Bom dia! Hoje é 5 de novembro. Neste mesmo dia, em 1605, soldados ingleses descobriam Guy Fawkes num porão sob o Parlamento em Westminster, cercado por 36 barris de pólvora que pretendiam explodir durante a sessão de abertura na manhã seguinte, matando o rei Jaime I e toda a classe política do país numa única detonação. A Conspiração da Pólvora, como ficou conhecida, nunca se concretizou. Fawkes foi preso, torturado e executado. Mas o que a conspiração produziu de mais duradouro não foi a explosão que não aconteceu, mas foram as barreiras que o governo ergueu depois: leis de restrição religiosa, sistemas de vigilância, protocolos de segurança que transformaram para sempre a relação entre o Estado e quem tenta derrubá-lo. Deste modo, uma única noite de outubro mudou a Inglaterra não pela destruição que causou, e sim pelas defesas que obrigou a construir.
Quatrocentos e vinte e um anos depois, as notícias de hoje são, cada uma à seu modo, sobre barreiras que pareciam permanentes e que, quando caem, redesenham o mapa do que vem depois. Primeiramente, o ChatGPT já processa um volume de buscas equivalente a 20% do Google, isto é, um número que, há três anos, parecia impossível para um chatbot, e que agora levanta a pergunta de quanto tempo o mecanismo de busca que definiu a internet por duas décadas continuará sendo o destino padrão de quem quer encontrar algo. No setor financeiro, a Revolut atinge uma avaliação de US$ 115 bilhões, o dobro do Nubank, mesmo sem ter aberto capital e, na verdade, se preparando para disputar o mesmo mercado americano que o Nubank inaugurou há semanas, provando que a barreira geográfica que separava bancos por décadas não existe mais para quem nasce digital. De volta ao solo, a “IA física”, que é, em geral, representada por robôs, drones, sensores e visão computacional aplicados ao mundo tangível, começa a sair dos laboratórios e a entrar nas fazendas, nas fábricas e nas usinas brasileiras, derrubando a barreira que mantinha a inteligência artificial presa às telas. Por fim, a Anvisa aprova o Wegovy em comprimido, eliminando a última barreira que separava milhões de pacientes do tratamento para obesidade: a agulha. Em todos os casos, a barreira não caiu sozinha; alguém a derrubou. E o que estava do outro lado, como a Inglaterra pós-Fawkes demonstrou, nunca mais será o mesmo.
O ChatGPT Já Responde 1/5 das Buscas que o Google Responderia
Durante 25 anos, buscar informações na internet significou uma coisa: abrir o Google, digitar palavras-chave e escolher entre uma lista de links recomendados. O modelo era tão dominante que “googlar” se tornou verbo em mais de vinte idiomas, ao passo que concorrentes, como o Bing, da Microsoft, nunca passaram dos 3% de captação de mercado. Ninguém conseguia arranhar o monopólio.
Nesta semana, porém, a OpenAI revelou que o ChatGPT já processa um volume de consultas equivalente a 20% do que o Google registra, isso não incluindo perguntas simples de definição ou instrução de tarefas, mas apenas as buscas que efetivamente resultam em pesquisa na web. Com isso, a informação é o equivalente a dizer que, de cada cinco vezes que alguém no mundo quer encontrar algo, uma delas acontece dentro de uma conversa com o ChatGPT em vez de acontecer numa barra de pesquisa.
Com efeito, o número é, ao mesmo tempo, impressionante e revelador do que ainda falta. Vinte por cento do Google é incomparavelmente mais do que qualquer concorrente jamais alcançou, haja vista que o maior deles, o Bing, levou mais de uma década para chegar a 3% e nunca saiu de lá. Mas também significa que 80% da demanda por busca ainda pertence ao Google, e que a distância entre desafiar e destituir um líder é a mesma que separa um terremoto de uma réplica: chacoalha, mas não derruba.
Contudo, o que torna o número anunciado pela provedora de IA estrategicamente mais relevante do que a fatia de mercado conquistada é o tipo de busca que a OpenAI vem capitando. Isto é, quando alguém pergunta ao ChatGPT “qual o melhor hotel em Lisboa para uma família com crianças pequenas” em vez de digitar “hotel Lisboa família” no Google, o que se muda não é apenas onde a pergunta é feita, mas é como a resposta é consumida. No Google, o usuário recebe links e decide sozinho o que vai fazer com eles. No ChatGPT, ele recebe uma resposta conversacional, com diagramas interativos, comparações visuais e, cada vez mais, anúncios de marcas que pagaram para estar ali.
