Bom dia! Hoje é 22 de outubro. Neste mesmo dia, em 1797, o engenheiro francês André-Jacques Garnerin saltou de um balão de hidrogênio a cerca de mil metros de altitude sobre o Parc Monceau, em Paris, pendurado num paraquedas de seda que ele mesmo havia construído – e que nunca havia sido testado com um ser humano dentro. A plateia, que incluía membros da Academia de Ciências e curiosos que apostavam se ele sobreviveria, assistiu ao paraquedas oscilar violentamente durante a descida, como uma pêndula desgovernada, antes de Garnerin pousar com um tranco, tonto mas vivo. Foi o primeiro salto de paraquedas documentado da história. E a lição que ele deixou não foi sobre coragem, mas foi sobre a diferença entre cair e pular. Quem cai não escolheu. Quem pula construiu algo para amortecer o impacto e decidiu confiar nele.
Duzentos e vinte e nove anos depois, cada história desta edição é sobre alguém que está pulando, deliberadamente, com uma aposta calculada, confiando num sistema que montou para se salvar na queda. Elon Musk anuncia que SpaceX e Tesla estão estudando uma fusão que criaria uma empresa de US$ 3,5 trilhões – o salto corporativo mais vertiginoso já tentado, com apenas um comitê de conselheiros como paraquedas. A Meta publica um trimestre de US$ 64,6 bilhões em receita e, mesmo assim, gerou caixa negativo pela primeira vez, porque os US$ 34,9 bilhões investidos em data centers de IA superaram tudo o que a máquina de publicidade mais lucrativa do mundo conseguiu produzir. A Tesla surpreende Wall Street com fluxo de caixa positivo quando todos esperavam vermelho – mas a surpresa esconde que a receita de carros encolheu, e que o futuro da empresa agora depende de robôs, robotáxis e chips que ainda não existem em escala. E a Anthropic publica um estudo sobre seus próprios funcionários que revela algo que ninguém previa acontecer tão cedo: a inteligência artificial já trabalha seis vezes mais do que os humanos que a supervisionam, e o gargalo de produtividade não é mais a máquina; é a atenção da pessoa sentada na frente dela. Em todos os casos, o salto já foi dado. O que resta é saber se o paraquedas abre.
A Maior Fusão da História Pode Ter um Único Dono
Existem decisões corporativas e existem decisões civilizacionais. Nesse caso, fundir a SpaceX com a Tesla seria a segunda. O resultado seria uma empresa de um valor aproximado de US$ 3,5 trilhões, que fabricaria carros elétricos, lançaria foguetes, operaria a maior rede de satélites do planeta, construiria data centers de IA em órbita, produziria robôs humanoides, fabricaria chips numa fábrica própria chamada Terafab, forneceria internet a milhões de assinantes, dirigiria robotáxis autônomos e, se Musk cumprir a promessa das últimas semanas, daria ações a cada criança americana.
Uma única empresa, com um único controlador. E esse controlador, que já detém quase 20% da Tesla e pouco menos de 50% da SpaceX, ficaria, segundo analistas, com o controle efetivo da entidade combinada.
Narramos essa história pois, recentemente, Musk confirmou que ambas as empresas criaram comitês especiais de conselheiros independentes para estudar a operação, acrescentando que a fusão “faz muito sentido” diante da “singularidade da superinteligência” e deixou claro que o caminho mais fácil seria a SpaceX comprar a Tesla – talvez porque, na SpaceX, ele controla mais de 50% dos votos, enquanto na Tesla ele precisaria convencer metade de todos os acionistas, não apenas dos que comparecerem à assembleia. A frase revela, portanto, que a questão não é sobre apenas se a fusão é boa para as empresas – isso não sabemos. Mas é, também, se Musk consegue impô-la, de modo que a resposta depende menos da estratégia e mais da governança que será adotada, afinal, numa empresa, ele manda. Na outra, precisa pedir.
O dado que torna a fusão mais do que especulação é o que a SpaceX revelou no mesmo dia: a inteligência artificial já responde por 52% de sua receita, isto é, mais do que o Starlink, mais do que os lançamentos de foguetes e mais do que qualquer outro segmento da empresa. Nesse cenário, a divisão renomeada como “Super Inteligência”, que inclui os data centers da SpaceX, o bot Grok, a ferramenta de programação Cursor e o negócio crescente de neocloud, gerou bilhões em receita.
Ainda, a Terafab, que é a fábrica de chips criada em conjunto por SpaceX e Tesla, planeja produzir seu primeiro chip de teste até meados de 2027. Se concretizada, a fusão criaria o primeiro conglomerado da história capaz de operar simultaneamente do solo ao espaço, do carro ao chip e do satélite ao agente de IA. Garnerin saltou com um paraquedas de seda e confiou na física. Musk salta com US$ 3,5 trilhões e confia em si mesmo. A diferença é que Garnerin só arriscava a própria vida.
