Elon Musk anunciou que pretende distribuir uma ação da SpaceX para cada criança americana em 2027. Uma promessa que pode representar mais de US$ 10 bilhões.
A Anthropic anunciou a destinação de 5% de suas ações para um fundo de benefício público, sujeito à aprovação dos acionistas. O dinheiro poderá financiar iniciativas sociais e até transferências diretas de recursos.
Michael Dell e sua esposa, Susan, destinaram US$ 6,25 bilhões para contas de investimento de 25 milhões de crianças americanas.
Três iniciativas diferentes, mas com algo em comum: a tentativa de distribuir riqueza por meio da participação no capital, e não apenas do trabalho. E talvez estejamos observando os primeiros sinais de uma transformação econômica muito maior.
Em 2021, Sam Altman publicou um ensaio chamado Moore’s Law for Everything. Na época, o ChatGPT sequer existia. Altman antecipou um problema que agora começa a ganhar contornos reais: se a inteligência artificial assumir uma parcela crescente do trabalho humano, uma parte cada vez maior da riqueza poderá ficar concentrada nos proprietários das empresas e das tecnologias.
Sua proposta era criar um fundo financiado por contribuições sobre o valor das empresas e das terras, distribuindo dinheiro e ações anualmente aos cidadãos. A lógica é interessante.
Durante séculos, nossa economia se organizou em torno de uma relação relativamente simples: as pessoas trabalham, recebem salários e utilizam esse dinheiro para consumir aquilo que as empresas produzem.
Mas imagine uma economia em que robôs e agentes de inteligência artificial sejam responsáveis por uma parcela crescente da produção. A produtividade aumenta, os custos podem cair e os lucros crescer.
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Quem ficará com essa riqueza? E como as pessoas terão renda para consumir aquilo que as máquinas produzem? Talvez o grande desafio da inteligência artificial não seja apenas descobrir como produzir riqueza sem trabalho humano, mas como distribuí-la.
É aqui que surge uma distinção interessante. Talvez o primeiro passo para uma renda básica universal não seja distribuir dinheiro mensalmente, mas democratizar o acesso ao capital. Fazer com que mais pessoas tenham participação nos ativos que geram riqueza, mesmo sem trabalhar diretamente para seus proprietários.
É claro que estamos longe disso. Uma ação ou uma pequena conta de investimento não substitui um salário. E iniciativas filantrópicas isoladas não constituem um novo sistema econômico. Mas grandes transformações costumam começar com experimentos aparentemente desconectados.
O que estamos vendo pode ser apenas filantropia. Ou pode ser o embrião de uma mudança estrutural: uma economia em que o direito de participar da riqueza deixe de depender tão fortemente da capacidade de vender o próprio trabalho.
Passamos os últimos anos perguntando se as máquinas vão substituir as pessoas. Talvez esteja chegando a hora de fazer outra pergunta: se as máquinas produzirem a riqueza, quem será dono dela?