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Deste modo, a Interface Inteligente presente nos serviços da OpenAI transforma a busca de uma lista de resultados em uma nova experiência visual ao usuário. E, como bem se sabe, quando a experiência é melhor, o usuário tende a respeitar aquele antigo e nada datado ditado, “o paladar não regride”.
Assim, a Entrelinha que conecta os 20% do ChatGPT ao arco comercial que acompanhamos é a publicidade. A OpenAI confirmou que os anúncios dentro do ChatGPT não provocaram “reação negativa duradoura” entre os usuários, o que, traduzido do corporatês, significa que as pessoas aceitaram. Nesse caso, os Sponsored Agents, ou seja, os agentes vendedores de IA que conversam com o consumidor dentro do chat, são a próxima camada evolutiva nessa relação de busca e consumo travada entre IA e internautas.
Frente a isso, tendo em vista, também, o lançado do “pacote office da OpenAI”, a trajetória de negócios da empresa parace ser clara: o ChatGPT não quer ser uma alternativa ao Google. Quer ser o lugar onde busca, trabalho, compra e decisão acontecem sem que o usuário precise sair de seu ecossistema. O Google levou 25 anos para convencer o mundo de que a resposta começava numa barra de pesquisa. Agora, a OpenAI está tentando reconvencer o mundo de que a resposta começa numa conversa com um chatbot. E, quando a conversa for boa o suficiente, a barra de pesquisa ficará tão obsoleta quanto a lista telefônica que o Google substituiu.
A Revolut Vale o Dobro do Nubank, e Irão ao Embate nos EUA
A Revolut ainda não abriu capital. Nem sequer captou dinheiro novo, e muto menos anunciou algum produto revolucionário. Mas, ainda assim, vale hoje US$ 115 bilhões, isto é, em comparação, quase o dobro dos US$ 56 bilhões que o Nubank registra na Bolsa de Nova York. A cifra saiu de uma venda secundária de ações, que é, basicamente, uma operação em que investidores existentes vendem participações a novos compradores, e consolida o banco digital britânico como a empresa privada mais valiosa da Europa.
A razão pela qual investidores estão dispostos a pagar esse preço por uma empresa que ainda não abriu capital é, ao mesmo tempo, simples e instrutiva (e te convenceria a comprar também): a Revolut lucra. No ano passado, a empresa faturou US$ 6 bilhões, uma margem operacional de 38% antes do recolhimento de impostos. Essa razão é importante porque lucrar, na era em que companhias como a OpenAI, Meta ou Anthropic queimam caixa regularmente, é o tipo de raridade que o mercado remunera como um prêmio.
Ainda, há a coincidência (ou não) de que tanto o Nubank quanto a Revolut receberam uma aprovação condicional do regulador bancário americano com semanas de diferença – sendo que o Nubank inaugurou sua conta em Miami em setembro e a Revolut espera abrir seu banco no primeiro semestre de 2027 –, transformando, assim, os Estados Unidos no novo campo de batalha que definirá qual dos dois neobancos será o maior do mundo.
Nesse cenário, as estratégias de penetração no mercado americano de cada um são diferentes e, portanto, revelam como cada empresa entende o mercado. De um lado, o Nubank entra pelo público latino – com o dado de que 80 milhões de pessoas que já conhecem a marca – e oferece rendimentos de, aproximadamente, 3,50% ao ano sobre cada dólar investido em seus cofres, apostando que o consumidor mal atendido pelos bancos americanos se tornará seu, especialmente pela conveniência e retorno financeiro que o roxinho oferece – ou seja, parece ser uma estratégia semelhante a usada em seu captação de CPFs no Brasil.
Por outro lado, a Revolut, que já opera em mais de 40 países com cerca de 80 milhões de clientes, entra com uma proposta de multisserviço – oferecendo soluções para câmbio, cripto, investimentos, seguros e conta multimoedas – que funciona como uma espécie de canivete suíço financeiro para quem viaja, trabalha em mais de um país ou simplesmente quer tudo num único aplicativo.
