China a Seis Meses da Fronteira, PicPay Rumo à Nasdaq e a Netflix Transformando Espectador em Jurado
Bom dia! Hoje é 21 de janeiro. Neste mesmo dia, em 1924, morria Vladimir Lenin, líder da Revolução Russa e arquiteto de um dos maiores experimentos políticos do século XX.
Um século depois, a disputa por hegemonia não se trava mais em trincheiras ideológicas, mas em laboratórios de inteligência artificial, salas de negociação de fintechs e protocolos descentralizados.
O poder, como sempre, migra para onde o controle da infraestrutura crítica se concentra - e hoje essa infraestrutura é feita de chips, algoritmos e plataformas.
A Vantagem Ocidental em IA: Seis Meses ou Uma Ilusão de Segurança?
Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, declarou em Davos que as empresas chinesas de inteligência artificial permanecem aproximadamente seis meses atrás da fronteira tecnológica ocidental. A afirmação, direcionada especificamente ao modelo R1 da DeepSeek (que há um ano provocou tremores no Vale do Silício ao demonstrar desempenho comparável a custos drasticamente inferiores) carrega tanto um diagnóstico técnico quanto um cálculo estratégico.
Hassabis reconheceu que a China é “muito boa em se atualizar em relação à fronteira”, mas sustentou que ainda não demonstrou capacidade de inovar além dela.
O problema com essa narrativa confortável e ocidentalizada é que ela pode estar medindo a corrida errada. A vantagem competitiva em IA não se resume exclusivamente a quem publica o próximo benchmark impressionante, mas a quem consegue escalar soluções de forma economicamente viável, integrar modelos em cadeias produtivas reais e construir ecossistemas autossuficientes.
A DeepSeek demonstrou exatamente isso: uma capacidade de entregar resultados de ponta, mesmo operando sob sanções severas de semicondutores - sendo essa a força motora deste modelo de arquiteturas não convencionais que revelaram-se mais eficientes e baratos no treinamento de LLMs de longo prazo. A escassez, nesse caso, funcionou como mãe da invenção.
Ainda diante disso, a flexibilização anunciada por Trump nas restrições de exportação de chips avançados para a China adiciona uma camada de complexidade e perigo geopolítico considerável para as grandes empresas de IA do Ocidente. Afinal, agora, além de a China ter o poder de “baratear” modelos generativos, com estes chips, abre-se a oportunidade de se gerar inovação (devido ao poder de processamento) - e, quem sabe, engenharia reversa para a criação de chips nacionais.
O próprio Dario Amodei, CEO da Anthropic, compara a medida a “vender armas nucleares para a Coreia do Norte”.
Entre a hipérbole e o pragmatismo, uma verdade se impõe: a janela de vantagem ocidental, se é que existe nos termos que Hassabis sugere, pode estar se fechando mais rapidamente do que os seis meses indicam. Quando startups chinesas como Minimax e Zhipu já preparam IPOs em Hong Kong, o mercado está precificando não um atraso, mas uma convergência acelerada.
PicPay na Nasdaq: O Retorno das Fintechs Brasileiras ao Mercado Global
O PicPay já há algumas semanas formalizou seu pedido de IPO na Nasdaq, buscando captar mais de US$ 400 milhões, com uma avaliação potencial de US$ 2,5 bilhões. Se concretizada como o esperado, será a primeira oferta pública de uma empresa brasileira no exterior desde o Nubank em dezembro de 2021 - um hiato de quatro anos que reflete tanto a retração global de liquidez quanto a desconfiança específica com ativos latino-americanos após ciclos de euforia, correções e muitas instabilidades políticas.
A precificação está prevista para 28 de janeiro, com ações entre US$ 16 e US$ 19, e a participação confirmada da Bicycle, fundo de Marcelo Claure, sinalizando um apetite institucional relevante.
A trajetória do PicPay ilustra uma metamorfose arquetípica do setor: de carteira digital lançada em 2012 para banco completo com 66 milhões de clientes. A receita, que no início era de R$ 270 milhões, chegou a R$ 7,26 bilhões nos primeiros nove meses de 2025, um crescimento superior a 90% em relação ao período anterior, demonstrando que a empresa encontrou um modelo de monetização sustentável após anos de queima de caixa típica do setor.
O timing da oferta também não é acidental. Com Agibank (banco híbrido brasileiro) também preparando IPO na NYSE e movimentações de Aegea e BRK Ambiental no mercado doméstico, há uma janela de oportunidade sendo testada para os latinos. O sucesso ou fracasso do PicPay funcionará como termômetro para o apetite global por ativos brasileiros em um momento de incerteza macroeconômica.
Para o ecossistema fintech nacional, a validação de um valuation na casa dos bilhões em mercado americano representaria não apenas liquidez, mas legitimação de uma tese que muitos consideravam exaurida após as correções de 2022-2023.
Netflix e a Gamificação do Streaming: Quando Assistir Vira Participar
A Netflix lançou oficialmente seu recurso de votação ao vivo, estreando com o programa de talentos “Star Search”. Espectadores poderão agora votar em tempo real via controle remoto ou aplicativo móvel, influenciando diretamente os resultados do programa.
A funcionalidade opera globalmente, com janelas temporais limitadas, ou seja, quem assiste depois não participa.
O movimento representa uma redefinição fundamental do que significa ser uma plataforma de streaming. A Netflix construiu seu império sobre o modelo de consumo assíncrono: assista o que quiser, quando quiser, no ritmo que quiser. A introdução de votação ao vivo inverte essa lógica ao criar urgência temporal e valor na simultaneidade.
Elizabeth Stone, CTO da empresa, foi explícita: o objetivo é que “um assinante da Netflix possa realmente se sentir parte da história, influenciar o enredo e se sentir imerso nela. É a transição de espectador para participante, de audiência para comunidade”.
As implicações competitivas são significativas. Redes tradicionais como NBC, e a própria Globo aqui no Brasil, dominaram por décadas o formato de reality shows com votação ao vivo em programas como o Big Brother e The Voice, que construíram modelos de engajamento que a Netflix agora quer replicar em sua infraestrutura tecnológica que é notavelmente superior e familiar para a geração mais jovem.
A capacidade de processar votos globalmente em tempo real, integrados entre dispositivos, cria possibilidades que a televisão linear jamais alcançou. Mais profundamente, a Netflix pode até mesmo estar experimentando com o próprio conceito de narrativa. Afinal, seu público, que poderá influenciar resultados ao vivo hoje, no futuro, poderá (quem sabe) até mesmo determinar arcos narrativos de séries ficcionais em tempo real - o ápice do senso de urgência gerado nos consumidores. Imagine o lançamento de uma temporada de Stranger Things em que o final é decidido ao vivo pelos espectadores?
A gamificação do entretenimento vem como mais uma tendência (além da verticalização dos conteúdos) nessa economia onde a atenção está cada vez mais difícil de conquistar.








