarem essa decisão ao mesmo tempo, o excesso de oferta de combustível derrubará também o preço do etanol nas bombas, transformando a solução em um novo problema. Isso quer dizer que os GLP-1 são uma anomalia de mercado tão grande que estão afetando não só o padrão de consumo de alimentos, mas talvez, até mesmo o preço do seu combustível.
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O que torna essa dinâmica bastante reveladora é que ela demonstra, em uma escala global, como uma inovação farmacêutica pode desencadear efeitos sistêmicos em cadeias produtivas que pareciam completamente desconectadas dela. Uma caneta injetável desenvolvida na Dinamarca para tratar diabetes está, agora, influenciando o preço que um produtor de cana em Ribeirão Preto recebe pela sua safra, e pode, em breve, alterar o valor que o motorista brasileiro paga pelo litro de etanol no posto. É o tipo de interconexão que escapa a análises setoriais e que só se torna visível quando se observa o sistema como um todo, exatamente o tipo de leitura que nós nos propomos a fazer por aqui.
A Microsoft Começa a Trocar a OpenAI e a Anthropic
A Microsoft começou a substituir, em seus próprios produtos, os modelos de inteligência artificial da OpenAI e da Anthropic por modelos desenvolvidos internamente. Segundo a Bloomberg, dezenas de milhares de solicitações semanais no Excel e no Outlook já são processadas pelos modelos MAI, criados pela própria Microsoft, em tarefas que antes dependiam integralmente de fornecedores externos.
A empresa apresentou sete novos modelos de IA, incluindo um que, segundo seus engenheiros, alcança desempenho similar ao Opus 4.6 da Anthropic em tarefas de programação, por um custo bem inferior. A declaração do chefe da divisão de IA da Microsoft não deixa margem para ambiguidade: “Pagamos muito dinheiro à Anthropic, e, diante disso, nosso objetivo é reduzir e, no fim, eliminar esse custo.”
A frase é cirúrgica e revela o cálculo que sustenta todo esse movimento. A Microsoft consome volumes massivos de tokens de IA no Copilot e em outros produtos, e embora obtenha desconto pela parceria histórica com a OpenAI, essa dependência representa um custo operacional crescente que pressiona suas margens em cada produto que embarca inteligência artificial.
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Assim, desenvolver modelos internos que sejam “bons o suficiente” para tarefas rotineiras, como formatar planilhas, redigir e-mails e organizar agendas, permite com que à empresa reserve os modelos mais avançados (e mais caros) da OpenAI e da Anthropic apenas para funções que genuinamente os exigem. É a mesma lógica que leva qualquer indústria a internalizar componentes quando o volume justifica: a partir de certo ponto, comprar de terceiros fica mais caro do que fabricar por conta própria.
Para a OpenAI e a Anthropic, o sinal é preocupante não pelo que a Microsoft está fazendo, mas pelo que o movimento inaugura como tendência. Se a maior parceira comercial da OpenAI já busca ativamente reduzir sua dependência, o mesmo cálculo se aplica a qualquer empresa que opera com volumes altos de tokens.
A Microsoft, aliás, já avalia substituir parte da IA do Copilot Cowork por uma versão hospedada do DeepSeek V4, o modelo chinês de código aberto, para tarefas longas e repetitivas. A mensagem implícita é devastadora para os provedores de modelos proprietários: para a maioria das tarefas corporativas do dia a dia, a diferença entre um modelo de fronteira e um modelo “bom o suficiente” não justifica a diferença de preço. E quando os próprios clientes começam a fabricar o “bom o suficiente”, a corrida não é mais por quem tem o modelo mais inteligente, mas é por quem consegue manter a relevância quando a inteligência se torna commodity.
O Grok 4.5 Entra na Corrida da IA
A SpaceXAI, de Elon Musk, lançou o Grok 4.5, um modelo que a empresa apresenta como sua inteligência artificial mais poderosa até o momento. O foco está em programação e tarefas de escritório mais complexas, como criar aplicativos do zero a partir de comandos vagos (o chamado vibe coding), montar planilhas e apresentações complexas. Em testes de raciocínio de longo prazo e uso de agentes, o modelo se aproximou do desempenho do Opus 4.8 da Anthropic, embora tenha ficado atrás do GPT 5.5 da OpenAI e do Fable.