Deste modo, a Entrelinha mais consequente da avaliação de US$ 115 bilhões, contudo, não é sobre a Revolut, mas sim sobre o que ela diz a respeito do Nubank. Se a Revolut, com sua clientela espalhada ao redor do mundo, vale US$ 115 bilhões no mercado privado, o Nubank, que possui 118 milhões de clientes só no Brasil (quase 40 milhões a mais de clientes que seu concorrente britânico, apenas no Brasil), uma operação que acontece em cinco países e uma receita média que cresce em cinquenta casas decimais ao ano, pode estar, na bolsa, subavaliado.
Ou a Revolut, no mercado privado, pode estar sobreavaliada. De todo modo, a diferença entre as duas hipóteses só será revelada quando a Revolut abrir capital, evento que ocorrerá provavelmente em 2028, numa listagem dupla em Nova York e Londres que, de acordo com especuladores do mercado, pode avaliar a empresa em US$ 200 bilhões. Até lá, o que se observa é uma corrida em que dois bancos nascidos em continentes diferentes, construídos sobre modelos diferentes e financiados por investidores diferentes convergem para o mesmo mercado: o americano. Sendo este um terreno onde seus potenciais consumidores, há pouco tempo, sequer os conheciam e, por isso mesmo, decidirão, com o polegar, qual app ficará na tela principal de seu celular, e qual vai para a pasta de aplicativos que ninguém abre.
A IA Saiu da Tela e Foi para a Lavoura
Quando se fala em inteligência artificial no Brasil, a imagem que vem à mente é quase sempre a de uma tela: seja ela com o ChatGPT respondendo perguntas, com Copilot escrevendo códigos ou com o Gemini montando apresentações. Ou seja, nos vem na cabeça a IA de escritório, limpa, rápida e confinada ao mundo digital. Mas numa fazenda de cana no interior de São Paulo ou num parque eólico no Rio Grande do Norte, a IA que importa para o aumento de produtividade daquele negócio não mora na tela. Mora no sensor que detecta a vibração de uma bomba antes de ela quebrar, no drone que mapeia uma lavoura de 10 mil hectares em horas que um agrônomo levaria semanas para percorrer, e no robô que arranca erva-daninha sem herbicida, pé por pé, guiado por visão computacional que distingue milho de mato em milissegundos. O nome disso é “IA física”, e o Brasil, segundo um mapeamento global da AWS, já tem 12% de suas startups dedicadas a ela.
Sob essa ótica, a Tractian, que se tornou unicórnio neste ano ao receber US$ 130 milhões em aportes financeiros, é o exemplo mais visível de uma tendência que vai muito de seu CNPJ. Para contextualizar, a empresa instala sensores em máquinas industriais que preveem falhas antes de elas acontecerem, transformando, com isso, a manutenção de “algo quebrou, vamos consertar” para “algo vai quebrar em 72 horas, vamos trocar a peça agora”.
Mas o ecossistema é mais amplo: 26% das startups brasileiras de IA física já trabalham com drones ou sistemas aéreos autônomos, o que representa a terceira maior taxa de uso desse tipo de sistema do mundo, acima da média global de 19%. Contudo, no caso do nosso país, o motor que puxa essa adoção não é a indústria, como nos Estados Unidos ou na Alemanha. É o agronegócio, que, no Brasil, enfrenta gargalos que nenhuma planilha resolve, pois ele é recheado de lavouras do tamanho de cidades, pragas que se espalham mais rápido do que um técnico consegue caminhar e operações em regiões tão remotas que a presença humana contínua é, muitas vezes, inviável.
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Por essa razão, a Entrelinha que torna a IA física brasileira relevante para além do campo é o que ela demonstra sobre o tipo de inovação que o país pode liderar, e que, até agora, ninguém associava ao Brasil. O ecossistema de startups do país sempre foi dominado por fintechs, muito em razão de que os varios tipos de softwares financeiros entregam, aos acionistas e investidores-anjo, retorno rápido e exigem menos capital investido do que negócios baseados em hardware.