A Meta Fatura US$ 64 Bilhões (e Mesmo Assim Ficou no Vermelho)
Se existe uma frase que resume o trimestre da Meta, é esta: a maior máquina de publicidade do mundo não conseguiu gerar dinheiro suficiente para pagar o que gastou. A receita de US$ 64,6 bilhões – que representa uma alta de 26%, acima da própria projeção da empresa – é impressionante por qualquer medida. A publicidade, em conjunto, rendeu US$ 63,1 bilhões, com preço médio dos anúncios subindo 14% e seu volume crescendo 10%. A base de usuários da empresa, por sua vez, atingiu 3,64 bilhões de pessoas por dia. E a linha de “outras receitas”, que inclui assinaturas e mensagens pagas no WhatsApp, ultrapassou US$ 1 bilhão. Isto é, números que, em qualquer outro contexto, seriam celebrados sem ressalva.
Contudo, o contexto que muda tudo é o capex. A Meta investiu US$ 34,9 bilhões num único trimestre – alta de 80% em um ano – em data centers, servidores e infraestrutura de IA. Somado ao acordo de US$ 9,89 bilhões com os 52 estados americanos para encerrar os processos sobre segurança infantil que cobrimos em agosto, o resultado foi um fluxo de caixa livre negativo de US$ 2,1 bilhões, sendo este o primeiro na história recente da empresa. Em outras palavras: a Meta gastou mais do que ganhou.
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E, para financiar o que não consegue cobrir com operação, captou quase US$ 25 bilhões em dívida no ano, parou de recomprar ações e criou uma nova classe de papéis sem direito a voto para poder emitir ações sem diluir o controle de Zuckerberg.
A criação dessas ações classe C – sem voto, negociáveis em bolsa e distribuídas na proporção de uma para cada ação existente – é a Entrelinha mais consequente do trimestre e a que menos chamou atenção. Na prática, Zuckerberg poderá usar esses papéis para captar recursos, pagar funcionários e fazer aquisições sem ceder um único voto, ou seja, sem ceder controle. É, deste modo, a engenharia financeira que garante que, quanto mais a Meta precisar de dinheiro para financiar seus data centers de IA, mais Zuckerberg concentra poder, e não menos.
A justificativa da empresa, para tal, é explícita: manter Zuckerberg no comando. E, quando uma empresa de US$ 1,5 trilhão diz, sem rodeios, que está criando uma classe inteira de ações para que um único homem continue decidindo tudo, o mercado precisa avaliar se confia mais no homem ou no mecanismo. Talvez, a confiança esteja justamente nesse homem, afinal, foi ele quem tirou a Meta da universidade e a transformou num verdadeiro império – e, portanto, não seria lúcido diluir o seu controle da empresa.
A Tesla Surpreendeu, Mas o Carro Já Não É a Notícia
Wall Street se preparava para um banho de sangue. O consenso entre analistas apontava que a Tesla queimaria cerca de US$ 4 bilhões em caixa no trimestre, pressionada por gastos crescentes com inteligência artificial e robótica que, combinados com vendas estagnadas de carros, produziriam o pior resultado financeiro desde que a empresa se tornou lucrativa. O que saiu foi o oposto: fluxo de caixa livre positivo de US$ 1,5 bilhão, caixa total de US$ 45,4 bilhões, margem bruta automotiva de 18,1% (melhor que a projetada) e a maior carteira de pedidos em quatro anos. Frente a isso e as especulações sobre a posição fusão com a SpaceX, alívio no mercado de capitais foi imediato: as ações subiram no after-market.
A surpresa, contudo, esconde uma história mais nuançada do que o número sugere. A receita de carros caiu 3%. As entregas destes recuaram 2%. E boa parte do caixa positivo veio não do lucro operacional – que despencou 56%, para US$ 718 milhões –, mas de uma gestão agressiva de capital de giro, ou seja, a Tesla passou a pagar fornecedores mais devagar (o prazo médio subiu de 52 para 66 dias) e a receber mais dinheiro adiantado dos clientes. São medidas que reforçam o caixa no trimestre, mas que podem se inverter no seguinte, quando as contas forem quitadas.
Prosseguindo, o lucro operacional, que é o que mede quanto a Tesla realmente ganha com o que vende, mostra uma empresa cuja margem encolheu para 2,6% – metade do que era um ano antes – porque os gastos com pesquisa em IA e robótica saltaram 69% e não são cobertos pela receita que os carros geram.