O diferencial que a SpaceXAI escolheu enfatizar, contudo, não é capacidade: é preço. O Grok 4.5 custa US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 6 por milhão de tokens de saída, traduzindo, menos da metade do que cobram modelos concorrentes de desempenho comparável.
A estratégia de preço talvez seja a resposta de Musk a um mercado que, como a seção anterior demonstra, está cada vez mais sensível ao custo por token. Quando a própria Microsoft começa a trocar modelos premium por alternativas mais baratas, o sinal para todo o setor é que a disposição de pagar por inteligência de fronteira tem um limite concreto.
Nesse sentido, o Grok 4.5 se posiciona exatamente nessa faixa, com um desempenho próximo aos modelos de topo por um custo que torna economicamente viável o uso massivo em ambientes corporativos. A SpaceXAI afirma que o modelo é duas vezes mais eficiente que rivais, permitindo resolver tarefas em menos etapas e consumindo menos tokens, uma proposta que ataca diretamente o problema que empresas como a OpenAI tentam resolver com ferramentas de controle de gastos para clientes que descobriram, nos últimos meses, que incentivar o uso de IA sem teto de consumo faz a conta subir rápido e sem aviso.
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Para Musk, o Grok é também uma peça de justificativa em um quebra-cabeça maior. A fusão da xAI com a SpaceX criou uma empresa que captou bilhões em capital público e privado sob a premissa de que IA e infraestrutura espacial convergiriam. O Grok 4.5 precisa demonstrar que essa convergência gera produtos competitivos, e não apenas slides em reuniões de investidores.
Se o modelo alguma ganhar tração comercial pelo preço, a SpaceXAI terá provado que existe espaço para um terceiro competidor relevante ao lado de OpenAI e Anthropic. Se não ganhar, a narrativa de que Musk consegue competir simultaneamente em foguetes, carros autônomos, redes sociais e inteligência artificial começará a pesar mais do que impressiona.
A Apple vai Fabricar Chips nos EUA
A Apple fechou um acordo de mais de US$ 30 bilhões com a Broadcom para a produção de chips de radiofrequência em solo americano, incluindo a ampliação de uma fábrica no Colorado. O contrato, válido até 2031 e que prevê a fabricação de pelo menos 15 bilhões de chips, faz parte de um compromisso declarado da Apple de investir US$ 600 bilhões na economia dos Estados Unidos, um número que, não por acaso, Tim Cook anunciou com agradecimentos explícitos ao presidente Trump e ao seu governo.
O alinhamento político não é uma mera coincidência, claro que não, é estratégia. A Apple opera sob a constante ameaça de tarifas sobre produtos importados da China, onde a esmagadora maioria de seus dispositivos ainda é montada, e sob a pressão bipartidária para reduzir a dependência americana de fornecedores asiáticos de semicondutores. Ao assinar um contrato dessa magnitude com a Broadcom e firmar, em paralelo, um acordo com a Intel para o projeto e fabricação conjunta de chips em território americano, a Apple compra proteção política em duas frentes: demonstra comprometimento com a reindustrialização que Trump defende e reduz, concretamente, a exposição a uma cadeia de suprimentos que passa quase obrigatoriamente por Taiwan e pela China.
O movimento da Apple se insere numa tendência que, nas últimas semanas, ganhou contornos de corrida. A OpenAI lançou o seu chip Jalapeño com a Broadcom. A Anthropic negocia o seu com a Samsung. A DeepSeek, começa a desenvolver, também, seu silício próprio. E agora a Apple assina o maior contrato de fabricação de chips em solo americano de sua história.
Cada um desses movimentos obedece a uma lógica diferente, seja de custo, soberania ou sobrevivência, mas todos apontam para a mesma conclusão: a era em que empresas de tecnologia se contentavam em comprar chips de um punhado de fornecedores e focar exclusivamente em software acabou. Quem não controlar ao menos parte de sua cadeia de silício enfrentará, no melhor dos cenários, custos crescentes e, no pior, uma dependência estratégica de fornecedores que operam sob jurisdições que podem mudar as regras do jogo da noite para o dia.