Entretanto, a IA generativa está derrubando a barreira que separava os dois mundos: modelos que antes exigiam anos de treinamento especializado agora podem ser adaptados em semanas para interpretar imagens de satélite, classificar pragas e coordenar frotas de drones. O resultado é que projetos que, há três anos, precisariam de US$ 5 milhões em investimento para chegar ao protótipo hoje chegam com US$ 500 mil, e, com isso, os investidores, cansados de apostar em fintechs cujas margens encolhem a cada novo concorrente que surge, começam a olhar para startups que resolvem problemas tangíveis, com indicadores mensuráveis e clientes que pagam muito bem, porque o retorno é visível na safra seguinte.
Portanto, têm-se aqui uma clara oportunidade. A IA que o Brasil pode exportar para o mundo talvez não seja a que escreve e-mails, mas pode ser a que colhe algodão. Afinal, nosso agro já é um dos mais potentes do mundo, por quê não começarmos a exportar, além da soja, produtos da agroindústria tech?
O Ozempic Virou Comprimido: a Última Barreira Acaba de Cair
Se você acompanha estas edições desde, pelo menos, o começo desse ano, sabe que a cascata dos GLP-1 já redesenhou o mercado de açúcar, o de etanol, o de roupas, o de cerveja, o de refrigerantes e o de salgadinhos. Sabe, também, que um em cada três domicílios brasileiros já tem alguém usando canetas emagrecedoras e que, nesses lares, foi reduzido em grande quantidade o consumo de pelo menos uma categoria inteira de alimento. Mas também sabe que, em todos esses capítulos, existia uma barreira que nenhum preço e nenhuma prescrição resolvia: a agulha. Milhões de pessoas que tinham indicação médica para usar semaglutida simplesmente recusavam o tratamento porque não suportavam a ideia de se autoaplicarem uma injeção semanal. Nesta quarta-feira, porém, a Anvisa derrubou essa barreira. O Wegovy oral, que é composto por semaglutida em comprimido, foi aprovado para uso no Brasil. É o primeiro GLP-1 em formato oral do país.
Diante disso, a aprovação muda a equação do mercado de três formas simultâneas. A primeira é a psicológica: a aicmofobia, ou seja, o medo de agulhas, é uma das fobias mais prevalentes do mundo, e afasta uma parcela significativa dos pacientes que, de outra forma, seriam candidatos ao tratamento. Deste modo, um comprimido tomado diariamente é, para esse público, a diferença entre tratar e não tratar com o uso dos emagrecedores.
A segunda é logística: canetas injetáveis exigem certo cuidado em seu armazenamento, geralmente necessitando de ambientes refrigerados, descarte adequado de agulhas e um ritual de aplicação que muitos pacientes descrevem como desconfortável, especialmente em viagens ou ambientes de trabalho. Nesse caso, um comprimido cabe no bolso e não precisa de geladeira. Por fim, a terceira é de mercado: quando o formato oral se consolidar, e a tendência, segundo analistas farmacêuticos, é que os injetáveis fiquem reservados para casos mais severos e fases iniciais de choque, enquanto os comprimidos assumam a manutenção de longo prazo, o público potencial se expandirá para muito além do que a caneta já alcançou.
Com isso, a Entrelinha que conecta o comprimido ao arco completo que documentamos ao longo de meses é que cada barreira de acesso que cai acelera a cascata, e esta, aparentemente, era a última grande barreira que restava. Isso porque a do preço já caiu com a chegada dos genéricos, como Semavy. A da distribuição se expandiu com plataformas como o Mercado Livre vendendo entregando esses medicamento, em nossas casa, em até uma hora. E agora, ao fim, o formato se simplificou com o comprimido que elimina a agulha.
Deste modo, quando se remove, uma a uma, cada barreira entre o consumidor e um medicamento que desliga o apetite, o que se obtém não é uma mudança de nicho, mas é uma mudança de população. A cascata que começou com uma caneta na barriga de pacientes de alta renda pode, com o comprimido, atingir qualquer pessoa com uma receita e acesso a uma farmácia.
Guy Fawkes tentou derrubar o Parlamento com pólvora e faliu. A semaglutida está derrubando hábitos alimentares, cadeias de suprimentos e categorias inteiras de produtos, e a barreira que acabou de cair era a última que restava entre a molécula e o público inteiro.