O que sustenta a tese de investimento na Tesla, a esta altura, não é mais o carro, mas é tudo o que vem depois dele. O Full Self-Driving (FSD), que é o serviço de assinatura de seus carros para que estes dirijam sozinhos, atingiu 1,74 milhão de assinaturas ativas, alta de 67%. O Cybercab, por sua vez, que é o modelo totalmente autônomo da empresa, já roda em Austin há mais de um mês, acumulando quase 2 milhões de milhas em corridas de “robotáxi” sem supervisão humana. Também, a produção do robô humanoide Optimus começou em Fremont. A Megafactory de baterias entrou em operação no Texas. E, se a fusão com a SpaceX se concretizar, a Tesla deixará de ser uma montadora que aposta em IA e se tornará parte de um conglomerado cuja ambição é controlar cada camada da cadeia produtivo do futuro, seja do chip na fábrica ao satélite na órbita.
O carro, nesse desenho, vira o que o iPod foi para a Apple: o produto que financiou a transição para o próximo. A diferença é que a Apple fez a transição com lucro. A Tesla está fazendo com margens pequenas – e precisa que tudo o que vem depois dê certo, porque o carro, sozinho, já não dá muito…
O Gargalo Não É Mais a Máquina: É Você
A Anthropic publicou nesta semana algo que pode ser o documento mais revelador já produzido por uma empresa de IA sobre o impacto de sua própria tecnologia: um estudo interno sobre como seus funcionários trabalham, ou, mais precisamente, sobre como deixaram de trabalhar do jeito que trabalhavam. Os números são, ao mesmo tempo, um testemunho de produtividade e um alerta sobre o que vem depois. Em março, as horas de trabalho realizadas por agentes de IA na Anthropic ultrapassaram, pela primeira vez, as horas trabalhadas por humanos. Em agosto, a proporção chegou a seis para um, ou seja, para cada hora que um funcionário trabalha, os agentes do Claude trabalham seis. Os envios de código entre engenheiros quintuplicaram em seis meses. E, nas áreas não técnicas, agentes pessoais já monitoram e-mails, organizam agendas e resumem reuniões antes que o funcionário sequer abra o laptop.
A frase mais impactante do estudo veio de um funcionário que descreveu o cotidiano com uma imagem que, uma vez lida, não se esquece: “É um exército de Claudes, cada um pedindo minha atenção.” E é aí que mora o paradoxo. Os agentes são rápidos, muito mais rápidos do que qualquer equipe humana. Mas precisam de supervisão: segundo o estudo, 80% do tempo total de cada sessão com o Claude é gasto esperando que o humano aprove, corrija ou redirecione o que o agente fez. O novo gargalo da produção, portanto, não é mais a velocidade do modelo nem a capacidade do chip, mas é a atenção da pessoa sentada na frente da tela.
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Assim, nesse cenário distópico apresentado, o trabalho humano não desapareceu, mas mudou de natureza: em vez de executar, o funcionário supervisiona. Em vez de programar, coordena. Em vez de escrever, revisa. E o tempo que antes era dividido entre criar e reunir agora é quase integralmente dedicado a reunir, porque os agentes criam, mas alguém precisa decidir se o que criaram está certo.
A implicação mais perturbadora do estudo, contudo, não é para quem já trabalha, mas é, infelizmente, para quem está entrando no mercado. Foi relatado que a participação de profissionais juniores nos departamentos técnicos da Anthropic caiu de 21% para 14% desde o início de 2025. Isso porque, com agentes de IA cada vez melhores, os gestores passaram a valorizar, na hora de contratar, habilidades como autonomia e julgamento mais do que conhecimentos técnicos específicos – porque, quando o agente escreve o código, o que importa não é saber programar, mas saber se o que foi programado faz sentido.
Com isso, a Anthropic estima que, até 2030, a IA poderá realizar 75% das atividades que seus funcionários executam hoje. Se isso se confirmar, a função humana remanescente – os 25% que sobram – será inteiramente estratégica, isto é, decidir o que fazer, não como fazer. Como um funcionário resumiu bem: “aqueles 20% do trabalho que eram estratégicos agora representam 90% da função.” Garnerin saltou do balão confiando que o paraquedas seguraria seu peso. Os funcionários da Anthropic saltam todo dia confiando que sua capacidade de supervisionar, coordenar e decidir é o que os torna indispensáveis. A pergunta que o estudo levanta, e que nenhum relatório consegue responder, é o que acontece quando os agentes aprenderem a se supervisionar sozinhos. Seria esse o final mais feliz (ou mais triste) para a humanidade?






