A Meta acaba de divulgar os resultados do terceiro trimestre de 2026. A receita chegou a US$ 64,6 bilhões, crescimento de 26%, enquanto o lucro líquido atingiu US$ 9,86 bilhões, uma alta de 264% em relação ao ano anterior, comparação influenciada por efeitos extraordinários. Mas os números mais interessantes estão nas entrelinhas.
A base de usuários cresceu apenas 3%. Enquanto isso, a quantidade de anúncios exibidos aumentou 10% e o preço médio por anúncio subiu 14%. Ou seja, a Meta está conseguindo ganhar muito mais dinheiro praticamente com a mesma audiência. É um ganho de eficiência impulsionado também pela inteligência artificial, que melhora recomendações, engajamento e publicidade.
Até aqui, estamos falando do Motor 1.
Durante duas décadas, Zuckerberg construiu uma das maiores máquinas de publicidade do planeta. Facebook, Instagram e WhatsApp fazem parte de um modelo econômico sustentado principalmente pela monetização da atenção. Hoje, quase 98% da receita da companhia ainda vem dos anúncios. E esse motor continua funcionando muito bem. O que chama atenção é que a Meta está usando o dinheiro do Motor 1 para construir um Motor 2.
Somente no último trimestre, a companhia investiu US$ 34,9 bilhões em infraestrutura, com forte direcionamento para inteligência artificial. O volume foi tão grande que, mesmo gerando US$ 32,8 bilhões em caixa operacional, terminou o período com um fluxo de caixa livre negativo de US$ 2,12 bilhões. Para 2026, a previsão é investir entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões.
E esse esforço já começa a pressionar a rentabilidade. A margem operacional divulgada caiu de 40% para 20%. É verdade que uma despesa judicial extraordinária explica boa parte dessa redução. Mas, mesmo retirando esse efeito, a margem seria de aproximadamente 35,4%. Uma queda real de 4,6 pontos percentuais.
Isso não significa que o investimento em infraestrutura seja lançado diretamente como despesa operacional. O CapEx consome caixa agora, enquanto parte de seus efeitos sobre as margens aparece ao longo do tempo, por meio da depreciação. Mas a expansão da IA também exige mais pesquisa, pessoal especializado, energia e custos operacionais. O Motor 2 está ficando caro antes mesmo de começar a produzir receitas relevantes por conta própria.
A ambição de Zuckerberg parece ser muito maior do que continuar vendendo anúncios. E o Motor 2 é a tentativa de transformar a Meta em uma companhia de inteligência artificial, assistentes pessoais, agentes autônomos, novas interfaces digitais e, possivelmente, modelos de negócios que ainda nem existem.
E aqui existe uma diferença fundamental. Usar IA para tornar o negócio atual mais eficiente é melhorar o Motor 1. Usar os lucros do negócio atual para construir uma nova fonte de crescimento é ligar o Motor 2.
Uma coisa é fazer o Instagram vender mais publicidade. Outra, completamente diferente, é construir uma plataforma de inteligência artificial capaz de participar das decisões, tarefas, compras e interações de bilhões de pessoas. É justamente essa segunda possibilidade que Zuckerberg está perseguindo.
Claro que há riscos. O Motor 2 ainda consome bilhões e não tem um modelo econômico comprovado capaz de substituir a publicidade. A aposta pode demorar muitos anos para apresentar resultados, e ninguém sabe exatamente qual será seu retorno.
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Mas existe uma lição importante nessa estratégia. Muitas empresas só começam a pensar em um segundo motor quando o primeiro apresenta sinais de esgotamento. Quando as receitas desaceleram, as margens caem ou os clientes começam a desaparecer. Nesse momento, a transformação deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.
A Meta está tentando fazer o contrário. Está construindo o próximo negócio enquanto o atual continua crescendo a dois dígitos, mesmo que isso signifique sacrificar parte da geração de caixa e aceitar uma pressão maior sobre as margens. O desafio das grandes empresas não é apenas manter o Motor 1 funcionando. É ter coragem de ligar o Motor 2 antes que o primeiro comece a falhar.
A Meta ainda é uma empresa de publicidade. Mas Zuckerberg está investindo para que ela não dependa disso para sempre.




